           A   MANSO      DA   PEDRA     TORTA


Vera Lucia Marinzeck
Antonio Carlos



Indice
O emprego                                9
A Manso da Pedra Torta                 17
Osonho                                  29
O salo de baile                        41
A bandeira branca                       46
Excursionando com Cirilo                54
A tolTe                                 64
Reencarnao                            77
Dr. Bernardo                            93
O criminoso                            106
Mais um crime                          118
Deixando a manso                      129


          O Emprego



     Ana Elizabeth andava apressada, naquela hora no havia muito
movimento nas ruas. Uma garoa fina e fria molhava suas roupas. Pensou
aborrecida por que tinha esquecido de trazer a capa impermevel ou o
guarda-chuva.
     "Acho que foi a briga de mame com papai" - resmungou baixinho.
     Entrou num bar resolvida a esperar at as duas horas e trinta minutos
para subir ao escritrio da Dra. Janice para ver se conseguia o emprego.
Acomodou-se num canto em uma mesa; no bar estavam somente algumas
pessoas. Pediu um chocolate quente, abriu o jornal e leu pela dcima vez o
anncio.
     "Precisa-se de moa que saiba Ingls e Francs para lecionar para uma
criana."
     Embaixo os documentos necessrios e o local, uma fazenda do interior
do estado, e o ordenado.
     "No  muito, mas  a soluo."
     O garom a olhou sem entender, chegou mais perto e percebeu que ela
falava sozinha. Ana sorriu, no conseguia tirar essa mania. Desde pequena
falava sozinha, quando estava preocupada falava mais ainda, no se
importando com o espanto ou o riso das pessoas.
     O emprego seria a soluo, mas nada era perfeito, continuou a pensar.
Gostava da cidade em que morava, a capital do seu estado e sentia ter que
se ausentar. Mas procurava emprego h tanto tempo, sem nada ter de
concreto. No queria viver  custa de seus pais, que lhe diziam sempre que
estavam juntos por sua causa. Moravam num bairro tranqilo e gostoso,
atualmente tinha poucas amigas morando perto, porque quase todas casaram
e foram residir longe do bairro.

     Desde quando era pequena seus pais brigavam muito. Por isso, Gilson,
seu nico irmo, mais novo do que ela, entrou para o exrcito e foi residir em
outra cidade. A separao de seus pais parecia inevitvel e ela estava
conformada. Seria bom que sasse de casa e deixasse os dois resolverem o
que seria melhor para eles.
     Nem Felipe lhe interessava mais. Recordou-se de Felipe, seu antigo
namorado. Fazia um ms que eles tinham brigado e ele j fora visto com
outra. Ana no se importava, no o amava. Nunca amara ningum, mas
certamente amaria algum um dia.
     Olhou o relgio, eram duas horas e dez minutos, suspirou. Pagou a conta
e leu mais uma vez o anncio, saiu do bar e foi para o endereo marcado.
     O escritrio estava aberto e uma moa, a secretria, a atendeu. Quando
Ana disse que viera pelo anncio, ela pediu para ver os documentos
solicitados. Ana Elizabeth tinha se formado h alguns meses. Mostrou o
diploma com orgulho, sempre fora tima aluna. O anncio pedia tambm que
a candidata fosse solteira, certamente porque exigia que fosse morar no local
e no poderia levar o cnjuge.
     - J so muitas as candidatas?
     - No, as que vieram no estavam com os documentos. O anncio pede
pessoa jovem, solteira, formada em Francs e Ingls. Mas os seus
documentos esto corretos. Assim que a Dra. Janice chegar, ela a atender.
     Dra. Janice era uma advogada, seu escritrio era bem montado e bonito.
Com a preciso de um relgio suo, s duas horas e trinta minutos, Dra.
Janice entrou no escritrio e aps cinco minutos recebeu Ana.
     - Muito bem, voc atende aos requisitos exigidos. No se importa de
ausentar-se daqui e ir para o interior? A manso de D. Eleonora fica numa
fazenda a quinze quilmetros de uma cidadezinha.
     - No, senhora, no me incomodo.
     - Sabe, tambm, que o contrato  de seis meses, se
voltar antes no recebe ordenado e no sero pagas as despesas de
viagem?
     - Li o anncio.
     - Muito bem - continuou Dra. Janice. - A criana para quem dar aula 
um menino de quatorze anos e doente. Ter que ter com ele muita pacincia.
     - E deficiente mental?
     - Um deficiente mental no iria aprender lnguas, no acha, senhorita?
     - Certamente, - Ana respondeu, encabulada.
     - Se concorda com tudo, poder assinar o contrato. Amanh voltar aqui
para pegar a passagem de trem e saber de mais detalhes. Boa tarde.
     - Boa tarde.
     Ana Elizabeth assinou o contrato com a secretria e foi embora, o tempo
havia melhorado. No falou nada para seus pais do emprego que arrumara.
No outro dia, l estava no horrio certo. Dra. Janice lhe entregou a passagem
e um papel com as instrues e esperou que Ana lesse e tirasse as dvidas.
     - Chegarei  cidade e um empregado da fazenda estar me esperando?
     - Sim,  s aguardar. E uma estao tranqila e no haver enganos.
     - Manso da Pedra Torta! - exclamou Ana.- Que nome estranho, pedras
tm formatos, normalmente so tortas.
     Dra. Janice pela primeira vez sorriu.
     - Logo ver o porqu deste nome. H no jardim, na frente da manso,
uma bonita pedra que  toda torta ou curva, formando quase um "S", por isso
o nome da manso. Boa tarde e boa viagem. Gostar de l e do trabalho.
     Dra. Janice levantou-se da cadeira e estendeu a mo a Ana,
despedindo-se. A jovem professora levantou-se rpido e saiu.
     Enquanto caminhava pelas ruas, foi pensando: "Outono de 1955, eu, Ana
Elizabeth, empregada, saio de casa e vou".
para longe."
     Ao chegar em casa no havia ningum. Aproveitou para escrever ao
irmo dando-lhe a boa noticia e seu novo e temporrio endereo.
Despediu-se das amigas com bilhetes, que colocaria no correio no dia
seguinte logo cedo. Comeou a arrumar suas malas, no levaria muita coisa,
mas no poderia esquecer seus livros didticos.
     Sua me chegou e ela de forma simples contou a novidade.
     - Que  isto? - falou a me de Ana indignada. - Ir para longe? Nem sabe
ao certo o que ir fazer? Isto nunca! Voc no vai!
     - Vou e vou! - retrucou Ana, alterada. - A senhora e o papai no esto
sempre dizendo que se aturam por minha causa? J se aturaram demais e
sou eu quem no agenta mais estas brigas. J sou maior, formei-me e 
justo trabalhar e me sustentar no atrapalhando mais os senhores.
     O pai chegou no meio da discusso e como sempre seus pais
esqueceram dela e comearam a brigar. Ana gritou e bateu os ps no cho
com fora, os dois pararam e ela falou convicta:
     - Est decidido, eu vou, j assinei o contrato. Saio de casa e os senhores
faam o que quiserem. No atrapalho mais. Parto amanh s dez horas. Nem
os quero na estao.
     Entrou no seu quarto, deixando-os brigar. No dia seguinte cedinho, ao
sair do quarto encontrou a me, que lhe preparava o caf. Tomou seu
desjejum em silncio.
     - Mame,, no se preocupe comigo. Estou feliz em ir, estarei bem l. E
um emprego como outro qualquer. O que ganhar ser livre, no terei
despesas. Darei aulas a uma pessoa somente, uma criana.
A me de Ana chorou, mas enxugou as lgrimas logo que viu o marido entrar
na cozinha. Ana abraou os dois, pegou suas malas e saiu apressada,
embora ainda faltasse muito para o horrio de embarque. Ao fechar o porto
do pequeno jardim, escutou a discusso dos pais e andou depressa. Quis
chorar, mas animou-se, longe das brigas viveria melhor.
     Passou pelo correio, que era perto de sua casa, e colocou as cartas.
Depois pegou uma charrete de aluguel e foi para a estao. Chegou bem
antes do horrio, perguntou trs vezes pelo trem, at que este chegou e
tomou seu lugar. O tempo estava frio, chovendo, e tudo indicava que o
inverno seria rigoroso aquele ano. Foi prestando ateno  paisagem, sempre
gostou de olhar a natureza. A viagem foi tranqila, viajou por seis horas e
chegou ao seu destino.
     Desceu do trem e no viu ningum que a poderia estar esperando.
Colocou suas malas, duas grandes e uma pequena, num banco, e foi at o
outro lado, na frente da estao, ver se algum a procurava. S avistou duas
charretes de aluguel. O tempo estava frio, no chovia, mas estava nublado.
Um menino de uns treze anos aproximou-se de Ana e indagou:
     - A senhora quer que a leve a algum lugar?
     - No, por enquanto no, espero algum que me levar  Manso da
Pedra Torta.
     - A senhora vai  Manso da Pedra Torta? Que coragem! Vai a passeio?
     - No, vou trabalhar - Ana respondeu toda orgulhosa.
    - Contaram para a senhora que a manso  assombrada Zez... No
incomode a senhora com conversa boba.
Venha c! - gritou um homem de forma enrgica.
     O garoto saiu correndo. Ana ainda quis indagar o menino sobre o fato de
ele ter falado que a manso era assombrada, deu at uns passos para ir atrs
dele, mas no houve mais tempo. Escutou algum falar atrs dela:
     - Senhorita Ana Elizabeth?
     - Sim.
     - Por aqui, por favor, D. Eleonora a espera.
     Pegaram as malas, ela, a pequena, e ele, as duas grandes.



      Seguiu o homem, que, abrigado numa capa preta com capuz, mal
deixava ver o rosto, que parecia tentar esconder. Mancava de uma perna e
andou  sua frente. Comeou a cair uma garoa fina e o vento estava forte e
frio. Andaram poucos metros e o homem parou perto de um automvel novo e
moderno. Ele abriu o porta-malas e colocou a bagagem, aps, abriu a porta
de trs e Ana se acomodou e ficou quieta.
      - Dentro de vinte minutos chegaremos, senhorita. Sou empregado da
manso.
      Ana suspirou e tranquilizou-se, o pobre homem s se abrigava da chuva
e do vento em sua capa. A paisagem parecia bonita, pelo menos foi o que ela
deduziu, j que no dava para ver muito, pois a chuva engrossara.
      O percurso lhe pareceu pequeno. O carro entrou pelo jardim e Ana pde
notar que este era bem cuidado e com muitos canteiros. No centro ela viu
uma pedra de uns dois metros de altura, muito bonita, parecia realmente um
"S". O carro parou em frente  varanda. O empregado desceu e abriu a porta
do carro para ela, depois pegou as malas e subiu os poucos degraus. Nada
falou e Ana o seguiu. No precisaram bater na porta, esta se abriu e uma
moa toda risonha e simptica lhe deu as boas-vindas.
      - Boa tarde, senhorita Ana Elizabeth, sou Snia, a arrumadeira. Seu
quarto est preparado. D. Eleonora no pde vir receb-la, pede desculpas,
est indisposta, o tempo talvez... Mas, siga-me.
      Snia pegou suas malas. Quando Ana foi se despedir do seu condutor,
este j havia sado. Ela, ento, examinou rapidamente a sala e viu que o hal
de entrada tinha duas portas que davam para duas salas, uma para visitas e
outra para a qual Snia a levou, mais simples. Mas Ana achou-a muito bonita.
Num lugar de destaque, viu uma escultura dourada de um metro, cpia exata
da pedra do jardim.
      - Que bela escultura!
      - E a pedra torta, igual  do jardim. A pedra foi achada no terreno quando
a manso foi construda h muito tempo.
Colocaram-na no jardim e depois fizeram esta escultura que est na sala.
      Ana seguiu Snia pelos corredores, subiram as escadas e entraram no
aposento que lhe fora reservado. Era composto de sala de vestir, banheiro,
uma pequena saleta e um espaoso quarto, com uma enorme cama de casal.
      - Espero que a senhorita goste - disse a arrumadeira.
      - Por favor, me chame de Ana. Mas  encantador, este quarto  quase do
tamanho de minha casa.
      Snia sorriu e aconselhou:
      - Aproveite para colocar seus pertences no lugar, pode tomar banho,
fique  vontade; trarei o jantar s dezenove horas, mas nos outros dias
dever tomar as refeies na copa com a criadagem. Amanh, se o tempo
melhorar, poder sair e conhecer a fazenda. As oito horas amanh virei
busc-la para o caf, D. Eleonora quer entrevist-la s nove horas. Se
precisar de mim, puxe este cordo.
     Sorriram...
     - Bem - finalizou Snia aps uma pausa -` at  noite, certamente quer
descansar.
     Snia saiu. Ana estava com fome, mas envergonhada no pediu um
lanche. Tomou um banho e guardou suas roupas. Aps olhou pela janela, j
no enxergava nada, s pequenas luzes l fora. Sentou-se numa grande
cadeira forrada de veludo vermelho e ficou a pensar. Era romntica, vivia
sonhando. Talvez, pensou, o seu amor estivesse por ali. Quem sabe se
casaria e no voltaria mais para sua casa, tambm achava que para l no
daria mais, seus pais certamente se separariam e a casa seria desfeita.
Quando voltasse teria que procurar um lugar para morar. Mas no queria
pensar nisto agora, estava empregada por seis meses e isto deveria bastar no
momento. E durante este tempo teria onde morar. E que lugar! A manso era
maravilhosa, talvez um tanto misteriosa, ou, como o menino na estao falou,
assombrada. Riu, no acreditava nisto. Levantou e foi arrumar seus livros e
cadernos na escrivaninha. Tudo ali estava muito limpo e o quarto
era moderno, nem parecia fazer parte da construo antiga como diziam ser a
manso. Deveria ter sido tudo reformado, mas tambm era bem conservada.
As sete horas e trs minutos, Snia lhe trouxe o jantar numa bandeja.
     - Voc deve estar cansada, amanh pego a bandeja. Boa noite! -
Despediu-se e retirou-se, discreta.
     Ana comeu com apetite. Teve vontade de sair e andar pela manso, mas
temeu ser indiscreta. Recolheu-se para dormir, cansada, adormeceu logo na
imensa cama, para acordar s sete horas e trinta minutos pelo relgio
despertador.
     Sorriu e disse para si mesma: "Bom dia, senhora professora! Bom dia,
Ana Elizabeth"
     Levantou-se num salto e preparou-se para a entrevista com D. Eleonora,


    II A Manso da Pedra
         T orta




     Ana vestiu uma de suas melhores roupas, um conjunto de saia e blusa
azul-claro e branco. Gostou do resultado, estava elegante, ansiosa esperou
Snia vir busc-la. Olhou pela janela, seu quarto ficava na ala direita do piso
superior, dava vista para os fundos da manso. Avistou um pequeno bosque
e um riacho quase escondido pelas rvores e, mais adiante, uma enorme
rea de plantio.
     O tempo estava nublado, ventava muito e estava frio l fora. Embaixo de
sua janela, ficavam umas casinhas e a estrebaria. Olhou tudo curiosa, achou
muito bonito. De repente, viu um vulto que reconheceu ser o homem que fora
busc-la na estao. Estava com a mesma capa e andava rpido apesar de
mancar muito. Ele puxava um bonito cavalo alazo com uma enorme malha
branca no pescoo.
     "Que criatura esquisita! Gostaria de ver seu rosto. Bem, se ele trabalha
aqui, no faltar oportunidade", Ana falou baixinho.
      Levou um susto quando Snia abriu a porta.
      - Desculpe-me, Ana, no quis assust-la, mas bati na porta.
      - Tudo bem,  que estava distrada e nem ouvi. Estou pronta, podemos ir.
      Ana seguiu Snia, desceram as escadas, passaram pela sala e foram 
copa, onde Ana tomou rpido seu desjejum. Quando acabou, chamou por
Snia.
      - D. Eleonora - disse a arrumadeira - a espera no pequeno escritrio ao
lado do quarto dela.
Na sala havia duas escadas, uma que levava  ala direita onde estava o
quarto de Ana, e a outra,  ala esquerda. As escadas ficavam uma ao lado da
outra, s eram separadas por uma parede. E, para passar de uma ala para
outra, era preciso descer uma escada e subir a outra. Os quartos ficavam na
parte de cima. Uma grande parte da casa era sobrado. Subiram a escada que
levava  ala esquerda. Ana entendeu que naquela ala ficavam os melhores
quartos da manso, ocupados por D. Eleonora e seus parentes. A decorao
era bem mais luxuosa nesta parte. Os quartos de ambas as alas davam para
a frente, ou seja, para o jardim, e outros para os fundos.
      Como que adivinhasse seus pensamentos, Snia lhe explicou:
      - Onde est alojada  para visitas menos ilustres ou para empregados
categorizados como voc. Ns, os empregados, moramos nas casinhas dos
fundos, que so boas e confortveis. Atualmente, na manso dormem voc,
D. Eleonora e Cirilo, o garoto a quem dar aulas. As vezes, Dr. Bernardo
dorme aqui, mas ocupa esta ala no quarto ao lado do garoto. Chegamos, 
aqui!
      Bateu na porta de um dos quartos que dava frente para o jardim e uma
voz seca e firme mandou entrar.
      Snia abriu a porta e falou:
      - Com licena! Esta  a senhorita Ana Elizabeth.
      - Bom dia, D. Eleonora! - cumprimentou Ana, encabulada.
- Bom dia! Sinta-se  vontade. Espero que goste daqui. Como voc j assinou
o contrato com a Dra. Janice, deve estar a par de seu trabalho. Tem o
domingo livre, mas espero que no se ausente para longe. As aulas devero
ser dadas ao meu sobrinho Cinto, das nove s onze horas, de francs, e das
quatorze s dezesseis horas as de ingls. Cirilo est com um pequeno
problema de sade e, por enquanto, s estudar estas duas matrias. No
vero ele dever viajar e quero que aprenda estas lnguas. Quero que ensine
princi palmente palavras usadas na medicina e como pedir alimen tos, como
conversar com mdicos, enfermeiras e movimentar-se em hospitais. Cirilo 
muito educado, mas quero recomendar que tenha pacincia com ele e, na
medida do possvel, faa-lhe todos os gostos. Hoje  tarde o conhecer e
voc deve fazer um teste para ver como est o conhecimento dele nestas
lnguas. As aulas devero ser onde ele quiser, na saleta do seu quarto, na
biblioteca ou no jardim de inverno. Agora pode ir, Snia ficar encarregada de
mostrar a voc as dependncias da casa e lev-la para conhecer meu
sobrinho. At logo.
      Snia aguardou na saleta, ficou sria e parada como uma esttua. Ana
tambm permaneceu assim, respondeu o cumprimento com a cabea. As
duas moas saram. Ana pensou: "D. Eleonora gosta mesmo  de um
monlogo". Ficou apreensiva e desejou ardentemente que Cirilo no fosse
como a tia.
      - No estranhe a senhora Eleonora - disse Snia. -Certamente no a
importunar e pouco a ver, a no ser que acontea algo que lhe desagrade.
Ela  boa pessoa, todos os empregados gostam dela. Bem, voc tem
algumas horas livres, mas eu no. Nada impede que conhea a manso,
salvo esta parte,  claro. Aqui dever vir s quando for convidada. Pode
visitar todos os cmodos da casa, alguns esto fechados e com os mveis
cobertos, porque so pouco usados. Pode olhar  vontade, mas no mexa
muito.
      Desceram as escadas, Snia acenou com a mo e foi para outra parte
da casa. Ana ficou curiosa para conhecer a manso, era a primeira vez que
estava numa casa to grande. Subiu a escada que dava para a ala onde
ficava seu quarto. A escada dava para um corredor muito grande, somente no
fundo havia uma grande janela com vitrais coloridos. Foi at a janela e abriu,
um vento forte e frio entrou. Dali viu o telhado da parte da manso que no
era sobrado, onde ficavam a cozinha e as salas de refeies. Viu a estrada
que ia  cidadezinha. Fechou a janela e examinou o corredor que era largo e
atapetado de vermelho. Contou as portas, sete. Seu quarto era o terceiro
depois da escada. Abriu uma por uma as portas
dos quartos que eram todos iguais, com o mesmo tipo de mveis e enfeites.
Cinco deles estavam com os mveis cobertos com tecidos marrons. S o
primeiro estava arrumado e ela achou na cabeceira da cama um livro sobre
leis tendo o nome da Dra. Janice.
      "Ela tambm se hospeda nesta sala", murmurou baixo. Desceu as
escadas e foi para a parte que no era sobrado. A sala que tinha a escultura
dourada dava para uma saleta pequena, s com portas, no tendo mveis ou
enfeites. Ana a conhecia, pela manh viera ali tomar o desjejum, mas como
estava ansiosa no reparou bem. Entrou na copa onde os empregados como
ela tomavam as refeies. D. Eleonora usava o salo de refeies. Examinou
a copa, era enorme, uma mesa grande com vrios lugares estava no centro.
Os mveis eram escuros e um quadro enorme da Santa Ceia ornava a
parede central. A copa tinha trs portas. Ana abriu a primeira, dava para uma
enorme varanda coberta e um pomar com muitas rvores. Voltou  copa e
abriu a segunda porta, viu a imensa cozinha que podia ser do tamanho de sua
casa. No havia ningum, fechou e abriu a outra porta. Era uma sala de estar,
grande e com poucos mveis, cadeiras antigas e nas paredes bonitos
quadros com paisagens. Esta sala tambm dava sada para a varanda que
Ana j vira. Teve vontade de ir at o pomar, mas ventava muito e estava frio.
Voltou  saleta das muitas portas. Abriu outra porta e viu uma escada que
descia ao subsolo. Estava escuro, acendeu a luz, desceu e viu um corredor
com algumas portas, abriu uma delas e viu que eram quartos simples.
"Que casa cheia de quartos!" Exclamou e sua voz pareceu-lhe assustadora
naquele local silencioso. Entrou num deles, os quartos davam s para a parte
dos fundos da manso. Abriu ajanela e viu que realmente aquela parte ficava
no poro da casa, dava direto para a estrebaria. O quarto estava muito sujo,
ali no se fazia limpeza h muitos anos. Tinha muitas teias de aranha e os
mveis eram poucos, uma cama de solteiro, um armrio e uma cmoda.
Fechou a janela e assustou-se, abafou um grito.
      -Ai!
      Era um rato que passara correndo na sua frente. Saiu rpido dali. O
cheiro forte de mofo a enjoou. Ana voltou saleta e abriu as demais portas,
uma dava para a cozinha, outra para o salo de refeies. Preferiu voltar 
sala da escultura. Foi para a frente da casa, entrou e pde examinar tudo; a
parte da frente tinha varanda, vasos com plantas a enfeitavam, e havia alguns
bancos. Admirou o jardim, tudo muito bem cuidado e com muitas plantas. E l
estava a pedra cinzenta e bonita, bem no meio do jardim. Foi ento que viu a
torre. Uma enorme construo, alta, redonda, de pedra, imitando as torres
dos castelos europeus. Olhou to fascinada para a torre que nem sentiu frio.
A torre estava no canto do jardim  esquerda da casa.
      "Que lugar interessante!"
      Voltou  sala, tomou o corredor da esquerda e deu com uma grande
porta. Aquela parte da casa era mobiliada com muito bom gosto e
luxuosamente. Abriu a porta, era a biblioteca. Ana olhou tudo rapidamente,
poltronas confortveis, sofs estofados ricamente de cor bege e grandes
tapetes verdes. Nas paredes, estantes fechadas com vidro e uma grande
coleo de livros. A claridade vinha dos vitrais das janelas. Lustres
lindssimos enfeitavam o teto.
     Fechou aquela porta e abriu a segunda do corredor, era um salo de
jogos. Mesas de diversos tamanhos e tipos, decoradas de verde e bege,
estavam espalhadas pela sala. Quadros de esportes enfeitavam as paredes.
Ana sentiu que, se olhasse para a esquerda, ia ver um quadro retratando a
caa de uma raposa.
     Olhou devagar e sentiu um frio na barriga. Ali estava o quadro. Uma
amazona e trs cavaleiros com ces a perseguir uma raposa assustada.
     "No gosto de caas, mas este quadro  muito bonito! Como ser que
adivinhei? Nunca vim aqui e parece que conheo bem esta sala."
     Tinha certeza de nunca ter estado naquela manso, mas parecia
conhecer tudo, at em detalhes.
     Ficou ali olhando o quadro por minutos, sentiu-se atraida pela tela.
Outros quadros tambm eram bonitos. Teve vontade de ficar ali
contemplando o quadro a manh toda, esforou-se para sair dali.
     "Estranho, no gosto de jogos, mas gosto desta sala. Parece que j
passei boas horas aqui", falou Ana baixinho escutando sua prpria voz.
"Preciso parar com este costume, se me escutam, pensaro, com razo, que
no estou bem mentalmente".
     Voltou ao corredor, abriu a terceira porta, era um escritrio grande, com
trs escrivaninhas. Os mveis todos escuros, tapetes carssimos, num canto
um pequeno bar e uma estante com livros. S dois bonitos quadros
enfeitavam as paredes de cor bege claro. Notou que a pintura era recente
como em muitas partes da manso, principalmente o lado externo. Chegou
perto de uma escrivaninha que tinha dois porta-retratos. Num estava a foto de
uma mulher loura de cabelos curtos. Leu a dedicatria:
     "Ao Raimundo com amor, Nancy."
     No outro, estava o retrato de um garoto sorrindo.
     "Ao papai Rai, beijos Cirilo."
     "Aqui deve ser a mesa de trabalho do sobrinho de D. Eleonora, estes
devem ser os retratos da falecida esposa e do filho", pensou Ana.
     D. Eleonora era tia-av de Cirilo, ou seja, tia do seu pai, o senhor
Raimundo, que era vivo. Olhou bem a fisionomia de seu aluno e gostou.
     Saiu, fechou a porta e sentiu uma forte vontade de voltar  biblioteca.
Entrou e trancou a porta, olhou as estantes como se conhecesse bem todos
os seus livros. Abriu a porta de vidro de uma estante  esquerda das janelas,
olhou fascinada para um livro grosso de capa bege, leu o ttulo em voz alta:
"Latim para estudiosos
     Este livro estava na segunda prateleira comeando a
contar de baixo para cima e era o primeiro do canto. Pegou, no queria sair,
puxou e o livro veio para sua mo, deu uma olhada, no se interessou por ele.
     "No, no  o livro que me atrai."
     Colocou-o no lugar, encaixou-o para a esquerda, depois duas vezes para
a direita, aps, empurrou para trs. Ficou olhando a estante como que
hipnotizada. As duas partes dela se moveram como uma espcie de porta,
afastaram-se da parede e abriram. Assustadssima, olhou para o vo na
parede, viu um pequeno espao com uma escada de alguns degraus levando
ao subsolo e depois a um corredor. Com muito medo, pegou o livro
novamente e fez o mesmo processo s que desta vez o puxou para frente e a
estante devagar voltou ao seu lugar.
     Colocou as mos na cabea, tremia. Teve vontade de chorar, mas se
controlou, respirou fundo, tentando se acalmar. Saiu rpido da biblioteca, foi
para seu quarto no querendo nem conhecer o lado direito da sala da
escultura que ainda no vira. No quarto, comeou a resmungar como sempre,
toda aflita.
     "Meu Deus, como pude saber? Como consegui abrir a estante? Pegar
um livro antigo e logo de Latim! Ser tudo coincidncia? Parece que eu sabia,
mas como? Acho que este ar misterioso da manso est mexendo com meus
nervos."
     No teve disposio para sair mais do quarto, estava to nervosa e
distrada que esqueceu a hora do almoo. Snia veio cham-la.
     - Desculpe-me, Snia, esqueci do almoo. Prestarei mais ateno no
horrio.
     Snia sorriu gentil e Ana a acompanhou at a copa. Alimentou-se pouco,
estava sem apetite. Quando acabou, a arrumadeira veio da cozinha e lhe
disse:
     - Ana, se quiser ficar na sala de estar, ela est arrumada. E gostoso
descansar nela.
- Obrigada, mas prefiro ir para meu quarto, logo devo ir conhecer Cirilo. Snia,
estive andando pela manso. Vi muitos quartos no poro. Algum os usa?
     - Parece que foi por todos os cantos da casa - riu a moa. - Ningum vai
l. Esta fazenda pertencia ao pai de D. Eleonora, quando ele morreu ela e o
irmo herdaram. Sr. Eurico, o irmo de nossa patroa, tambm faleceu e sua
parte ficou para o senhor Raimundo, pai de Cirilo. Antigamente se davam
grandes festas nesta manso, aqueles quartos eram para os empregados
extras, para os criados das visitas e para alguns escravos. D. Eleonora no
gosta de festas e recebe raramente poucos amigos. O poro foi fechado e
nem  aberto para limpeza.
     - Snia - indagou Ana curiosa -, as runas que vi do meu quarto eram a
senzala?
     - Sim, esta fazenda teve muitos escravos. A senzala no foi conservada
e acabou caindo. Aqui nada tem, a no ser as runas que lembram o tempo
da escravido. Se vai para seu quarto, me espere que logo irei busc-la para
que conhea Cirilo.
     Snia, com muitos afazeres, despediu-se e Ana voltou para seu quarto.
Aguardou ansiosa para conhecer seu aluno, no se sentia bem, estava
inquieta e nervosa.
     No horrio marcado, a arrumadeira bateu  porta. Ana estava pronta
esperando, tentou se acalmar, a cena da biblioteca no lhe saa da cabea.
Seguiu Snia, desceram as escadas, contornaram a parede e subiram a outra
escada. Na quarta porta Snia bateu e em seguida ouviram uma voz infantil.
     - Entre! Entre!
     As duas entraram e diante de uma mesa de estudo, na saleta de seu
aposento, estava sentado Cirilo. Aparentava ter uns onze anos, estava
vestido com um roupo azul escuro. Ana rapidamente observou tudo. A saleta
era parecida com a do quarto de D. Eleonora, mas nas paredes havia muitos
quadros modernos, que deveriam ser do gosto do garoto, eram sobre
esportes, cavalos, e havia um enorme, retratando um trem, todos coloridos.
     Cirilo tambm a olhou, examinando. Era um garoto de
feies normais, s os olhos se sobressaiam, eram bonitos, grandes e
sonhadores. Quando Ana ficou  sua frente, estendeu a mo
cumprimentando-a.
     - Boa tarde, senhorita Ana Elizabeth! - prazer em conhec-la.
     - Boa tarde, Cirilo. Obrigada.
     Snia saiu e Ana sentou-se ao lado do menino.
     - Prefiro que me chame de Ciro, mas s faa isto quando estivermos a
ss. Titia no gosta. Como devo cham-la?
     - Ana. Agora vamos ver o que conhece do francs e do ingls para
comearmos as aulas.
      Fez algumas perguntas e logo percebeu que Cirilo tinha poucos
conhecimentos; passou-lhe exerccios escritos para melhor avaliar.
      - Sei que estou atrasado.  porque tenho faltado muito s aulas. Quando
sarar, voltarei a estudar e cursarei alguma universidade.
      - Que pretende estudar?
      - No sei, mas todos, ou quase todos da nossa famlia, estudam, no sei
por qu. Mas estudar, faz parte da nossa educao.
      Eram quase dezesseis horas quando acabaram os exerccios.
      - Ana - disse Cirilo -, que quer dizer...
      A professora sorriu (era uma expresso em ingls) e traduziu para ele:
Castelo assombrado.
      - Ento  isto! Sabe, sonho sempre com um velho, vestido  moda
antiga que me diz isto. Quando esta casa foi construda, seu construtor queria
que fosse um castelo. Aqui  esquisito, este casaro velho tem seus
mistrios. Quando minha me era viva no vinha aqui, depois quando ela
morreu eu vinha pouco. Mas fiquei doente e papai, precisando viajar, me
deixou aqui com a titia. Estou me recuperando de um resfriado, mas assim
que sarar quero vasculhar todos os cantos desta casa. Ana, voc no quer
tomar ch comigo? Acho to desagradvel lanchar sozinho.
      - Claro,  um prazer.
      Cirilo tocou uma sineta e logo Snia veio atender.
      - Snia - disse o menino -, por favor traga meu lanche juntamente com o
de Ana, lancharemos juntos.
      Snia saiu e Ana indagou cunosa.
      - Como Snia ouviu a sineta?
      O garoto riu.
      - Bem,  que era hora do meu lanche e ela deveria estar pelo corredor
aguardando cham-la. Se ela estivesse em outra parte da casa no escutaria.
A noite se me sinto mal  titia quem escuta do quarto ao lado e vem me ver.
Sei que ela deve ter falado a voc que, se precisar de alguma coisa, deve
puxar o cordo ou tocar a sineta, mas  s por delicadeza. Se precisar
mesmo  melhor gritar ou correr.
      Cirilo fez uma pausa, suspirou e voltou a falar.
      - Sinto-me s, estou sempre s. Mame morreu h seis anos. Papai leva
uma vida de solteiro como diz titia. Governantas, s governantas, mas estas
so empregadas e nunca me fazem companhia. Aqui, nem tenho amigos, titia
azeda como limo. Aqui tambm estou s.
      - Gosta muito do seu pai? - Ana indagou com d de Cirilo.
      - No, no gosto - respondeu o garoto calmamente.
      Snia trouxe o lanche numa grande bandeja e os dois comeram bem.
Cirilo tinha razo, lanchar com companhia era muito mais agradvel.
Acabando, os dois j eram grandes amigos.
      - Ciro, quando for vasculhar a manso me deixa acompanh-lo?
- Claro, acho bom ter companhia. Vamos nos divertir. Ana no concordou, a
manso lhe dava medo, mas sorriu. Embora tivesse receio, a vontade de
vasculhar tudo era enorme. Tudo ali a fascinava. Quando Snia veio buscar a
bandeja, Ana foi para seu quarto onde aguardou o jantar, no queria mais se
atrasar. Enquanto esperava, preparou a aula para o dia seguinte. Lembrava
da biblioteca e se arrepiava, no conseguia esquecer, parecia que ali fora s
para isto. Teve at vontade de contar a Cirilo, mas temeu passar por
abelhuda. Descobrir uma passagem secreta, logo aps chegar na manso ia
parecer estranho, alis era muito estranho.
      Desceu para o jantar e uma senhora veio lhe servir.
      - Boa noite, sou Elizete, a cozinheira.
      - Boa noite, respondeu Ana sorrindo.
      Elizete era robusta, de meia-idade, parecia ser bem simples. Colocava o
jantar na mesa de modo perfeito. Depois de uns segundos em silncio Ana
perguntou:
     - E Snia?
     - Snia trabalha cedo e  tarde, dificilmente fica aqui noite. Ela 
solteira, gosta de ter as noites livres.
     Elizete, embora educada, respondeu secamente demonstrando que no
era de muita conversa. Saiu e Ana comeu. O jantar estava muito gostoso e,
quando acabou, Elizete apareceu como se soubesse que ela havia terminado.
     - Sua comida  deliciosa - disse Ana, tentando ser agradvel. - Cozinha
como fada.
     A cozinheira sorriu gostando do elogio e indagou:
     - Voc gostou daqui? Gostou do pequeno Cirilo?
     - Gostei sim, s estou estranhando a solido. Tudo to grande para
poucas pessoas. Cirilo  um amor, nem parece doente. O que ele tem que o
priva de frequentar a escola com outros meninos de sua idade?
     Elizete, que retirava os talheres da mesa e os colocava numa bandeja,
ficou novamente sria.
     - Se voc no sabe, no serei eu que vou contar. Nossa patroa no gosta
de pessoas indiscretas. Se quer saber, pergunte a ela. Boa Noite!
     Ana respondeu ao cumprimento muito sem graa, voltou ao seu quarto.
Pela casa no se ouvia nenhum barulho, s dos seus prprios passos.
"Que ser que Cirilo tem? Parece franzino para sua idade. Pensei que ele
teria alguma deficincia, mas  perfeito. De diferente s as manchas
avermelhadas, mas podem ser do resfriado. No entendo o porqu de privar o
menino da escola e isol-lo neste lugar.

Pessoas ricas tm cada uma! Cirilo queixa-se que  sozinho, mas nesta casa
qualquer um tem solido."
    Para ver se conseguia distrair-se, pegou um dos trs livros que trouxera
para ler.
    "Vou ler muito aqui!" Suspirou e lembrou-se novamente da biblioteca.
"Sim, tenho muito que ler."
    A Manso da Pedra Torta era um mistrio, mas iria desvend-lo e com a
ajuda de Cirilo.
    "Cirilo, Ciro, que ter voc, meu amigo? Que mistrio tambm envolve
sua sade?"


    III -O Sonho


     Ana leu um pouco, era cedo ainda, mas deitou e logo dormiu.
     Sonhou... seu sonho foi to ntido, que teve dificuldade, ao acordar, de
saber se fora sonho ou se realmente havia acontecido. Seu corao batia
rpido, levou alguns minutos para se acalmar e s ento olhou o relgio,
eram duas horas e cinquenta minutos da madrugada. Ficou acordada
relembrando o sonho com os olhos abertos, com o quarto sob a claridade
tnue do abajur.
     Sonhou que estava vestida  moda antiga, vestido longo, armado, azul e
verde. Estava bem arrumada, com os cabelos presos no alto da cabea e
caiam cachos nos ombros. Estava com lindos brincos de pedra azul com
brilhantes que vinham at o pescoo. Tinha uma aliana de casada que olhou
com desprezo.
Estava no seu quarto, mas no aquele onde se encontrava agora, era um
outro situado na ala principal. Depois de verificar que estava bem, bonita, ela
saiu do quarto em passos rpidos e foi para a biblioteca. L, abriu a estante,
pegou o livro de Latim e abriu a passagem secreta. Pegou uma lamparina a
leo e acendeu. Entrou no vo da parede, do lado de dentro, utilizou-se de um
mecanismo existente do lado direito, era uma pequena alavanca, forou para
baixo e a estante fechou. No teve medo, parecia que fazia sempre este
caminho. Desceu a escada e chegou a um pequeno cmodo que tinha duas
portas. Olhou com indiferena a que dava para outro corredor, andou por
minutos, acabava o corredor com outra escada, s que esta era de poucos
degraus e subia. Da escada ela empurrou uma laje e logo apareceu um vo
por onde passou depressa. Fechou, apagou a lamparina e a deixou ali.
Estava numa gruta bem cuidada e olhou para o vo que havia passado, atrs
de um pequeno altar. Certificando-se de no ter ningum ali, deu um assobio
e escutou em seguida outro parecido. Logo viu um vulto se aproximando, era
de um homem, ela correu e atirou-se nos braos dele. Depois voltou, abriu o
vo atrs do pequeno altar, acendeu a lamparina, fechou a passagem e
rapidamente voltou fazendo o mesmo caminho. Abriu s um pouquinho a
passagem da biblioteca e se certificou de no haver ningum, abriu, passou
rpido, fechou a passagem e apagou a lamparina. Foi depressa para seu
quarto, ao entrar, suspirou.
     "Ele no chegou!"
     Ao acordar, Ana examinou-se no espelho e ficou impressionada ao
lembrar-se da fisionomia da mulher do sonho. Era bem parecida com ela, s
que mais delgada, pescoo mais comprido, lbios finos, os olhos verdes
cnicos e sorriso amargo. Sabia que era ela, tinha certeza de que era ela.
     Ana era bonita, clara, cabelos castanhos curtos e olhos castanhos
esverdeados. Estatura mdia e magra.
     "Tudo isto porque fiquei impressionada com a passagem secreta na
biblioteca. Sonho  bobagem, no devo ficar abalada", falou aborrecida.
     Ficou a pensar: "Como descobri a passagem? Por que este sonho to
ntido em que parecia que recordava algo que fiz? Por que, embora um pouco
diferente, senti que era eu a mulher vestida  moda antiga a passar pela
passagem secreta? Que sonho!"
     Ficou agitada, nervosa e demorou para dormir novamente. O relgio
despertou, Ana acordou, levantou e preparou-se para a aula. Desceu para o
desjejum. Snia a acompanhou ao quarto de Cirilo. Ao passar pela porta do
quarto com que sonhou, no se conteve e perguntou:
     - Estes quartos ficam vazios? Este aqui algum o ocupa?
a, chamado o quarto da esquerda, ningum fica. D. Eleonora, quando
mocinha, ocupou-o por uns dias, depois disto nunca mais foi ocupado. Dizem
que era assombrado, mas agora nada se v de estranho nele, tambm
ningum o ocupa. Quando tem visitas, do preferncia aos outros.
     Pararam no corredor, em frente ao quarto citado. Snia falava baixinho,
fez uma pausa e verificou se no eram observadas e continuou:
     - D. Eleonora, quando ocupou o quarto, ouviu gemidos e viu uma mulher,
jovem e bela, que lhe pediu socorro porque estava sofrendo. Ela reconheceu
ter sido um dos membros de sua famlia. Apavorada no voltou mais ao
quarto.
     - Quem  esta jovem mulher que assombrou D. Eleonora?
     - Foi uma moa pobre que se casou com um antepassado dela, morreu
sem deixar filhos.
     Ana estava assustada, mas sentiu uma vontade irresistvel de saber mais
sobre o assunto e indagou novamente.
     - Snia, voc acredita em fantasmas?
     - Eu acredito, e voc?
      - Em outro tempo e lugar responderia que no, mas agora, aqui...
      Snia bateu na porta do quarto de Cirilo e este mandou entrar. O garoto
estava esperando. Ana, ao olhar para ele, viu que no estava bem, tossia e
estava ofegante, piorara do resfriado. Deu sua aula, mas, antes do final do
horrio, Cirilo reclamou:
      - Chega, Ana, hoje no estou bem, estou com muita dor de cabea. Dr.
Bernardo vem me visitar logo mais. A tarde, se eu no estiver disposto, no
teremos aula. Voc parece abatida. No est bem?
      - Tive um sonho esquisito. Sonhei com este quarto assombrado e com
uma mulher jovem e bela vestida  moda antiga.
Vitria?
      - Quem  esta Vitria?
      A jovem professora estremeceu, Vitria lhe pareceu um nome familiar.
To seu, como Ana.
      - Pelo que sei, foi esposa de um membro de minha famlia. Tia Eleonora
a viu quando era moa, por isto prefere que ningum ocupe este quarto.
Dizem que esta Vitria tinha a mania de falar sozinha e foi por isto que o
marido descobriu que ela o traa. J vi seu retrato no salo da galeria, s que
nem prestei ateno. L tem muitos retratos. Voc j foi l?
      - No.
      - Nem poderia, est trancado. Fica na parte direita da manso no
primeiro pavimento. Quando eu ficar bom, levo voc l. Sei onde est a
chave.
      - Quero ir!
      - Acho - comentou Cirilo alegre - que arrumei companhia para andar por
toda esta casona.
      - Ciro - disse Ana -, aqui perto tem uma gruta com um pequeno altar?
      -Como sabe? Fica atrs da manso. Do seu quarto d:
para ver as rvores que a circundam. E um altar de Nossa Sra. do Rosrio. J
fui l quando menino, faz tempo, mas lembro bem.
      A professora sorriu e brincou, para disfarar o medo que sentiu.
      - Quando menino, Ciro?
      - Sim, agora j sou um rapaz - falou estufando o peito. - Mas, me
responda, como soube da gruta? Ningum por aqui parece apreciar aquele
lugar.
      - Ouvi falar - respondeu Ana, simplesmente.
      Ciro no insistiu, sentia cansao e foi se deitar. Elizete lhe trouxe o ch
com remdio. Ana foi para seu quarto. Abriu a janela e olhou bem para fora,
viu as rvores. Desejou ver a gruta, agasalhou-se e saiu do quarto. Mas,
como no sabia como ir aos fundos da casa, usou a entrada da frente e logo
descobriu a garagem que era coberta, comprida e dava a sada para os
fundos. Passou por ela e deu com o ptio. Logo aps o ptio, ficava a
estrebaria do lado direito,  esquerda viu um porto que levava s casas dos
empregados. Atrs das casas, uma horta e, do outro lado, a criao de
animais. Com aves e sunos. Caminhou para a estrebaria, do porto viu um
homem cuidando de uns cavalos. Observou curiosa, eram animais bonitos e
fortes.
      - Bom dia!
      Um homem voltou-se devagar, virando do lado direito, no a encarou.
Continuou de lado, deu uns passos e ela percebeu que era o homem que a
trouxera da estao. Curiosa tentou ver seu rosto, mas o homem virou
novamente de costas e respondeu secamente.
      - Bom dia!
      - Sou Ana Elizabeth, a professora de Cirilo. Gostaria de ver os animais.
Posso entrar? Posso abrir o porto? Como voc chama?
      O       homem continuou seu trabalho de costas para o porto e para ela,
respondendo sem muita vontade.
     - Me chamo Rodolfo. Desculpe, moa, mas aqui s se entra com
permisso dos donos da casa.
     Levantou-se e foi para os fundos, deixando-a ali, olhando. A moa
suspirou e saiu para o ptio, foi andando rumo ao porto que levava s
casinhas, quando escutou:
     - Moa! Bom dia!
     Viu um garoto sair de uma das casas, atravessou o porto e veio at ela,
sorrindo feliz.
     - Sou Michel, o filho do jardineiro Joo. A senhora D. Ana, a
professora?
     Ana sorriu, at que enfim uma pessoa simptica. Michel era bonito, olhos
grandes e vivos, cabelos avermelhados e sorriso encantador. Respondeu
sorrindo tambm.
     - Sou a professora, sim, muito prazer em conhec-lo. Chame-me s de
Ana, por favor. Voc gosta daqui?
     - Sim - respondeu o garoto. - Sempre morei aqui.
Minha me morreu quando eu era nen, moramos logo ali, meu pai e minha
irm que tem dezoito anos. Eu tenho dez anos. E voc, est gostando daqui?
     Ana afirmou com a cabea. Sua afirmao foi sem convico.
Instintivamente abraou o menino que se deixou abraar, como se fossem
velhos conhecidos. Sentiu amar aquele garoto.
     - Michel! Onde voc est?
     Eles se separaram. Uma moa saiu na porta da segunda casa e gritou
pelo menino. Era uma moa bonita, cabelos negros, compridos, e sorriso
simptico igual ao do irmo.
     - Aqui! - gritou Michel. A moa veio ao encontro dos dois. - Esta  Ana, a
professora do Cirilo - disse mostrando a nova amiga. Esta  minha irm
Eliane.
     - Encantada - falou Ana estendendo a mo, respondendo ao
cumprimento de Eliane.
     - Agora vamos ter que sair - explicou Eliane. - Teremos muito tempo para
conversar. Ana, venha nos visitar. At logo!
     Os dois saram e Ana foi para seu quarto, mas sentiu uma vontade
enorme de voltar  estrebaria.
     "Voltarei outra hora, pedirei permisso ao Ciro."
     Resmungou e sentiu um calafrio, ao lembrar o que Ciro lhe contou:
"Vitria, o fantasma, tinha mania de falar sozinha". S quando chegou ao seu
quarto, Ana se lembrou que no fora  gruta.
     "Meu passeio  gruta ficar para outro dia", pensou. "Pedirei ao Michel
para me levar l. Que garoto lindo! Sinto que eu o amo. Mas como, se o
conheci hoje?"
     Sentia que o conhecia e bem, conhecimento de muito tempo. O sonho
ainda lhe incomodava. Pareceu to real! Logo era hora do almoo, desceu e
se alimentou.
     Depois subiu ao seu quarto e preparou a aula. No horrio foi para o
quarto de Cirilo. Encontrou-o no leito e Snia lhe fazendo companhia.
- Ana - falou o menino -, no teremos aula hoje. Estou com febre, tire o dia
para passear. Amanh, se eu estiver melhor, continuaremos nosso estudo.
     - Obrigada, Cirilo, estimo que sare logo. Quero lhe pedir permisso para
conhecer a estrebaria. Rodolfo disse que no se pode entrar l sem
permisso.
     Snia e Cirilo riram e o garoto respondeu:
     - E cautela de Rodolfo, a ordem  para no entrar estranhos, mas voc 
minha mestra. V quando quiser e diga-lhe que eu autorizei.
     Cirilo estava ofegante. Ana despediu-se, saiu e foi conhecer a estrebaria.
Passou pela garagem e logo chegou ao ptio. Na frente da estrebaria, bateu
palmas, e, no vendo ningum abriu o porto, deu uns passos com cautela e,
de repente, se viu de frente com Rodolfo. Gritou assustada.
     Rodolfo tinha do lado esquerdo do rosto, na altura da sobrancelha, uma
feia e enorme cicatriz, no tinha o olho esquerdo e a plpebra era grudada,
formando um buraco. A cicatriz avermelhada descia at os lbios. Naquele
dia seu aspecto estava pior ainda, a barba estava por fazer, vestia uma
camisa preta com gola alta e estava com os cabelos despenteados. Rodolfo
tambm se assustou com os gritos de Ana e no momento no soube o que
fazer. Michel veio correndo, segurou as mos de Ana e explicou:
     - Ana, este  Rodolfo, meu amigo.
     A jovem envergonhou-se e tratou de se desculpar ao ver o moo
aborrecido.
     - Desculpe-me, assustei-me  toa. Queria ver os cavalos, bati palmas,
ningum atendeu, entrei e me assustei como uma boba.
     - No precisa se desculpar - respondeu Rodolfo -, dou medo a todos.
     - No a mim - corrigiu Michel. - No se chateie, Rodolfo.
     - Claro que no d medo - falou Ana -, que bobajem Eu que pensei no
ter ningum aqui.
     Rodolfo a olhou rancoroso e Michel puxou Ana pela
mo, para fora. No ptio, ela explicou ao seu novo amigo.
     - Michel, no queria gritar, s levei um susto. No imaginei...
     - Rodolfo  feio, mas  meu melhor amigo - acrescentou Michel com
carinho. - Gosto dele como um irmo. Certamente ele ficou chateado, mas
passa logo.
     - Levaria susto de qualquer um que l aparecesse -afirmou Ana. - Mas o
que aconteceu com ele para que ficasse assim?
     - Bem, faz tempo. Rodolfo me contou. Vamos sentar aqui, neste banco.
     Sentaram num banco de pedra, na varanda que dava de frente ao pomar.
Estava frio, mas Ana, curiosa para saber o que aconteceu, nem sentia. Michel
com seu modo simples narrou a histria de Rodolfo.
- Rodolfo teve uma doena infantil quando era beb, demorou para andar e,
quando o fez, passou a mancar. Seus pais morreram quando ele ainda era
pequeno, foi ento morar com uma tia que faleceu no ano passado. Sempre
morou aqui e gosta muito dos animais, principalmente dos cavalos de quem
cuida com muita dedicao. Mas foi num acidente com eles que Rodolfo
ganhou esta cicatriz no rosto. Isto aconteceu quando ele tinha quatorze anos.
A estrebaria naquela poca era velha. D. Eleonora tinha um irmo, Sr. Eurico,
que bebia muito. Naquela noite, ele estava bbado e veio para a estrebaria e,
por descuido (isto concluram, porque ningum sabe ao certo o que
aconteceu), deixou cair a lamparina na palha e o fogo alastrou-se rpido.
Rodolfo morava com a tia na primeira casa, depois do porto, e mora l at
hoje, s que agora sozinho. Acordou e veio correndo para a estrebaria, gritou
e todos correram. Rodolfo querendo salvar os animais entrou e abriu os
portes salvando os cavalos. Mas uma ripa caiu do telhado bem no seu rosto.
Joaquim, um velho empregado, foi quem tirou ele l de dentro. Seus
ferimentos sararam, mas ficou a cicatriz. D. Eleonora levou-o ao mdico na
cidade grande, disseram que ele poderia fazer uma operao para melhorar
seu rosto. D. Eleonora disse que ia lev-lo, mas o tempo passou e ningum
falou mais nisto. Acho que  porque esta cirurgia fica muito cara. No incndio,
o irmo da D. Eleonora morreu. Acharam o corpo dele todo queimado.
     Michel suspirou ao terminar seu relato. Depois de um instante em
silncio, ouviu a moa falar:
     - Estou envergonhada por ter-me assustado. Mas algum poderia ter me
avisado. Coitado do moo!
     - Voc no podia imaginar - consolou-a Michel.
     - Rodolfo mora sozinho, ele  solteiro?
     - E. Rodolfo  quieto e muitos o acham estranho. Eu no acho, gosto
muito dele. Ele gosta de minha irm Eliane, mas ela no gosta dele e namora
Pedro, um moo que mora l na cidade.
     Ana fez uma careta, sentiu raiva por Rodolfo gostar de Eliane, aquela
sem graa, que at minutos antes achava bonita. Estranhou. Por que achava
ruim? Acabou de conheclos. Mas sentia que Rodolfo no podia amar Eliane.
     - Vou embora, Ana - disse Michel. - Aqui est frio e preciso estudar.
     - Tambm vou entrar, vou para meu quarto ler. Tchau.
     - Tchau.
     Ana levantou, mas no saiu do lugar, ficou olhando Michel que foi para
casa.
     "Devo entrar tambm", pensou Ana.
     Caminhou rumo  garagem. Descobriu que a garagem tinha uma
passagem que levava  saleta das muitas portas, encurtando o caminho.
Poderia tambm passar pela cozinha, mas Snia lhe disse que Elizete no
gostava que passassem por ali, ento passou a fazer este trajeto, pela
garagem. Mas, no ptio, mudou de rumo, sentiu uma vontade forte de voltar 
estrebaria e ver Rodolfo.
     - Rodolfo - chamou baixinho.
Como ningum respondeu, abriu o porto e entrou vagarosamente. No tinha
dado muitos passos quando comeou a sentir-se mal, tudo comeou a rodar,
viu o fogo e sentiu o cheiro da fumaa. Sem conseguir sair do lugar, Ana
apavorada viu o fogo se alastrar nas palhas e dois homens discutindo, um
mais velho que levava desvantagem e outro mais moo que gritava
improprios. Viu bem o rosto do mais moo que tirou um punhal e enfiou
friamente no peito do outro. Gritos de "fogo, fogo" fizeram com que o
assassino corresse para os fundos e sumisse.
     - Senhorita! Senhorita! Que aconteceu?
     - Hum... - respondeu Ana.
     Com os olhos arregalados, sentia que o ar lhe faltava. Rodolfo a
segurava pelos braos impedindo-a de cair. Olhou tudo, confusa, aos pouco
foi melhorando, viu que estava na estrebaria e que no havia fogo. Rodolfo a
olhava curioso e com rancor. Quando notou que ela estava melhor, largou-a e
disse:
     - No precisa se assustar, sou feio mas no mordo. No acha que dois
sustos j  exagero?
     - Desculpe-me, mas no levei susto do senhor.
     - Sou Rodolfo, ningum me chama de senhor. Por que chamar de senhor
um empregado que cuida dos animais? Mas o que aconteceu? Parecia que ia
perder os sentidos.
     - Entrei aqui para lhe dizer que sentia muito ter levado um susto e para
conhec-lo melhor, j que somos colegas, trabalhamos no mesmo lugar.
     - Com uma diferena, voc  uma professora, uma pessoa instruda e eu
um pobre coitado, um peo, voc  bonita...
     - Acha mesmo? Obrigada - falou Ana, rpido, interrompendo Rodolfo.
     - Mas o que voc sentiu?
     - Estava entrando, quando vi fogo, cheguei a ficar asfixiada com a
fumaa. Vi fogo, juro!
     Rodolfo comeou a rir, depois ficou srio e olhando para ela indagou:
     - Fogo onde? Aqui no tem fogo.
     - No, no tem. Mas eu vi! Tambm vi dois homens discutindo, a
lamparina caiu e o fogo comeou. O homem mais novo pegou uma faca ou
punhal e enfiou no outro que era mais velho. Com os gritos de fogo, o
assassino correu por ali, pelos fundos e nem tentou ajudar o outro que se
contorcia de dor. No entendo o que aconteceu. A voc me chamou e vi que
nada tinha acontecido.
     Rodolfo a olhou bem e a jovem estremeceu com o olhar dele. Estavam
perto e ela desejou que ele a beijasse. Mas Rodolfo virou as costas e
comentou:
     - Estranho, muito estranho! Como  este moo, o assassino? Voc o
reconheceria?
     - Sim, gravei bem sua fisionomia. E moreno, de costeletas largas, lbios
grossos e tem uma pinta do lado direito dos lbios.
     - Inacreditvel!
      Virou-se para ela, olhando-a bem e balanou a cabea.
     - Rodolfo, eu no sou louca! E a primeira vez que isto me acontece. Acho
que a culpa  desta manso. Estas velhas construes mexem com a cabea
da gente. No precisa acreditar. Tive uma tontura,  isto, foi uma tontura.
     - Acredito em voc. Acho bem interessante a viso que teve. No
entendo disto e nem sei o que lhe aconteceu, o que a levou a ver o passado
ou as cenas do incndio que houve aqui. Sim, porque aqui houve um incndio
horrvel. Fui o primeiro a entrar aqui, quando pegou fogo. Soltei os cavalos, ia
sair quando vi Sr. Eurico cado, ia pux-lo quando caiu um pedao do telhado
em cima de mim e desmaiei. Fui salvo por um outro empregado. Quando o
fogo acabou, acharam o cadver do Sr. Eurico. Minha tia e o velho Joaquim,
que me salvou, viram que o cadver tinha uma faca no peito. D. Eleonora
pediu para os dois nada falarem. Para todos, o Sr. Eurico, bbado, tinha
derrubado a lamparina. Minha tia tempos depois me contou este detalhe, e eu
no falei a ningum. E a porta do fundo que voc viu existia na antiga
estrebaria.
      - Ser que vi o que aconteceu no incndio? Se vi, exis
te um assassino!
     Rodolfo sorriu, quando sorria ficava mais feio ainda, seu rosto repuxava e
os lbios entortavam.
     - Ana, no conte a mais ningum o que viu aqui. Passaria por louca ou
poderia ser perigoso. E poder vir a conhecer o assassino um dia, se  quem
estou pensando.
     - Virgem Maria! Voc sabe me dizer o que foi que eu tive?
     - Uma viso, suponho. Mas, boa tarde, tenho muito o que fazer.
      Virou e saiu da estrebaria. Ana teve vontade de lhe responder com
grosseria, mas balbuciou um boa tarde e saiu tambm. O ar frio da tarde lhe
fez bem, mas preferiu voltar para seu quarto, porque sentia uma leve tonteira.
      Chegando ao seu quarto, olhou pela janela e se lembrou que tinha saido
tambm para ver a gruta.
     "No faz mal, irei outro dia. Pedirei a Michel para me levar."
     O       sonho que tivera com a passagem secreta e a viso da estrebaria
a intrigavam, deixando-a nervosa. Lembrou do assassino.
     "Nunca mais esquecerei seu rosto frio e cnico. Que coisa! Ser que
estou ficando doente? Ou ser que  esta manso a causadora destes
distrbios?"
     Resolveu tomar banho e descansar.


    IV- O salo de Baile


     Ao descer para a copa, Ana ouviu conversas na sala ao lado. A jovem
professora, curiosa, com toda cautela olhou pelo vo da porta que estava um
pouco aberta. A outra sala de refeies era luxuosa, mas no prestou muita
ateno, olhou quem conversava. Era D. Eleonora e um senhor alto, que se
trajava elegantemente, de maneira sbria, um pouco antiga. Era louro e
aparentava ter sessenta anos. Ana simpatizou-se com ele. Temendo ser
descoberta voltou logo para seu lugar na mesa. Logo foi servida, teve vontade
de fazer algumas perguntas a Elizete, mas no teve coragem, lembrava bem
da resposta que ela lhe dera na outra vez. Ao lhe servir um doce de
sobremesa, ouviram uma risada na sala das escadas e foi Elizete quem
comentou:
      - A D. Eleonora est subindo com o Dr. Bernardo, certamente iro ver o
pequeno Cirilo, depois jogar cartas at tarde na sala de jogos. Os dois tm
uma amizade muito antiga. Ele vem muito aqui, para visitar nossa patroa e
para ver o menino doente. Dr. Bernardo  muito simptico, est sempre
elogiando minha comida. Agora vou jantar. Boa noite, Ana.
      - Boa noite!
Ana comeu seu doce rapidamente, ia subir, mas no estava com vontade de
ficar no seu quarto sozinha. D. Eleonora havia subido, Elizete estava jantando
e ela aproveitou para ver com detalhes a sala ou salo de refeies ao lado.
Entrou cautelosamente na sala que estava encantadoramente iluminada.
Candelabros riqussimos de cristal enfeitavam o teto, quadros belssimos
ornavam as paredes, grossas cortinas bege e amarelo-claro com acabamento
em marrom cobriam as janelas. Vasos de flores e plantas exticas enfeitavam
a imensa sala. No centro, uma mesa comprida de bano, cadeiras de madeira
com assento de veludo bege. Numa ponta da mesa ainda estavam os
talheres do jantar recm-servido. Encantada, chegou perto, os talheres eram
de prata, copos de cristais, pratos lindssimos de porcelana e havia uma
garrafa de vinho francs sobre a mesa que estava revestida de uma toalha
branca de linho bordado.
      "Tudo to lindo! Esta sala ficaria melhor com as cortinas verde musgo.
Que idia! Parece que conheo esta sala!"
      Curiosa, Ana abriu a porta  direita. Estava escuro. Entrou e acendeu a
luz ao lado da porta e defrontou-se com uma bela sala de estar onde eram
servidos caf ou licor aps as refeies. Dois lindos quadros enfeitavam as
paredes, poltronas confortveis e dois sofs de cor bege serviam para o
descanso de hspedes. Viu trs mesas com grandes e luxuosos cinzeiros e,
nos vasos, flores artificiais. Havia outra porta e Ana a abriu; dava para um
pequeno jardim com bancos e balanos. O jardim era murado, alto. Ana
lembrou de ter visto o muro do ptio. Fechou logo a porta, porque o frio era
intenso. A noite escura demonstrava que ia chover novamente. Algumas
revistas de moda e fofocas estavam num antigo porta-revista. Sentiu-se
atraida por aquela pea. Abaixou e no se interessou pelas revistas, mas sim
pela obra de arte.
      "Meu Deus, que beleza! Do outro lado deve estar a figura da deusa de
Vnus."
      Virou a pea e l estava, encantadoramente, a deusa de Vnus, a lhe
sorrir misteriosa, desenhada em relevo no cobre da pea, como a lhe dizer:
      "At que enfim voc novamente para me dar valor."
      Passou a mo admirando a pea e a virou dando realce  deusa.
      "Parece at que esta pea j foi minha, e que gostava muito dela.
Lembro-me que ganhei de presente de algum muito querido. Bobagem! S a
achei bonita."
      Colocou as revistas novamente no lugar e resmungou:
      "Seria interessante se pudesse levar estas revistas para
meu quarto. Mas no posso lev-las sem autorizao e agora no tenho a
quem pedir."
      Apagou a luz e saiu. Voltando ao salo das refeies, escutou um
barulho e se escondeu atrs de uma cortina. Elizete tirava os talheres
resmungando. Quando ela saiu rumo  cozinha, Ana suspirou aliviada, deixou
seu esconderijo pensando em ir para seu quarto. Mas estava curiosa para
conhecer o resto da manso e abriu a porta do lado contrrio quele pelo qual
entrara. Chegou numa sala pequena em comparao com as outras,
mobiliada com mveis antigos e escuros e decorada com grandes quadros de
paisagens. No havia poltronas ou cadeiras, o que demonstrava que a sala
era de passagem. Todas as cortinas eram iguais, no mesmo tecido, somente
com acabamento mais requintado: as pontas das cortinas apresentavam
bordados em dourado com pingentes da mesma cor.
      "Quantos metros de tecidos foram gastos nestas cortinas! Vestiriam
dezenas de pessoas", murmurou.
      Desta sala, passou para outra, de luxo exagerado. Dava para a porta
principal da entrada da manso. Grande, com as cortinas iguais s da outra
sala. Quadros encantadores e lustres de cristal maravilhosos, tapetes
combinando com as cortinas. Estava dividida por mveis em trs ambientes.
Tinha muitos enfeites. O ambiente da frente era o mais antigo, com muitas
mesinhas, sofs e poltronas verde e bege. No fundo, o ambiente mais
moderno destacava um barzinho com copos e bebidas. Parecia ser a parte
para visitas jovens.
      Na frente da sala, do lado esquerdo, havia uma porta grande. Ana abriu e
nada viu. Com a escurido no conseguiu achar o interruptor.
      "Onde ser que se acendem as luzes desta sala?", pensou. "Mas se
acende algum l fora ir ver e perceber que estive aqui."
      Entretanto a curiosidade a atiava. Procurou no escuro e acabou
achando onde acender. A eletricidade havia sido instalada na manso fazia
pouco tempo. Os candelabros  vela
ali estavam e, tambm, lmpadas eltricas colocadas nos cantos, em paredes
e abajures.
      Era um salo de festas enorme. Algumas janelas davam para a frente da
casa, outras, para o lado direito. Neste salo no havia mveis. Ana chegou
perto de uma janela, afastou a cortina com cuidado e viu que dava para o
jardim. Examinou o salo. No fundo, um piano de cauda sobre um tablado de
madeira e, do lado direito, mesinhas e cadeiras. O assoalho era de madeira
trabalhada em quadrados, uns escuros e outros claros.
      Ana examinava tudo com ateno, sem conseguir sair do lugar.
Sentiu-se mal. Parecia rodar em ritmo de valsa. Viu-se toda enfeitada, com
um vestido vermelho, armado, todo bordado e com um grande decote. Usava
muitas jias. Ria contente, admirada e invejada por todos os convidados.
Sabia que era um sucesso. O som da msica, de uma valsa, era alto e ela
achava a cano muito bonita. Ria feliz e esnobava os admiradores. Festa
luxuosa. O salo lotado. Sentiu-se cair no cho.
      Foi voltando ao normal, levantou-se confusa, o salo agora estava vazio
e silencioso.
      "Meu Deus! Que coisa estranha! Estarei doente? Como posso imaginar
isto tudo? Este ar de velharia est me fazendo mal. Parecia que estava numa
festa do passado. Virgem Maria!"
      Deveria ter tido festas incrveis neste salo de baile. Ana apagou as
luzes, fechou a porta, atravessou a sala principal e entrou em outra. Olhou
mais uma vez para os quadros, e como sempre falou em voz baixa.
      "Quantos quadros! Quantos candelabros de cristal! Que nqueza nestas
peas antigas!"
      Viu uma porta do lado direito. Forou para abri-la. Estava trancada.
Sentiu-se atraida por aquela porta. Concluiu que era a sala trancada, que
Cirilo lhe falou, a dos retratos. Estava com forte dor de cabea e resolveu
voltar para seu quarto. Apagou todas as luzes, olhou o relgio na sala das
escadas, era bem mais tarde do que pensava.
     "Devo ter ficado cada por muito tempo. Ser que desmaiei?"
     A manso permanecia silenciosa. Sem fazer barulho voltou para seu
quarto e logo adormeceu.
     Sonhou. No seu sonho ela descia as escadas e ia direto  sala trancada.
Abria a porta e olhava para uns objetos, diante de um quadro, assustava-se e
levava a mo  boca para no gritar. Acordou com a mo na boca, aflita.
Levantou e tomou um remdio para a cabea que doa terrivelmente.
Procurou acalmar-se, ajeitando-se na cama.
     "Que ser que vi no quadro que me assustou? No lembro! Que sonho
estranho! Sonho  sonho e no se deve dar ateno. Devo dormir!"
     Mas nada de adormecer novamente. Ento, comeou a ouvir vozes. No
comeo pareciam estar longe, foram aos poucos se aproximando. Ana tremia,
puxou os cobertores, colocou a cabea embaixo do travesseiro. Nada,
continuou a escutar as vozes. No conseguia entender direito o que falavam.
Orou aflita. Novamente o silncio. Ajeitou-se no leito.
     "Estou apavorada. Vozes so de pessoas. Algum deve ter acordado,
levantado e conversado. Nesta manso to grande deve dar at eco. Neste
silncio qualquer voz parece fazer um barulho. Devo acalmar-me e dormir.
Mas tenho vontade de ir  sala trancada. No sei por qu. Ainda irei l."
     Ana estranhou, nunca foi to curiosa. Por que ser que estaria com tanta
vontade de ir  sala trancada? Tambm comeava a preocupar-se com sua
sade. Estavam acontecendo fatos estranhos com ela.
     Cansada, acabou dormindo.


    V - A Bandeira branca


    No outro dia cedo, Snia veio limpar o quarto.
    - Bom dia, Ana. Vim cedo limpar esta parte da man
     - S voc limpa tudo? - indagou Ana, querendo conversar.
     - No, Eliane ajuda sempre. Fao assim, cada dia da semana limpo uma
parte. Somente os quartos da D. Eleonora e do Cirilo  que limpo todos os
dias. Os quartos fechados so limpos uma vez por ms e Eliane vem
limp-los.
     - Esta noite ouvi vozes, pessoas conversando. Est hospedada mais
alguma pessoa nesta ala?
     Snia riu. Bonita, morena clara, cabelos longos que trazia sempre
presos; quando ria duas graciosas covinhas apareciam na sua face. Tinha
vinte anos, era esperta e agradvel.
     - No, nesta parte s tem voc.
     - Estranho! - exclamou Ana encabulada.
     - Estas vozes so escutadas sempre pela manso. Voc entendeu o que
disseram?
     - No entendi direito.
     - E sempre assim, ningum entende o que eles dizem ou o que ela diz.
Porque parece que sobressai a voz de uma mulher.
     - Eles quem? E esta mulher, sabem quem  ela?
     - Ora - disse Snia balanando os ombros -, so fantasmas.
     Ana riu, mas sentiu um arrepio. At poucos dias gargalharia destes fatos,
mas agora...
     - Ser que esta mulher  a Vitria?
      - Como sabe este nome? - Snia no esperou pela resposta e continuou
a falar animada, demonstrando gostar
destas histrias. - Acho que no  ela, esta nunca ningum viu por aqui, s
mesmo D. Eleonora quando mocinha. Ver fantasmas mesmo, ningum os v,
pelo menos no falam, mas as vozes todos os moradores da fazenda j
escutaram. No so todas as noites, uma vez ou outra, elas se fazem escutar
por toda a manso, no ptio, na estrebaria e na gruta. Queria muito escutar,
at j dormi num destes quartos vrias noites para escut-los. Isto, escondido
de D. Eleonora.
      - Escutou? - indagou Ana curiosa.
      - Depois de doze dias, escutei. Levantei e andei pelos corredores e no
pude distinguir de onde elas vinham. Tambm no entendi muita coisa, todos
por aqui j se acostumaram, nem ligam mais. Ontem  noite viram luzes
acendendo e apagando na ala nobre, nas salas e sales.
      Ana teve vontade de rir, mas se conteve. As luzes havia sido ela, mas as
vozes atribuidas aos fantasmas deveriam ter explicaes tambm. Sentiu-se
aliviada.
      - E voc que limpa aquelas salas?
      - Eliane e eu as limpamos uma vez por semana. Aqui trabalham Elizete
na cozinha e Jovina que lava e passa roupas e que tem lavado as suas.
Quando temos mais hspedes contratamos moas na cidade. Antes, no
tempo do pai de D. Eleonora, davam-se grandes festas. Mas agora nossa
patroa vive mais retirada, no h mais festas aqui. A fazenda tem muitos
empregados, meu pai e meus irmos trabalham na lavoura.
      - D. Eleonora tem filhos? - indagou Ana, querendo saber mais sobre a
pessoa que a empregara.
- D. Eleonora  viva h muito tempo. Tem duas filhas, uma freira e a outra
casada, que mora longe daqui e que tem cinco filhos. Ela vem aqui raramente
e s com os filhos, porque D. Eleonora est brigada com o genro. Esta
fazenda era do pai dela, que ao morrer deixou para ela e o irmo, o Sr.
Eurico, que morreu no incndio. O senhor Eurico era o pai do senhor
Raimundo, e, como ele  filho nico, isto tudo agora  dos dois. Mas quem
cuida da administrao da fazenda  D. Eleonora, porque o Sr. Raimundo
vem pouco aqui.
      - O Sr. Raimundo s tem Cirilo de filho?
      - S. A esposa dele morreu quando Cirilo era pequeno. Dizem que o Sr.
Raimundo tem muitas namoradas. D. Eleonora quer v-lo casado novamente,
mas ele s quer aproveitar a vida. Quando D. Eleonora morrer talvez vendam
a propriedade, porque no ter quem cuide disto tudo.
      - E a outra filha, a freira?
      - Est no convento, e dizem que  meio louca. No a conheo. Mas
minha me, sim, porque era arrumadeira na poca que D. Paula ainda
morava aqui. Mame me contou que quando D. Paula era mocinha ficou
doente e depois disto nunca mais melhorou. Minha me afirma que ela fez um
aborto, mas foi escondido; ela soube juntamente com os outros empregados,
porm evitaram comentar com medo de D. Eleonora. Ela era solteira e muito
nova. Foi o Dr. Bernardo quem cuidou dela. Quando sarou, passou a ter muito
medo, D. Paula no ficava sozinha, dormia no quarto da me. Uma vez D.
Eleonora teve que viajar e minha me foi dormir no quarto dela. Mame conta
e se arrepia at hoje. Dormiam, quando, de madrugada, minha me acordou
com D. Paula falando como se visse algum  sua frente. Ela dizia:
"Deixe-me em paz! Nada disto  verdade! Saia daqui!" Minha me levantou e
correu para perto de D. Paula, esta a abraou e chorou: "O que se passa com
a menina?" - perguntou minha me curiosa. D. Paula falou confusa. - "E esta
Alice que no me deixa em paz! Vem sempre me dizer que no a deixei
nascer e que me odeia por isto." - "Quem  essa Alice?" -indagou minha me.
- "Uma antepassada da famlia." - Minha me a acalmou e ela voltou a dormir.
Achou que a jovem Paula estava louca mesmo. Onde j se viu no deixar
nascer algum que j morreu h tempo? Mas D. Paula pouco se alimentava,
andava triste e chorosa. Um dia resolveu ir para o convento.
     Snia no parava de trabalhar, falava arrumando tudo, Ana interessada a
escutava com ateno. Teve pena de Paula.
No era fcil ser perseguida por um fantasma. Ficaram em silncio por uns
minutos. Ana voltou a indagar.
     - Voc gosta daqui?
     - Mais ou menos. Aqui tenho casa, comida e um pequeno ordenado. Fico
porque estou economizando para casar. Meu noivo, Gilberto, mora na cidade.
Ele est proibido de vir aqui e por isto tenho que ir v-lo na cidade.
     - Proibido? Por qu?
     - Todos na regio sabem das assombraes desta casa. Gilberto  muito
curioso, veio pedir permisso a D. Eleonora para ficar aqui e ver os
fantasmas. Ela no gostou, e o expulsou daqui, proibindo-o de entrar na
propriedade. Gilberto acabou intrigado com estas almas penadas e se juntou
a um grupo Esprita. Foi timo, agora ele entende tudo isto, e encara de forma
mais natural, me diz que para tudo isto tem explicao. Eu no vou s
reunies, mas, quando casar e morar na cidade, quero ir, e entender estes
fenmenos tambm. Quando for embora, sentirei falta dos fantasmas. - Snia
riu e continuou. - Ana, esta noite, joo, o jardineiro, viu na torre a bandeira
branca. Queria tanto ter visto. Dizem por ai que, quando a criminosa voltasse
 manso, na torre apareceria a bandeira branca.
     - Criminosa? - indagou Ana preocupada.
     - Esta histria  passada de boca em boca. Foi uma antepassada da
famlia que era uma empregada e que matou uma mulher, a esposa, para
casar com o proprietrio da manso.
     - No, no  verdade! Ela no a matou!
     Ana quase gritou, levantou-se da cadeira e, diante do susto de Snia,
entendeu que se excedera. Falou aps alguns minutos encabulada.
     - Desculpe-me se eu a assustei. No sei se  criminosa, eu...
- No precisa se desculpar. Acho que voc se assustou foi com as vozes que
ouviu esta noite. Deixemos para l, se matou, no  problema nosso. Mas
todos aqui dizem que ela foi criminosa. Falam tambm que ela voltar 
manso e, quando isto acontecer, aparecer na torre a bandeira branca. E
Joo viu esta noite a bandeira l, esticada, balanando ao vento.
     Ana ficou quieta, no sabia o porqu de ter defendido esta antepassada
da famlia, mas sentia que ela no fora cnminosa ou to m quanto falavam.
Estava nervosa, mas perguntou novamente:
     - Como se chega  torre?
     - E Joo, o jardineiro, quem cuida da torre. Bem, ele a limpa umas duas
vezes por ano. Eu j fui l e nada achei de interessante. Acho que ningum
acha, no  visitada por ningum, nem pelos fantasmas. Nunca foi visto nada
por l, somente ontem Joo viu a bandeira. Mas se quiser conhec-la s
pedir a ele. A porta da torre d para o jardim e fica trancada. Joo tem a
chave. Dizem que tem uma entrada para ir l de dentro da manso, mas
ningum sabe onde fica ou se realmente existe.
     Ana ficou inquieta, a bandeira branca a intrigava. Parecia que agora
entendia o que diziam as vozes ou melhor uma das vozes. Era mais ou
menos assim: "Voltou, criminosa? Voltou? Traidora! Conserta o que
estragou!" Achando que ouvira histrias demais e isto a estava perturbando,
despediu-se de Snia, foi ao quarto de Cirilo sem tomar seu desjejum.
     Dois dias se passaram sem novidades, uma chuva fria caa, o frio era
intenso e Ana no se aventurou a sair.
     No terceiro dia, o tempo melhorou e o sol pareceu dar vida a tudo. Cirilo
estava melhor. Na aula da tarde, Ana curiosa para ver a sala trancada
comentou sobre ela para recordar o aluno que prometera lev-la at l.
      - Esta sala onde esto os retratos da famlia fica ao lado da sala
principal?
      - Fica sim. Minha tia a tranca e no gosta que algum v l. Mas eu j
fui, l s tem retratos. Assim que der certo, levo-a l, prometi e cumprirei.
      - Por que trancam esta sala?
      - E uma histria estranha. Os empregados, Snia, Joo e outros por a,
dizem que uma mulher que foi casada com um membro da famlia aprontou
muitas coisas indignas e que ela voltar. L na sala tem seu retrato, e
ningum pode ver como ela era para no reconhec-la. Titia me disse que a
tranca porque l tem fantasmas, ela mesmo viu uma fisionomia de um quadro
chorar. Titia  muito impressionada, detesta fantasmas, fica brava quando
algum pede para v-los. Expulsou at o noivo da Snia daqui. Esta sala est
trancada e no  aberta para nada, nem para limpar. L  tudo sujo e
empoeirado.
      - Que diz seu pai disto tudo? Dos fantasmas?
      - Ele ri, no acredita em nada. No est nem a com a fazenda ou com a
casa,  titia quem cuida de tudo. Papai acha que tudo isto e estas vozes que
escutam no passa de brincadeira de algum. Ele no gosta daqui.
      - Ele tambm tem retrato l?
      - No, tem s at meu av. Meu pai acha tudo isto uma bobagem.
      - Ciro, voc conhece suas primas, as filhas de D. Eleonora?
      - Uma vez estava aqui e a filha casada veio com os filhos passar uma
temporada, eles so muito engraados. Foi timo. A Paula, que est no
convento, vi uma vez, quando titia me levou para visit-la. Ela  triste, me
agradou e eu gostei dela. Dizem que ela reza muito e que cuida de muitas
crianas rfs. Meu pai me disse que a namorou escondido e que ningum
ficou sabendo. Quando ele resolveu casar com minha me, ela foi para o
convento. Dizem muitas coisas sobre ela, mas eu no acredito, ela me
pareceu muito lcida.
      Terminando a aula, Ana foi para seu quarto e logo aps chegou Snia.
      - Ana, Michel, o filho do jardineiro, pediu para chamla. Est esperando-a
l na garagem. Ele disse que a conheceu e quer falar com voc.
      - Claro, vou l agora.
      Desceu com Snia, que foi para a cozinha, e Ana para a garagem.
Michel, quando viu Ana, correu em sua direo e lhe deu um abrao.
      - Ana, minha amiga, por que no veio mais me ver?
      - Com o tempo chuvoso no sa. Mas como voc est?
      - Bem. Tambm no sai muito.
      - Michel, voc me leva  gruta aqui perto? Quero conhec-la.
      - Levo-a sim, quando quiser ir me avise. Mas l no um lugar bonito.
Fica no meio de um pequeno bosque e tem morcegos. Tem s um minsculo
altar de pedra e est mal cuidado. Ningum gosta de ir l, dizem que foi
cometido l um crime e um suicdio.
      - Conte-me esta histria! Que mais sabe sobre a gruta? - perguntou Ana,
curiosa.
      - Foi um fato que aconteceu com uma mulher chamada Vitria. Uns
dizem que ela se suicidou na gruta de remorso por ter matado a esposa do
Sr. Andr. Outros dizem que ela foi morta pelo esposo, o Sr. Andr, por
ter-lhe sido infiel.
      - L aparecem fantasmas?
      - Nunca fiquei sabendo se aparecem.  s um lugar sem graa.
Ningum, depois de conhecer, volta l.
      - Voc gosta das histrias que contam sobre a manso?
      - No, s me interessei por esta - respondeu Michel srio.
     - Existem muitas histrias sobre esta Vitria - comentou Ana.
     - E mesmo, at da bandeira branca. Meu pai viu outra noite a bandeira
na torre. Dizem que quando esta Vitria voltasse aqui a bandeira apareceria
nas noites de lua cheia. No dia em que meu pai viu, estava nublado, mas era
noite de lua cheia.
     Os dois se calaram e suspiraram.
     - Michel, voc queria falar comigo?
     - Bem, Ana,  que eu estou atrasado na escola, se voc puder me
ensinar...
     - Ser um prazer ensin-lo, s que tem que ser  noite, aps o jantar.
     - Ter que ir  minha casa - falou Michel. - Me encontro com voc aqui e
a trago de volta. D. Eleonora no gosta que os moradores da fazenda entrem
na manso.
     - Combinado, espero-o aqui.
     - Obrigado, Ana.
     Despediram-se e aps o jantar Ana desceu para a garagem e l estava
seu pequeno amigo. A jovem olhou-o bem e sentiu que gostava muito dele.
De mos dadas foram para a casa do jardineiro que a recebeu bem. Ana logo
foi dar uma olhada nos cadernos de Michel, viu que ele estava fraco em
matemtica e comeou a lhe explicar a materia.
     Logo aps Rodolfo entrou na casa, na sala onde eles estavam, e o
corao de Ana bateu descompassadamente.
     - Rodolfo veio atrs de Eliane, mas ela foi com o namorado na cidade -
Michel cochichou baixinho.
     Rodolfo sentou-se numa cadeira ao lado de Joo e comearam a
conversar. Ana irritou-se, como podia Rodolfo ficar assim atrs da sem-graa
da Eliane. Ouvindo o moo perguntar por ela, respondeu atrevida:
     - Eliane tem namorado,  feio incomodar uma moa comprometida.
     Rodolfo no respondeu, mas ficou vermelho, despediu-se logo e saiu.
Ana se chateou, terminou a explicao e despediu-se prometendo voltar
todas as noites que fosse possvel. Michel a acompanhou at a garagem. Ana
viu a luz acesa na casa de Rodolfo e suspirou aborrecida.
     "Deve estar esperando por ela".
     No seu quarto, pensou no que fizera e achou tudo muito estranho, no
deveria ter provocado Rodolfo daquela maneira, parecia que tinha cimes
dele. Adormeceu, aborrecida.


    VI   - Excursionando com
          Cirilo

     No outro dia, Ana acordou ainda de mau humor. Pensou em Rodolfo. Ele
era feio, sem graa e sem instruo, mas sentia-se atraida por ele. Com raiva
teve certeza de que estava com cimes dele com Eliane. Levantou-se e se
arrumou para a aula. Logo que cumprimentou Cirilo, este lhe disse:
     - Ana, titia foi  cidade e Snia foi junto. Se quiser, podemos visitar a sala
trancada.
     - Agora? E a aula?
     - Ora, quem vai saber se ficamos ou no estudando. Temos que
aproveitar esta oportunidade. Titia pode demorar a sair novamente.
     - Est bem, vamos.
     Ana, curiosa para ver os retratos, tambm achou que era uma tima
oportunidade. Desceram cautelosos, ela, um pouco cismada, o menino,
contente, para ele era uma aventura. Ciro levava uma lanterna muito bonita e
moderna.
     - Tenho duas destas - explicou ele a Ana -, ganhei de presente.
     Logo chegaram diante da sala. Cirilo pegou um vaso grande com
pinturas exticas, um objeto muito bonito que estava numa mesinha ao lado
da porta. Ana o ajudou, o vaso era pesado. O garoto virou o fundo do vaso
duas vezes para a esquerda e uma para a direita, a parte inferior abriu e uma
chave apareceu na mo do garoto que sorriu feliz.
     - Que idia genial! Quando algum iria procurar algo aqui. Se papai no
me contasse... - falou Cirilo rindo.
     Abriram a porta. Estava escuro e Cirilo acendeu a lanterna. Entraram e
ele fechou a porta.
     - No podemos abrir nenhuma janela. Algum pode ver e sabero que
entrou gente aqui.
     Na sala havia poucos mveis, cobertos com tecidos que deveriam ter
sido brancos, mas pareciam beges de tanto p. Os quadros estavam em
seqncia nas paredes.
     - Venha,  por aqui que comea - falou Cirilo, puxando-a pela mo.
     Havia teias de aranha nos quadros, mas eles estavam bem visveis. As
fisionomias retratadas eram quase todas s-rias e com trajes de poca,
homens quase todos com barbas e as mulheres com muitas jias.
     - Este aqui - disse Cirilo servindo de cicerone - foi o iniciador da fortuna
da famlia. Veio da Europa para o Brasil, aqui casou e comprou parte destas
terras. Este, dizem ter sido louco, um tarado. Sua me o manteve prisioneiro
na priso da manso. Mas ningum sabe onde  esta priso, ou dizem que
no sabem.
     - Eu sei! - exclamou Ana quase sem querer.
     - Como sabe? Cirilo parou de andar e iluminou o rosto de Ana que
fechou os olhos tentando cobrir com a mo.
     - Bem... No foi por xeretice que descobri. Achei-a por acaso. Estava na
biblioteca, ao mexer num livro, uma porta abriu. No entrei l dentro, mas deu
para perceber que era uma passagem secreta e tudo indica que talvez por l
tenha uma priso. Mas continue. Que foi feito dele?
     - Morreu! Dizem que matava moas e que, quando matou uma prima
dele, sua me o colocou na priso de onde nunca mais saiu. Quero ir l 
tarde. Voc vai comigo?
     - No, eu... Ana ficou indecisa.
     - Voc  minha empregada e eu resolvi que iremos. Desculpe-me, Ana,
por favor me mostre como se abre a passagem secreta e vem comigo
excursionar por ela. Titia s volta  noite. Eu estou lhe mostrando esta sala!
     - Est bem. Mas posso ser despedida se...
     - Ningum saber - interrompeu Cirilo e voltou a iluminar os quadros. -
Veja, Ana, este  meu heri. Chamava-se
Artur, aumentou a fortuna da famlia e construiu esta manso, dizem que foi
muito ambicioso, eu o admiro. Repare como me pareo com ele, se eu
tivesse barba ia parecer mais ainda. Observe os olhos. Voc no acha?
     - E verdade - respondeu Ana, achando realmente semelhana entre eles.
     - Gostaria de ter sido ele, que vida feliz este Artur teve, jogos e
espertezas.
     - Como sabe?
     - Calculo - respondeu Cirilo simplesmente.
     E assim passaram por muitos retratos at que...
     - Esta  a traidora, a assombrao de que titia tem medo, a que viu
quando moa.
     Ana olhou o retrato. L estava ela, ou sentiu ser ela, com traje  moda
antiga, muitas jias e a flertar descarada-mente com o pintor.
     - Ana, voc est se sentindo mal? Puxa, como voc se parece com ela!
Impressionante!
     Ajovem percebeu que ia perder os sentidos, mas a voz de Cirilo a
chamou  realidade, tentou sorrir.
     - E, pode ser. Quem era o marido dela que a matou?
     - Este! Chamava-se Andr! Foi casado trs vezes. Esta  a primeira
esposa, a que dizem ter sido assassinada por Vitria. E esta  a terceira
esposa, a Venina.
     - Vitria no matou ningum - Ana falou de mau humor. - Andr teve
filhos?
     - Sim, um com a primeira esposa, Luiz, que morreu jovem e de maneira
misteriosa. Com a terceira teve dois sendo que um deles  o pai de tia
Eleonora, meu bisav. E este aqui, simptico no ?
     - Vitria no teve filhos?
     - No, falam que ela amava Luiz como se fosse filho dela. Luiz  este
aqui.
Ana olhou bem e teve a impresso que ele parecia com algum. Ou melhor,
sentia que o conhecia e que ele estaria agora perto dela, no como alma que
vagava, mas como ela e que era amgo.
     Quase todas as pessoas da famlia eram retratadas duas vezes, uma
quando jovem e, se vivesse muito, a outra em idade avanada. Luiz e as trs
esposas de Andr foram retratados somente quando jovens.
     - Este Andr  o casamenteiro da famlia. Comenta-se que se apaixonou
por Vitria quando estava casado, que sua esposa era doente e que, quando
ela morreu, se casou com Vitria. Dizem que esta o traiu e ele a matou, ou
que foi o amante dela quem a assassinou ou que ela se suicidou. No se tem
certeza do que ocorreu realmente. Ento ele se casou novamente, mas dizem
que se tornou triste e ranznza.
     Ana escutava o que Cirilo falava com ateno. Mas estava fascinada pelo
retrato de Andr, que achou parecidssimo com Rodolfo, mas no comentou
nada. "Talvez", pensou, "seja s impresso. Andr no tinha cicatriz, era
orgulhoso, prepotente tanto no retrato jovem como no idoso."
     A jovem professora novamente olhou para o retrato de Vitria, parecia-se
mesmo com ela, era aquela imagem que vira no sonho, refletida no espelho.
     - Vamos - chamou Cirilo.
     Puseram tudo no lugar, fecharam a porta e guardaram a chave. Ana
acompanhou-o at o seu quarto.
     - No quero ter aula hoje, estou cansado, quero descansar para a
excurso de hoje  tarde.
     Ana foi para seu quarto e ficou pensando nos retratos. Escutando o
barulho de cavalos, abriu a janela e olhou para baixo. Viu Rodolfo puxando
um belo animal, olhou para ele fixamente.
     "E parecidissimo com Andr!"
     Rodolfo, sentindo-se observado, olhou para cima. Ao v-la acenou a
mo, cumprimentando-a e entrou na estrebaria.
     "Ele no se interessa por mim!"
     Fechou a janela, irritada. Tambm, por que iria querer Rodolfo, um
cocheiro, um motorista sem instruo?
     "Acho que no estou gostando mais desta casa!"
     Resolveu descansar at a hora do almoo, porque, depois, iria com seu
aluno visitar a passagem da manso.
     Almoou sem vontade e, logo aps, foi com o corao batendo rpido ao
quarto de Cirilo. Este j a esperava todo eufrico. Estava com uma corda nos
ombros, uma faca na cintura e com as duas lanternas. Ana, ao v-lo, sorriu.
     - E necessrio estarmos preparados - explicou o garoto.
     Desceram a escada devagar, no se ouvia barulho nenhum na casa.
Entraram na biblioteca e Cirilo trancou a porta por dentro.
     - Assim, evitaremos que algum entre aqui. Agora, Ana, me mostre como
se abre a passagem.
     Ela foi at a estante.
     - E este livro aqui, mostrou. Olhe como se faz, vire para a esquerda,
depois duas para a direita e aps empurre-o para trs.
     - E complicado! Espere que vou tomar nota - falou Cirilo tirando um
caderninho do bolso. - Preciso anotar tudo, talvez encontremos mais
passagens secretas pela casa. E incrvel voc ter descoberto isto, ainda mais
num livro de Latim. O que voc queria num livro de Latim?
     Ana no respondeu. Os dois pararam maravilhados quando viram a
estante se abrir.
     - Vamos nos dar as mos e no as largaremos para nada, assim no nos
perderemos um do outro. Pegue voc uma lanterna e eu a outra - disse Cirilo
todo excitado com a excurso que fariam.
     A passagem dava para um pequeno quadrado e depois para uma
escada. Desceram vinte degraus. O local estava mido e frio e  medida que
desciam sentiam o ar carregado. Ali no estava muito sujo e havia poucas
teias de aranha. A escada era estreita, mas cabia os dois que seguravam as
mos fortemente.
Chegaram a um outro quadrado, ou um pequeno cmodo, onde havia duas
passagens que davam para dois corredores.
     - Vamos por este aqui - disse Ana -, lembrando do sonho que a levou 
gruta.
     - No, vamos por este! - exclamou Cirilo resoluto.
     As paredes daquele subsolo eram de pedras e nada havia nelas.
Entraram num corredor estreito e baixo. No precisavam se abaixar, mas
algum de estatura maior, certamente, necessitaria. Aps uns passos, viram
portas de madeiras de ambos os lados.
     Cirilo, eufrico, como se descobrisse uma nova brincadeira, forou a
primeira porta e ela abriu. Ana arrepiou-se. Iluminaram l dentro. Era um
cmodo quadrado com resto de palhas num canto e um banco de madeira no
outro. No tendo nada de interessante, Cirilo fechou a porta que fez um
barulho que pareceu enorme diante do silncio que reinava. S se ouvia a
respirao dos dois excursionistas aventureiros.
     Cirilo forou a porta do outro lado, abriram sem dificuldades, era igual a
outra e nada havia dentro do cmodo. Eram quatro portas, aproximaram-se
de outra, mas esta no abriu, o menino a iluminou e viu um ferrolho.
     - Vamos, Ana, abra! Fora! - disse Cirilo pegando a lanterna de sua mo.
     Ana fez fora e o ferrolho cedeu, empurrou a porta. Iluminaram o
ambiente e ajovem segurou para no gritar. No meio do compartimento havia
um esqueleto. Poucas roupas o cobriam, mas demonstrava ter sido um
homem. Cirilo entrou e ia mexer, ela no deixou.
     - No, Ciro, no mexa! Vamos embora daqui!
     - Ora, Ana,  s um esqueleto! Devem ser os ossos do tarado que a me
prendeu.
     - Ave Maria! Tambm preso aqui s pode ter morrido! Ningum viveria
muito aqui. Que horror! Quero voltar!
     - No! Agora que estamos aqui, olharemos tudo.
     Tentou abrir a outra porta.
     - Vamos, Ana, abra!
     Ela tentou e no conseguiu.
     - Est trancada - disse ofegante.
     - Tem algum ai dentro! Cirilo bateu na porta.
     - Que idia, Ciro. Como pode ter algum a?
     - Que pena que esteja trancada. Talvez tenha outros esqueletos, ou
fantasmas.
     - Estou com medo - balbuciou Ana, toda trmula.
      - Ora - falou o menino, autoritrio -, no banque a garota medrosa. No
sabe que fantasmas no ficam presos? Agora, vamos por ali.
      Seguiram por um corredor que terminava em tringulo sendo que cada
lado tinha uma passagem.
      - Vamos ver o que existe na primeira - props Cirilo.
- Puxa, aqui  maior que pensava.
      Entraram na primeira  esquerda onde havia outro corredor; logo viram
uma porta aberta, olharam, era um cmodo pequeno e estava vazio.
Seguiram pelo corredor e acharam uma porta no final do lado direito, abriram
com facilidade e defrontaram-se com um cmodo retangular, com uma mesa
e algumas cadeiras velhas. Cirilo colocou o p numa delas e ela caiu
desmoronando.
      - Aqui deveria ser um local de reunies secretas - comentou o menino,
um pouco cansado.
      A falta de ar puro estava prejudicando o garoto. Ana preocupou-se,
estava com medo, pensou ao ver a sala: "A manso  to grande!
Necessitaria de uma sala para reunies aqui embaixo"?
      - Vamos por aqui!
      Voltaram para as entradas do tringulo e entraram em outra passagem.
      - Ciro, por favor, vamos voltar.
      Mas o garoto no lhe deu ateno e seguiram em frente. Deram com
outro corredor, s que este era bem estreito. Depois de ter dado alguns
passos, pararam, o ar estava ficando irrespirvel.
      - Voc tem razo, Ana. E melhor voltar. Um outro dia voltaremos mais
preparados.
      Ana mais que depressa virou, segurava a mo de Cirilo com fora,
andaram um pouco e de repente viram duas portas que antes no haviam
percebido ou ento no estariam seguindo pelo caminho j percorrido.
      - E agora? - perguntou o menino com medo.
      Pela primeira vez o garoto se assustou e Ana estremeceu. O que fariam
se se perdessem? Ningum iria procurlos ali. E se a porta da biblioteca
fechasse? Morreriam em poucas horas. Cirilo era um garoto, mas ela era
adulta e deveria ter sido mais responsvel. No deveriam ter entrado ali,
embora tivesse pensado que deveria ser pequeno, estava muito assustada.
      - Mame mandou seguir por esta daqui!
      Cirilo apontava uma porta e outra conforme dizia a frase costumeira entre
brincadeiras de criana. Apontou a da esquerda, abriram fcil e passaram por
ela.
      -,Graas a Deus! - exclamou ajovem professora aliviada. - E a do
corredor das prises!
      Percebeu ento que ali era uma espcie de labirinto, que um corredor se
comunicava com o outro.
       - Portas parecidas, corredores iguais! Bem interessante! - comentou
Cirilo tambm aliviado.
       Andaram rpido para a saida. O menino ofegava cada vez mais e Ana
teve que ampar-lo. Chegaram  escada. Ana ainda olhou para o outro
corredor, lembrou-se do seu sonho e teve a certeza de que ele ia dar na
gruta. No disse nada e teve de ajudar Cirilo a subir as escadas. Rogou a
Deus aflita para que a porta continuasse aberta. Suspirou aliviada quando viu
a claridade.
      - Obrigada, meu Deus! - exclamaram os dois juntos.
      Sairam da passagem secreta e respiraram contentes quando puseram os
ps na biblioteca. Cirilo ia sentar-se.
      - No, Ciro. Voc est sujo, se sentar sujar a poltrona. Estamos
empoeirados. Vou fechar a passagem e lev-lo
para seu quarto.
     O menino ficou em p esperando. Ana fechou a passagem e limpou as
marcas que seus calados empoeirados deixaram no tapete. Saram, Ana
sempre ajudando Cirilo. Foram para o quarto dele.
     - Tome um banho, Ciro. Ajudo voc.
     Ajudou o menino a tirar as roupas, ele ficou s com as peas intimas e foi
para o banheiro. Ana sacudiu as roupas do garoto na janela, limpou-as um
pouco e as colocou no cesto de roupas sujas. Tambm limpou o sapato dele.
     Cirilo saiu do banho e ela o ajudou a vestir-se. Ao v-lo s de roupas
ntimas, reparou que ele tinha manchas vermelhas nos braos, costas e
pescoo. Prestando mais ateno, notou que suas orelhas estavam
levemente inchadas como tambm o nariz. Instintivamente Ana passou a
unha nas costas dele e Cirilo pareceu no notar, no sentir. O garoto ps um
roupo.
     - Sinto-me cansado, Ana, vou descansar. V para seu quarto e tome um
banho tambm, antes que algum a veja e tenha que dar explicaes. Voc
est branca. Ficou com medo. Eu achei a excurso legal. Sabia que no
amos nos perder. Parece que ao entrar l tudo me era familiar, como se
fosse eu quem tivesse planejado e construdo aquele labirinto. E que tenho o
sangue da famlia nas veias. E voc, Ana, gostou do passeio?
     - Sim! No! No sei! At amanh!
     Saiu rpido e foi para seu quarto. A manso estava silenciosa. Fez a
mesma limpeza com suas roupas e tomou um banho. Sentia sua cabea
arder, eram muitas coisas a lhe perturbar, a passagem, o quadro e a doena
de Cirilo. S lhe disseram que o garoto era doente, mas no falaram que
doena ele tinha.
"Ser hansenase? S pode ser", pensou aflita, recordando que uma vez
estudara sobre o Mal de Hansen na escola. novamente..." - falou baixinho.
     Mas foi, desceu e entrou na biblioteca. Ao olhar para a estante que dava
para a passagem do labirinto do poro, arrepiou-se. Procurou nas estantes na
parte de Cincias. Achou um livro novo, pegou e folheou-o, notou uma pgina
marcada por um pedao de papel branco. Estava marcada bem no captulo
sobre a doena que viera pesquisar.
     "Algum deve ter pesquisado recentemente sobre a mesma doena.
Talvez D. Eleonora."
     Leu o captulo com ateno. Os sinais da doena, o comeo, o
tratamento, os perigos do contgio. No teve mais dvidas, Cirilo era um
hanseniano.
     Voltou ao seu quarto muito triste e ficou a pensar em tudo.


    VII   -A Torre


     Ana estava distrada. Quando ouviu Michel cham-la, correu e abriu a
janela.
     - 01, Michel!
     - Oi, Ana! Rodolfo veio da cidade e trouxe cartas para voc. Como Snia
no est, no quer vir busc-las?
     - Claro, deso j..
     Michel a esperava na garagem e foram alegres para a casa de Rodolfo.
No caminho, Ana perguntou:
     - Amanh voc me leva  gruta?
     - Tem que ser durante o dia, l existem morcegos.
     - Amanh  domingo e meu dia de folga. Espero-o aqui, logo aps o
almoo, mas no conte a ningum,  nosso segredo.
     - Rodolfo! - gritou Michel, em frente  casa dele -Ana veio buscar as
cartas.
     Rodolfo abriu a porta e Ana entrou sem ser convidada. Queria ver como
era a casa dele. Era simples como a de Michel, uma sala, dois quartos
pequenos e da sala onde estava se via a cozinha. A sala estava mobiliada
com uma mesa e quatro cadeiras. Rodolfo, vendo-a examinando tudo,
insinuou:
     - Gostou da casa? No est achando pequena?
     - Minha casa tambm  pequena. Moro agora na manso, mas sou uma
empregada. Voc cozinha aqui?
     - No, tomo minhas refeies na manso, na cozinha,  claro. No quer
sentar? Aqui esto suas cartas.
     A moa pegou e as olhou, uma era de seu irmo e a outra de sua me.
Com vontade de l-las, agradeceu e despediu-se. Voltou rpido para seu
quarto.
     Abriu a carta do irmo com muita saudade, era uma missiva simples e
carinhosa. Dizia que ia seguir a carreira militar, ficaria no exrcito e que
estava namorando uma moa por quem estava apaixonado.
     "Meu irmo est to longe! No voltar mais para casa",
- pensou Ana com vontade de chorar.
     Ao pegar a carta de sua me, leu no verso que o endereo no era de
sua casa. Apreensiva abriu a carta. Era bem longa, sua me explicava que se
separara de seu pai, que a casa fora desfeita, e o pai estava morando na
penso do tio Pedro. Esta penso localizava-se no bairro em que moravam,
era perto de sua antiga casa. E que ela, sua me, foi morar num pequeno
apartamento com uma amiga.
     Ana chorou sentida. Sentia-se agora sem lar, com sua casa desfeita. Seu
irmo longe, o pai morando numa penso, a me com uma amiga, no tinha
lugar para ela com nenhum dos dois. Sentiu-se muito sozinha. Queria ir
embora. A manso com seus mistrios a assustava, tinha medo e no queria
mais ficar ali. Gostava dos dois garotos Michel e Cirilo. Sentia-se atraida por
Rodolfo, um homem estranho. D. Eleonora a tratava como empregada. As
vises que teve desde que chegou a estavam perturbando e temia ficar louca.
A semelhana dela com Vitria que morreu h tanto tempo, a sua descoberta
da passagem secreta, o esqueleto na cela. Tudo isto era motivo, o bastante,
para querer ir embora. Ainda mais agora que descobrira que a doena do seu
aluno era uma doena contagiosa. Certamente Cirilo ignorava sua doena e
seus parentes o escondiam naquela manso isolada, para no ter que ir a um
hospital prprio. Ana sentiu pena do garoto, mas temia o contgio. E se
ficasse doente? No tinha um lugar para se isolar e iria com certeza para um
hospital. Mas, pensou tambm, o contgio no se dava assim to fcil.
     Chorou at se tranqilizar, mas continuou a pensar. Queria ir embora e
no tinha para onde ir e nem dinheiro. O contrato que assinara tinha uma
clusula que estava bem clara, se desistisse no receberia nada. E ainda
faltavam alguns
dias para vencer o primeiro ms, quando receberia um pequeno vale. Seu
ordenado seria integral s no final do sexto mes.
     Escreveu para Gilson, procurando contar as coisas boas, no queria
preocupar o irmo. Escreveu tambm para o pai, sabia o endereo da
penso. Preferiu fazer mais perguntas do que falar de si mesma. Porm,
queria saber mesmo como ele estava e como ia no trabalho. Para a me,
perguntou para onde ela iria ou moraria quando voltasse a sua cidade. Disse
que estava estranhando e que se sentia sozinha.
     Ia deitar, quando Elizete veio cham-la. Cirilo no estava bem e D.
Eleonora no havia chegado. Ela tinha que cuidar da cozinha e no podia
fazer companhia a ele. Ana, sentindo-se culpada por ter ido com ele s
excurses durante o dia, correu para o quarto do garoto. Encontrou-o
ofegante.
     - No tenho nada grave, Ana.  s uma pequena falta de ar. No se
preocupe.
     Tomou a temperatura dele, suspirou aliviada, estava normal.
     - Que posso fazer para ajud-lo? Voc j tomou seu remdio?
     - Sim, j tomei.
     - Ficarei aqui, fazendo-lhe companhia.
     Cirilo ficou quieto e Ana sentou-se perto de seu leito. Depois de uns trinta
minutos, D. Eleonora entrou no quarto com Dr. Bernardo.
     - Cirilo, o que aconteceu? - indagou D. Eleonora. Ao ver a jovem
professora perguntou dirigindo-se a ela: - Que faz aqui?
     - Estou fazendo companhia...
     Ana falou encabulada, mas sua patroa no deixou que terminasse a
explicao e a interrompeu.
     - Obrigada! E virando para o senhor que a acompanhava disse: - Esta
jovem  Ana Elizabeth, a professora do Cirilo. E este  Dr. Bernardo.
(1) N.A.E. Ana, ao ter o corpo adormecido, saiu em esprito e excursionou
pela torre. (2) N.A.E. Rodolfo estava ali em perisprito, seu corpo adormecido
estava no seu leito. Em alguns casos, a pessoa que sai do corpo assim pode
lembrar sua existncia passada, como aconteceu com Rodolfo.


     - Prazer! - disse Ana com simplicidade.
     - Prazer! - falou Dr. Bernardo sorrindo.
     - Agora me diga, Cirilo, - indagou D. Eleonora - que fez para ter outra
crise?
     - Nada, titia, nada. Ana pode confirmar, estudamos o dia todo e foi  noite
que comecei a me sentir mal. Tomei os remdios direitinho.
     - Vou examin-lo - disse Dr. Bernardo, olhando para Ana que se sentiu
analisada.
     - Pode ir agora, Ana Elizabeth, obrigada e boa noite -disse a dona da
manso abrindo a porta do quarto. - Agora, cuidarei do meu sobrinho.
     - Boa noite! - respondeu a moa.
     Ana voltou rpido para seu quarto, sentiu medo e solido, chorou
novamente at dormir. Sonhou... Ao acordar lembrou nitidamente do sonho
como se tivesse acontecido realmente.
     Sonhou que levantou de sua cama, ps um roupo, saiu do quarto e
entrou na torre.(1) Passou pelas portas fechadas com facilidade. Viu bem a
entrada, a escada e por ela subiu. No primeiro andar havia, como em todos,
uma abertura dando viso para o lado de fora, no tinha mvel nenhum na
torre. Subiu mais e viu um facho de ferro, que servia antigamente para
iluminar, mas, forando-o para baixo, a parede de pedra abria e por uma
escada levava a uma porta do outro lado da torre. Uma passagem para fuga.
Continuou a subir as escadas. De um andar para outro havia sempre uma
sala, mas Ana no prestou ateno, subiu rpido. No topo olhou para a
abertura, tudo escuro. Lembrou que dali se via grande parte da propriedade.
Voltou, comeou a descer, de repente levou um susto. Encostado na parede
estava um homem olhando-a.
     - Voltou finalmente! Voltou Vitria!
     Ana sentiu medo, ali estava Rodolfo, mas sabia que era o outro, Andr,
que falou novamente com tom raivoso. (2)
     - Vim ver se a bandeira branca est a. Veio ver a mesma coisa? Matei
voc uma vez e no me faa mat-la outra vez.
      - Sou inocente! - conseguiu a moa dizer com dificuldade.
      - H-h-h - gargalhou ele. - Inocente? Aqui mesmo voc me jurou que
era inocente e no era. Voc me traiu! Lembra-se, ingrata? Aquele dia segui
voc e a encontrei sozinha. Voc me jurou que era inocente. Mas esqueci da
passagem secreta. Ele bem que poderia ter sado por ela quando viu que eu
me aproximava. Com seu esconderijo descoberto, voc escolheu a gruta para
encontrar-se com ele. Quem era ele? Quem? Nunca soube. Na gruta naquele
dia, eu o vi correr. Como pde me trair de forma to vil? Eu que tirei voc da
lama.
      - Nunca estive na lama - disse ela se defendendo. - Eu era simples
empregada, eu...
      - Cuidava de minha esposa e eu me enamorei de voce. Apaixonei-me de
tal forma que, quando ela morreu, casei com voce.
      - E todos pensaram e pensam at hoje que fui eu que matei sua primeira
esposa. Mas no matei ningum.
      - Oh, como no? Voc nos desgraou. Prejudicou Luiz que sofreu por
voc, que a amava como sua segunda me. Voc me fez matar minha
esposa, me do meu filho Luiz.
      - Ento, ela morreu mesmo assassinada? - Ana indagou assustada.
      - Estava doente, ia morrer mesmo. Dei-lhe remdio a mais, isto para
casar com voc.
      - Assassino!
- Sim, fui um assassino! Nunca fui feliz! Nem antes nem agora. Meu crime
no me trouxe felicidade, mas sim me tirou a paz. E v como estou agora,
sou feio, aleijado, empregado onde fui senhor. Voc  a culpada! Diga-me
com quem me traiu. Diga! Vasculhei tudo, suspeitei dos empregados, at dos
escravos, dos vizinhos. Porm, no descobrinada. Diga agora com quem me
traiu! Diga!
      Rodolfo ficou mais feio com a cicatriz no rosto e com a expresso de
dio, veio para o lado dela, pegou-a pelos braos e a sacudiu.
      Ana acordou com medo e com Luiz no pensamento.
      - Meu Deus, Vitria traiu o marido com seu enteado. Era o Luiz o amante
dela! Virgem Maria! Mas o que eu tenho a ver com esta histria? Ser que
sonhei com os fatos que aconteceram nesta manso? Por que sentia que era
Vitria, e Rodolfo, este Andr?
      No seu desjejum, Ana encontrou-se com Snia, que lhe sugeriu:
      - Por que voc no vai  vila? Nossa cidadezinha bonita. Pea a
Rodolfo para lev-la.
      No tinha vontade de ir  vila, mas, se Rodolfo a levasse, at que iria,
pensou.
      Tomou seu caf e saiu para o jardim, procurou pelo jardineiro e o
encontrou remexendo num canteiro.
      - Bom dia, Joo. At aos domingos voc cuida do jardim?
      - Vim s plantar estas mudinhas. Gosto muito deste jardim,  um prazer
ficar aqui.
      - Ele  muito bonito, voc est de parabns. Demonstra que  um timo
jardineiro.
      - Obrigado - respondeu Joo sorrindo contente com o elogio.
      - Joo, gostaria de conhecer a torre.
      - Vou buscar a chave, j volto.
      Ana olhou para a torre e pareceu ver a bandeira branca. Fixou o olhar,
porm nada mais viu. Chegou perto da torre, andando devagar, deu uma volta
em seu redor. Viu outra porta pequena do outro lado, quase que escondida.
Forou para abri-la, mas estava trancada. Foi ali que Joo a encontrou.
      - Que faz aqui do lado de trs?
      - Estava olhando. E por aqui que se entra?
      - No - respondeu o jardineiro. - Esta  a outra entrada para a torre ou
uma sada.  a nica passagem secreta que se conhece da casa. Esta
entrada d para uma escada e a porta  de pedra; na parede, abre por um
controle. Venha, abro a torre para a senhora.
      - Joo, e a bandeira branca, voc a viu? Como  esta histria? Conte
para mim.
     - Olhe ali, disse mostrando uma armao de ferro para bandeiras e no
momento sem nenhuma,  l que aparece e desaparece. Esta histria  bem
antiga. Um dos proprietrios desta casa, chamado Andr, matou a sua
segunda esposa que o traia. Dizem que esta mulher, Vitria, a segunda
esposa, matou a primeira mulher deste Andr. Acho que estes espritos no
tiveram sossego. Uma tia de Andr mexia com bruxaria e disse que todos
desta trama voltariam a esta casa para se entender. E que, quando os trs se
reunissem, aqui apareceria a bandeira branca e estes espritos teriam paz.
     - Trs? - indagou Ana. - Que trs?
     - Sr. Andr, D. Vitria e o seu amante. Se o terceiro no for o amante,
deve ser a primeira esposa, a que foi assassinada. Pronto, a porta est
aberta. Quer que eu suba com a senhora?
      - No, obrigada. Vou sozinha.
      Ana estremeceu ao ver as escadas, era tal como vira no seu sonho.
Tentando tranqilizar-se, pensou:
     "Tudo bobagem, todas as torres so iguais. J vi muitas gravuras de
torres."
     Chegou ao primeiro andar, olhou para a abertura, avistou o jardim. Joo
olhou para cima e sorriu, a moa correspondeu, afastou-se e tomou a subir.
Deparou com o local do seu sonho, s que tudo lhe pareceu mais velho,
gasto, mas era igual.
      Continuou at chegar ao topo, olhou para a abertura, avistou o bosque,
as plantaes, a estrada, a vista dali era muito bonita.
     "Ningum sabe quem foi o amante da Vitria, eu sei...
Era o seu enteado Luiz. Como esta Vitria pde trair o mando com o filho
dele? Ele era garoto ainda, saindo da adolescncia." Suspirou triste. "Por que
eu tenho todas essas vises? Estes sonhos estranhos e sinto-me atraida por
um sim-pies empregado braal? No sou preconceituosa, mas Rodolfo  feio,
aleijado, sem instruo e, alm disto, no me d ateno, parece que sente
repulsa por mim. Por que eu estou passando por tudo isto?" - falou baixinho
consigo mesma.
      Desceu, triste. Ao chegar ao andar em que no sonho conversava com
Rodolfo, ou Andr, parou e teve vontade de ver se realmente era ali a
passagem secreta; puxou com fora o archote preso na parede. A porta de
pedra abriu e surgiu uma escada  sua frente.
      "Aqui est ela, sei tambm que tanto se pode ir e sair pela porta que vi
do outro lado, como tambm h no meio da escada outra abertura que leva
ao labirinto, podendo sair na gruta ou na biblioteca. A outra abertura se obtm
tambm por um archote na parede. E por que sei disto?'
     Puxou o archote novamente, a abertura fechou e ela desceu apressada.
Fechou a porta da torre e levou a chave para Joo.
      - Obrigada, Joo.
     - Gostou da torre? - indagou o jardineiro gentil.
      - Hum, sim - respondeu indecisa e saiu apressada.
      Estava ainda no jardim quando encontrou Michel.
      - Ana, ontem fiquei esperando-a para a aula. Por que voc no veio?
Rodolfo tambm estava l em casa.
      Rodolfo l na casa dele, pensou, era s por causa da Eliane.
      - Ontem no estava bem, resolvi responder as cartas que recebi, depois
tive de fazer companhia a Cirilo que est doente. Mas amanh irei.
      - Voc est abatida. Est doente?
      - No estou doente, estava s com um pouco de dor de cabea.
nito para passear por l - convidou Michel carinhosamente. Ana pensou com
      tristeza, antes queria muito conhecer
a gruta, mas agora no estava muito entusiasmada, deveria ser como no seu
sonho, como foi na torre. Mas ficar no quarto, ou ler, no a estava
entusiasmando. Passear poderia ser agradvel. Depois, gostava muito
daquele garoto.
      - Combinado, s quatorze horas deso. Certo?
      -Certo.
      Ana voltou para seu quarto. Estava com muita vontade de ir embora. Mas
para onde? Para a penso onde seu pai estava? Com sua me? Nenhum dos
dois tinha como recebla. No tinha para onde ir e nem dinheiro. A culpa de
estar nesta dificuldade, pensou a moa, era dos seus pais. Se eles se
preocupassem com ela, no teriam deixado que aceitasse um emprego to
longe e entre pessoas desconhecidas. Segurou as lgrimas e pegou um livro
para ler. Procurou prestar ateno na leitura, mas ficou pensando nos
acontecimentos desde que chegcu  Manso da Pedra Torta.
      Suspirou aliviada. Quando viu que era hora do almoo, desceu, mas
alimentou-se pouco. Escutou vozes na outra sala, era D. Eleonora e o mdico
que conversavam. No estava com vontade de subir ao seu quarto, desceu
para o ptio e quase que instintivamente foi para a estrebaria.
      Entrou sem bater e viu Rodolfo escovando um cavalo.
      - Bom dia! - disse a moa.
      - Boa tarde! - respondeu ele corrigindo-a.
      Ana ficou vermelha e encabulada. Rodolfo virou e olhou para ela.
      - Que faz aqui?
      - Estou passeando.
      - O garoto Cirilo est doente?
      - Est sim. No  estranho um garoto ficar to doente? - falou ela,
tentando saber se ele tinha conhecimento da doena dele.
      - No  s pobre que fica doente.
      - Voc sabe que doena ele tem?
      - No - respondeu o rapaz secamente.
      - Muito bonito este cavalo. Qual o nome dele?
      - Voc vai ficar aqui me olhando? Tenho muito o que fazer.
      - Mal educado!
      Ana corou novamente, ia sair, mas Rodolfo largou a escova, virou-se
para ela e disse baixinho.
      - Desculpe-me, Ana, no costumo ser assim. E que voc me d uma
sensao estranha, de traio. Algo me adverte que voc  uma traidora. Que
voc me far sofrer muito. No sei explicar tudo isso, desculpe-me. Voc 
to linda!
      Rodolfo chegou perto dela, Ana ficou olhando-o parada. Ele a enlaou
com seus braos fortes e a beijou na boca. Ela estremeceu, porm o rapaz a
largou e pegou novamente a escova.
      - Perdoe-me, sou um grosseiro.
      Ana no conseguiu dizer nada, seus lbios queimavam, saiu apressada
da estrebaria.
      "Amo-o! Meu Deus, eu o amo!" - pensou aflita.
      - Ana! - exclamou Michel. - Desceu mais cedo! Que bom! Se quiser
podemos ir.
      O garoto pegou na mo da moa e foi falando alegre sem parar.
Atravessaram o ptio. Michel abriu um enorme porto e entraram no bosque.
     - Aqui  bonito, na primavera tem muitas flores. Este lugar se chama se
Bosque do Sossego. Aqui vem s o pessoal da manso, quer dizer, ningum.
     Ana gostou de andar por entre as rvores, o lugar era lindo e tranquilo;
no haviam andado muito quando o garoto exclamou:
     - A gruta  aqui, Ana. Veja!
     Ela olhou e sentiu um arrepio. Era um buraco aberto na rocha. Entraram
e deram com um salo, no era grande e no tinha, como Michel j lhe
dissera, nada de especial. Num canto um altar de pedra com a imagem de
uma santa. Ana,
porm, recordou de tudo.
     - E a imagem de Nossa Sra. do Rosrio - observou distrada.
     Examinou o altar e viu a pedra que, se levantada, iria para a passagem
secreta, mas no disse nada.
     - Ana, aqui tem uma ramificao, mas  pequena e s tem morcegos.
     E ele mostrou um buraco  esquerda onde mal cabia uma pessoa
deitada.
     - S tem esta?
     - S. No lhe disse que nada tinha de especial?
     -E...
     Ana comeou a chorar, aquele lugar era triste, deprimente e lhe causava
arrepios.
     - Por que est chorando? - perguntou o menino carinhosamente.
     - E que estou com saudades da minha famlia - respondeu encabulada.
     - Ah, pensei que era pela gruta! No gosto daqui. Aqui parece um local
de encontros secretos, de crimes e maldades. Uma vez, estava passeando
pelo bosque  fui surpreendido por uma tempestade e me abriguei aqui. Foi
me dando uma sensao esquisita. Parecia que eu j estivera aqui com uma
mulher bonita, mas no era assim menino, mas moo. Estvamos nos
beijando quando um barulho me fez correr para um buraco, mas parece que
no era este, era outro, s que no me lembro onde era. Esta impresso me
fez mal, meu corao batia forte, estava com tanto medo que nem esperei a
chuva parar, fui embora. Depois de um tempo, voltei aqui com uma corda que
amarrei na cintura e a outra ponta nesta pedra e, com uma lanterna, entrei no
buraco da parede, mas nada vi de interessante,  um simples buraco sem
outra sada. Rodolfo tambm no gosta daqui.
     - Por qu? - perguntou Ana que parou de chorar e prestava ateno no
garoto.
     - Ele veio aqui uma vez s. Sentiu-se mal e desmaiou.
Ele me disse que aqui est impregnado de maus fluidos. E aqui ele sentiu
remorso e raiva e no soube dizer de quem ou por qu. Ningum gosta deste
lugar desde que Vitria se suicidou aqui.
     - Ou que a mataram - disse Ana.
     - E... Vamos embora, Ana?
     - Vamos!
     Ana sentiu-se pesada e com leve mal-estar. No aceitou o convite do
garoto para passear mais, sentia-se cansada.
     - Agradeo-lhe por ter me levado  gruta. A noite vou a sua casa para lhe
ensinar.
     O amigo de Ana entrou em casa e ela tomou o rumo da garagem, mas
olhou por todos os lados para ver se via Rodolfo; no o vendo, foi para seu
quarto e ficou a pensar.
     Por que ser que Rodolfo temia que ela o traisse? Ser por que j fora
trado? Seus sonhos seriam reais? Teria ela sido Vitria, e Rodolfo, Andr?
Mas como?
     Rodolfo havia se sentido mal na gruta e ela chorou com a sensao de
que ali perdera algo muito precioso. O qu? A vida?
     Ana sentou-se confortavelmente numa cadeira, no sabia se dormira ou
tivera outra viso. Estava na gruta, toda enfeitada com um bonito vestido
verde e com muitas jias, abraava e beijava um rapaz louro, muito bonito e
faziam juras de amor. Quando ouviram um barulho, o homem correu, abriu a
passagem secreta e ela se apavorou ao escutar cham-la.
     "Vitria! Vitria!"
     "Estou aqui!"
     "Onde est seu amante? Onde?" - disse Andr furioso, entrando na gruta
olhando toda a parte. "Com quem me trai? Diga!"
     Vitria riu desesperando-o mais ainda.
     "Como v, aqui no tem ningum."
     "Mas voc est me traindo, eu sei!"
     "Voc  um bobo! Trata-me como uma empregada. Tem
(1) N.A.E. Ana recordou a sua desencarnao quando viveu como Vitria.
Desligada pela morte violenta, foi separada do seu corpo morto, em perisprito
levantou e seguiu Andr.


vergonha do meu passado. E ainda ps na cabea que traio! Aqui no tem
ningum. Vim passear sozinha. Traio voc s no seu pensamento."
     Andr abaixou e viu um salto partido de um sapato masculino.
     "De quem  isto? Fale Vitria!"
     Ela ficou branca, tremia e nada respondeu. Andr, louco de raiva, tirou o
revlver da cintura e atirou no peito dela. Ela caiu e do seu peito jorrou
sangue e com esforo conseguiu dizer com voz fraca:
     "Perdoe-me...!"
     "Nunca!"
     Respondeu ele friamente, colocou a arma perto do corpo dela e saiu,
deixando-a agonizando. A moa sentiu uma dor forte no peito, levantou e
acompanhou Andr, (1) que voltou  manso, reuniu os familiares e disse que
Vitria se suicidara na gruta. Todos se espantaram e Luiz embranqueceu. As
providncias foram tomadas. Todos sofreram muito. Andr, porque amava
Vitria e por querer saber quem era seu rival, ela, pelo remorso e por ter
desencarnado quando queria viver encarnada por muito tempo. Luiz sentia-se
culpado por t-la deixado sozinha na gruta e por ter traido o pai.
     Ana deu um pulo da cadeira, voltou a si assustada, ainda doa o peito.
Levantou e tomou gua.
     "Foi Andr que matou Vitria. Que histria trgica!"
     Olhou no espelho, estava branca, ajeitou-se.
     "Tenho que sair, ficar neste quarto sozinha me apavora. Visitarei Ciro."


    VIII   - Reencarnaes



    Bateu de leve na porta do quarto de Cirilo e foi Dr. Bernardo quem abriu.
    - Entre, garota. Como est voc, Ana Elizabeth?
    - Bem. Vim visitar Ciro, o Cirilo.
    - So amigos, hem? Ele no est muito bem. Estou lhe trocando a roupa.
Quer me ajudar?
    Ana fez que sim com a cabea e foram para perto do garoto, que estava
mais vermelho que o normal, por causa da febre, e ofegante. Dr. Bernardo
molhava uma toalha na gua de uma bacia e passava no menino. Ana o
ajudou, depois trQcaram a roupa dele, ajeitaram-no no leito.
      - Pronto, agora vamos deix-lo dormir - disse o mdico. - Vamos para a
saleta. Ana, voc est doente, filha?
indagou, carinhosamente. - Est plida e com olheiras.
      A jovem no conseguiu segurar as lgrimas, h tanto tempo ningum se
preocupava com ela.
      - No sinto nada fisico, s solido e tristeza. No estou me acostumando
nesta casa grande, com poucas pessoas, e nem com os fantasmas, as vozes,
eu...
      - No ligue para as vozes, o barulho desta casa grande no lhe far mal
algum - aconselhou o mdico sorrindo.
      - Acredita que se possa ouvi-las? No me acha louca em dizer que as
ouvi?
- Filha, as vozes todos por aqui j escutaram e muitas vezes. Eu tambm j
as ouvi. Que pode haver de mal nisto? Somos eternos, no somos? E,
quando deixamos nosso corpo pela desencarnao, ou seja, pela morte dele,
a alma, o esprito sai para nova forma de vida. Se os donos destas vozes aqui
viveram, amaram, odiaram, aqui podem voltar em busca da soluo dos seus
problemas. Neste ambiente fechado e enorme impregnado dos seus fluidos,
ns os encarnados mais sensveis podemos escut-los.
      - No entendia direito o que falavam - esclareceu Ana, gostando da
conversa.
      - So coisas deles e no devemos nos intrometer. Deixemos os
desencarnados.  s isto que tem?
      - Saudades, deixei a famlia.
      - No me parece muito chegada a eles para sentir-se saudosa assim.
No quer me dizer o que se passa com voc, menina?
      - No sei, acho que no estou me adaptando a esta manso. J tive
namorados, porm no me interessei por nenhum. Agora s penso no
encarregado que cuida dos cavalos, e
      Dr. Bernardo riu, sentou-se no sof e pegando na mo de Ana fez com
que sentasse junto a ele.
      - Filha, Rodolfo no  assim desprezvel, ele  honesto, trabalhador e
sensvel. Sua aparncia no  das mais bonitas, mas voc no me parece
volvel a ponto de se apaixonar s pela aparncia fisica. Depois, pode ser s
uma iluso, talvez seja porque  o nico rapaz agora a lhe cortejar.
      - A que est o problema, Rodolfo foge de mim.
      Dr. Bernardo ia responder, quando Cirilo comeou a falar em voz alta e
ofegante. Os dois correram para perto do garoto.
      - Faam isto! Obedeam as minhas ordens! No esqueam que comigo,
Artur, o proprietrio deste lugar, no se brinca. Tirem-me as botas! Sou Artur,
sou importante e todos devem me temer e obedecer. Faam rpido!
      Calmamente Dr. Bernardo ajeitou Cirilo no leito, deulhe gua, o acariciou
e disse:
      - Cirilo, querido, acalme-se!
      O garoto ficou quieto. Ana no pde deixar de arregalar os olhos.
Lembrou do Artur, aquele parente que ele admirava. Dr. Bernardo voltou 
saleta e Ana o seguiu assustada.
      - Cirilo est delirando. Isto acontece sempre! - esclamou o mdico.
      - Ele fala sempre neste Artur?
      - Sempre.
      - Virgem me! Pensei que ele s o admirava.
      - Ele? Como sabe disto? Artur  um antepassado da famlia...
      - Oh! No sei! - exclamou Ana, encabulada.
      - Sabe mais coisas e est me escondendo. No deveria, Ana. Ver que
poderei ajud-la muito. Cirilo lhe disse algo sobre Artur?
      - Oh, sim! Agora estou me lembrando. Ele comentou que admirava este
Artur, porque foi ele que fez a fortuna da famlia e construiu esta casa.
      - Sim, o que mais?
      Foram interrompidos com batidas na porta, Dr. Bernardo abriu e D.
Eleonora entrou e cumprimentou-a. Ana tratou de se explicar.
      - Vim ver o menino Cirilo e j estava de sada.
      - Venha v-lo quando quiser, distrair Cirilo, ele gosta de voc -
respondeu D. Eleonora educadamente.
      Ana saiu, voltou ao seu quarto e comeou a ler um livro. Na hora certa,
desceu para o jantar. Quando acabou e ia sair, ouviu D. Eleonora e o mdico
conversando. Ficou escutando.
      - Eleonora, dormirei no quarto de Cirilo, ficarei com ele com prazer.
      - Obrigada, Bernardo, hoje estou com uma tremenda dor de cabea. Vou
me recolher agora. Sabe, as preocupaes, o irresponsvel do meu sobrinho
deixa tudo por minha conta, at o filho. Telegrafei a ele contando o estado do
garoto e sabe a resposta que recebi dele? "Titia, distraio-me bastante nas
neves da Sua, voltarei dentro de trinta e cinco dias." Que fao, meu amigo,
se o garoto piorar?
      - Tudo que nos  possvel est sendo feito. Estamos
cuidando com carinho do nosso Cirilo. Raimundo, seu sobrinho, um dia
acordar para a responsabilidade.
      - E se o menino morrer? - indagou D. Eleonora preocupada.
      - O pai sabe da gravidade de sua doena. Diversos especialistas foram
consultados. Voc no tem culpa de nada, minha querida.
      - Voc  to bom! Que seria de mim sem seus sbios conselhos.
      Subiram para seus aposentos. Ana foi para seu quarto e andou nervosa,
de um lado para outro.
      "Ser que me contrataram para ensinar um moribundo? Cirilo estaria
para morrer? No posso dormir sem respostas. Vou at o Dr. Bernardo e lhe
pedirei explicaes", falou Ana em voz baixa como era de seu costume.
      Sabendo que D. Eleonora se retirara para seus aposentos e que Dr.
Bernardo se achava no quarto de Cirilo, Ana devagar desceu as escadas da
ala onde estava acomodada para aps subir as que davam acesso  outra
ala. Abriu a porta sem bater, entrou no quarto do menino, atravessou a saleta
e viu o mdico sentado numa poltrona olhando o menino que estava
dormindo.
      - Boa noite!
      Ana saudou-o baixo. Dr. Bernardo assustou-se, levantou, veio sentar no
sof da saleta e com um gesto convidou a moa a sentar ao seu lado.
      - Estava preocupada com Cirilo e no quis dormir sem saber se ele
melhorou.
      - A febre baixou e ele est dormindo. O que a trouxe aqui? Vejo nos seus
olhos preocupaes. Deduzo quais sejam. Teme o contgio? No se
preocupe, ningum adoece, se no tiver predisposio. Posso lhe garantir
que o contato que voc tem com ele no oferece perigo nenhum.
      - No  com isto que me preocupo.
      - No?
      - Sinto pelo garoto, gosto dele. Descobri sua doena
sozinha. Dr. Bernardo, ele vai sarar?
      - No  do meu feitio mentir. Se fosse somente esta doena, poderamos
control-la. Mas nosso amigo tem uma deficincia cardaca e os brnquios
doentes. Entretanto temos esperanas de melhoras.
      - Ele ir mesmo para um hospital no estrangeiro? D. Eleonora disse que
ele ir dentro de alguns meses. Estou lhe dando aulas para este fim.
      - Esperemos que sim -- disse Dr. Bernardo tranqilamente. - Gostaria de
lhe pedir para ser paciente e carinhosa com ele e tambm que no lhe falasse
nada sobre suas doen as.
      - O senhor lhe devota grande estima, no ?
      - Certamente. Sou mdico, moro sozinho na cidadezinha aqui perto, sou
vivo e com os filhos casados Atualmente atendo pacientes vinculadas pela
amizade Cuido da sade da famlia de Eleonora desde que me formei. Estou
controlando as medicaes de especialistas que tratam do garotc. agora que
falei de mim, no quer falar um pouco de voc?
      Ana contou sua vda e no final teve uma grande pena de si mesma,
finalizando queixosa:
      - Sou como Cirilo, desprezada e s...
      - No - falou o mdico -, no . E pior! Ele no reclama, est doente, tem
dores, febre que queima, no tem irmo como voc e luta para viver. Voc 
sadia, estudou, tendo irmo poder ter sobrinhos e est a reclamando com
imensa d de si mesma. Erramos muito quando nos desprezamos e quando
nos tachamos de fracassados. D de ns mesmos e pessimismo no levam a
lugar nenhum. Quem tem d de si mesmo, merece que outras pessoas
tenham pena deles. Voc  de fato uma infeliz, coitadinha!
      Ana endireitou o corpo ficando ereta, estava sria, sentiu a ironia do
doutor e respondeu ativa.
      - No sou infeliz! Sou uma moa apresentvel e sei me virar. No quero
que tenha d de mim!
      - Ave! Ainda bem! Vamos analisar o que lhe aconteceu. Seus pais tm o
direito de escolher o que melhor lhes convenha, Voc no acha? Voc 
adulta, sabe o que quer e pode trabalhar para se sustentar. No se amargure
por to pouco.
      - Dr. Bernardo, vim aqui lhe perguntar sobre os fantasmas. Tenho me
visto, ou melhor, sinto que sou eu, no sei explicar. Sou eu em outra poca e
tinha outro corpo. O senhor me entende?
      - Filha, Deus nos criou para sermos felizes. Porm, muitas vezes ns
usamos mal o nosso livre-arbtrio, errando e abusando do dom da vida. Voc
j pepsou, Ana, o que e a eternidade? Na imensa bondade do Criador? Deus,
nosso Pai, no nos condenaria a um Castigo eterno por uma existncia
normal de sessenta anos. Nosso corpo morre, passamos a outro estado, a
outro modo de vida evoltamos a viver num corpo carnal novamente.
      - Todos os fantasmas so. maus?
      - No devemos cham-los de fantasmas, so pessoas como ns, que
vivem por um perodo desencarnados. Pessoas boas desencarnam e
continuam boas, esforando-se sempre para se tornar melhores. Pessoas
ms permanecem mas at que entendam a necessidade de se melhorar.
Almas penadas, fantasmas so desencarnados que vagam normalmente por
lugares que viveram quando encarnados, quase sempre atormentados pelo
remorso ou pelo dio.
      - E como voltamos? - perguntou Ana curiosa. - Como podemos viver em
outro corpo?
- O corpo carnal que nosso esprito usa para estar encarnado  perecvel.
Quando o corpo morre, o esprito sai e fica ento desencarnado por um
perodo no determinado. Querendo progredir, acertar erros, volta para
animar outro corpo ainda no ventre materno e reencarna. Volta com a bno
do esquecimento para melhor aproveitar os ensinamentos com a nova
roupagem. Mas podemos ter alguns relances que nos trazem lembranas
vagas de algum fato, lugares ou pessoas. Do que voc se lembra, filha?
      - Que fui, ou sou, a Vitria.
      - A traidora? - indagou o mdico franzindo a testa e olhando bem para
Ana.
      - Somos at parecidas.
      - Como sabe?
      - Cirilo e eu fomos at o salo de retratos e vimos.
      - Ah! Ento andou fazendo extravagncias com o garoto?
      - Desculpe-me, ele insistiu, no pensei que pudesse lhe fazer mal,
desconhecia sua doena. Depois D. Eleonora mandou que fizesse todas as
suas vontades.
      - No precisa se desculpar. Tudo faz mal a Cirilo, menos o Amor. Aquela
sala est trancada h tanto tempo, nem eu a conheo.
      - Cirilo sabia onde estava a chave, seu pai lhe contou. Fiquei curiosa e fui
com ele. Vi o retrato desta Vitria. Vendo-a senti que era eu. Ao
reencarnarmos somos sempre parecidos fisicamente?
      - No,  raro sermos parecidos fisicamente. O fisico hereditrio,
herdamos semelhanas dos nossos pais biolgicos. Tanto que podemos ser
brancos em uma e negros em outra. As vezes, podemos nos assemelhar ao
corpo que tivemos em uma outra existncia, mas na maior parte das vezes
nada temos fisicamente em comum. Este sentir que voc diz, s vezes nos
leva a ver semelhanas que muitas vezes no temos. Acho que voc est
nervosa pelos muitos acontecimentos. Tome este comprimido e v
descansar. Prometo conversar com voc novamente sobre este assunto.
      Despediram-se. Ana ento lembrou que ficou de ir casa de Michel e,
embora atrasada, foi para l. Como Cirilo no ia ter aulas at recuperar-se
poderia dar aulas a Michel tarde, assim no teria de sair  noite.
Rapidamente dirigiu-se para a garagem, ganhou o ptio. E foi a...
      -Ufa!...
Ana sentiu um sopro no seu pescoo, percebeu que tinha algum atrs dela.
O ar quente fez com que se arrepiasse. Olhou e viu um vulto de capa e
chapu. Com o susto ficou paralisada, quis gritar, mas o som no saiu.
Depois, olhando bem, viu que era Rodolfo quem passou por ela sem nada
dizer e devagar entrou em sua casa. Ana foi se recuperando aos poucos sem
sair do lugar, porque sentia as pernas bambas. Seu corao disparou, batia
com tanta fora que ela ouvia suas batidas no silncio da noite. Pensou em
voltar manso, mas j tinha descido para ver Michel e para a casa dele se
dirigiu. Bateu na porta e Eliane veio atender.
      - Boa noite, Michel est? - perguntou Ana confusa.
      - Ana, que aconteceu? - indagou Michel vindo atrs da irm. - Esperei-a
por tempos. Entre...
      Eliane lhe deu passagem, fechou a porta e ficou em p olhando-a. Ana
entrou, abraou seu amigo e falou rpido:
      - Michel, desculpe-me o atraso, no queria deix-lo esperando. E que
Cirilo no est bem, fui v-lo e fiquei conversando com o Dr. Bernardo. Como
no estou dando aulas para Cirilo, tenho o dia livre e poderei dar aulas para
voc tarde, j que voc estuda de manh.
      - A tarde ajudo meu pai trabalhando na horta, no posso estudar.
      - Pode sim, meu filho - falou Joo do quarto, demonstrando j estar
deitado. - Quero que estude! No far diferena uma hora por dia.
      - Ento, est certo! - falou Michel entusiasmado. -Farei mais rpido o
servio. Poder vir s treze horas, Ana.
      - Sim, combinado.
      - Mas o que lhe aconteceu? Voc chegou to assustada - perguntou
Eliane.
Ana tinha esquecido dela, que continuava em p ao lado da porta olhando-a
de modo estranho, parecia que debochava dela. Ana ento soltou os braos
de Michel que continuavam em volta de sua cintura. Havia permanecido
pertinho de Michel, aquele garoto lhe dava segurana, queria-o bem e sabia
que ele lhe devotava afeio. Era uma amizade carinhosa.
      - E que... - gaguejou Ana-, ao vir para c, vi Rodolfo e levei um susto, ele
estava a andar como se no me visse.
     - Ele d susto em todos e nem precisa ser de noite -falou Eliane.
     - Ora, Eliane - reprovou Michel. - No  nada disso, explico o que
acontece ao Rodolfo para que entenda.
     - Boa noite - interrompeu Eliane. - No tenho regalias de alunos doentes,
tenho que levantar cedo amanh e muito trabalho:
     - Boa noite - respondeu a jovem professora.
     Ana achava Eliane desagradvel e sentia que a moa tambm a achava
antiptica. Ela saiu da sala e Michel continuou a falar.
     - E que Rodolfo  sonmbulo, anda dormindo e s vezes vem aqui
chamar Eliane. Quando voc bateu na porta, pensamos que era ele.
     "Vem aqui atrs dela" - pensou Ana. Sentia raiva por ele a preferir. - "No
devo am-lo, acho que estou confundindo, o que sinto por ele  medo ou
atrao. No  possvel ser amor."
     - Michel, j vou indo.
     - Levo voc at a garagem.
     Ana concordou. Ao sair observou tudo e no viu nenhum vulto por ali,
suspirou aliviada. Na garagem despediu-se de Michel e foi rpido para seu
quarto.
     Preparou-se para dormir e tomou o remdio que Dr. Bernardo lhe dera.
J ia deitar quando ouviu um sussurro, rapidamente deitou-se e ouviu a voz
de uma mulher, sem entretanto ver nada. A luz do quarto ainda estava acesa.
Desta vez, entendeu bem o que a voz fantasmagrica lhe dizia:
     - Voc  culpada! Fez do meu filho um assassino. Em vez de senhor 
um simples empregado. Voc pagar, maldita!
     Ana nada mais ouviu. Desmaiou de susto e medo. Dormiu at tarde no
outro dia. Snia veio despert-la. Ento,
lembrou de tudo, do remdio que tomou, da voz que escutou, as palavras
ouvidas ficaram a lhe martelar. Teve vontade de conversar com Dr. Bernardo
e contar a ele o que acontecera. Levantou com dor de cabea e indisposta.
Arrumou-se e foi ao quarto de Cirilo, queria encontrar o mdico para ser
elucidada.
     Mas o mdico no estava no quarto do menino e sim D. Eleonora. Cirilo
estava bem melhor, no estava febril e nem to ofegante. Sorriu para ela.
     - Bom dia, Ana - respondeu o garoto ao seu cumprimento. - Que bom que
voc tenha vindo me ver. No vamos ter aula hoje, ainda estou cansado.
     - E nem amanh ou depois - falou D. Eleonora sendo mais simptica. -
S quando Cirilo quiser que as ter novamente.
     Ana ficou ali mais um pouco, depois despediu-se. Foi para os aposentos
do velho mdico, bateu de leve na porta do quarto dele. Necessitou bater trs
vezes para ser atendida.
     - Bom dia! - saudou o mdico. - O que a traz aqui to cedo, Ana?
     - Bom dia. - Rapidamente entrou no quarto sem ser convidada e fechou a
porta. - Doutor, necessito de seus cuidados. Ontem tomei o remdio e entendi
a voz.
     - Como ? - indagou o facultativo sem entender o que a moa dissera.
     Ana ento explicou tudo. Estava nervosa e torcia as mos. Quando
terminou, Dr. Bernardo lhe ofereceu gua. O olhar bondoso do mdico a
acalmou.
     - Ana, lhe dei somente um suave calmante que no podia causar danos.
Mas, para que eu a ajude, conte-me tudo sem esconder nada.
     Ana sentiu vergonha, mas entendeu que, se queria ser ajudada, teria que
ser sincera. E, sem esconder nada, contou tudo ao velho mdico, a
passagem secreta, a descida s prises com Cirilo e a causa da recada dele,
as recordaes da
gruta, seu carinho por Michel, a atrao e o medo por Rodolfo, e a antipatia
por Eliane. Quando acabou, sentiu-se mais leve. Aps uns instantes em
silncio, finalizou:
     - Nunca tive isto doutor, juro. No h ningum louco na minha famlia.
     - Ora, no estou achando voc louca. Entendo o que lhe acontece e
posso explicar.
     - Entende?! - suspirou a jovem aliviada.
     - Minha filha, temos na religio Esprita a explicao para estes
fenmenos. Podemos entender, sem tachar pessoas como voc de loucas.
Acalme-se menina. Tudo tem explicaes. Somos eternos, no este corpo
que nasce e morre, mas sim nossa alma, nosso esprito. Saimos do corpo
como entramos, sem levar nada de material. Desencarnados continuamos
com nossos vcios e defeitos ou com qualidades e virtudes. Sendo que ao
termos o corpo morto, ou seja, desencarnado, ainda usamos outro envoltrio
que se chama perisprito, que  ainda uma matria, s que mais sutil, idntico
ao corpo fisico que se teve. Por isso muitas pessoas que desencarnam e no
tm conhecimento podem achar que ainda esto encarnadas. Pessoas boas
que desencarnam so levadas para lugares bons e agradveis. Ficam
desencarnados por um perodo necessrio e depois voltam a nascer,
reencarnar, em outro corpo. Pessoas ms e aqueles considerados mortos,
que no fizeram mal mas tambm no fizeram bem, vagam tambm por
determinado perodo, seja em lugares feios e tristes, ou em seus antigos
lares. Todos reencarnam, e pela bondade de Deus temos sempre a
oportunidade de progredir. Aqui encarnados temos que lutar para vencer
nossos vcios e tudo fazer para aprender no Bem. Muitos espritos, neste
perodo de desencarne, podem ficar vagando e assombrar encarnados, se
estes tiverem a sensibilidade para v-los. No Espiritismo, chamamos pessoas
assim de mdiuns. Voltando a reencarnar, podem algumas pessoas ter
lembranas de suas existncias passadas.
     - E bem complicado - disse Ana, que prestava muita
ateno s explicaes do mdico. - O Sr. acha que sou uma reencarnante?
     - Somos todos - corrigiu Dr. Bernardo rindo. - Muitas existncias j
tivemos. Assim, Ana, voc pode ter tido uma existncia em que viveu aqui, na
manso. Ou pode ser que algum desencarnado esteja agindo sobre voc
para fazla desvendar alguns mistrios, como o da passagem secreta e do
crime do Andr. Voc pode no ter sentido nada disto antes, mas aqui, onde
o passado est marcado nestas construes antigas,  possvel que tudo isto
possa ter influenciado a sua sensibilidade.
     Pensativo, o mdico calou. Ana pensou que o estava incomodando, tinha
ele de cuidar do garoto enfermo.
     - Obrigada, doutor, acho que j vou.
     - No fique nervosa, estarei aqui na manso por uns tempos para cuidar
de Cirilo. Teremos tempo para conversar e irei explicando tudo devagar.
Gostaria de ser seu amigo. Mas, por favor, no v mais a nenhum lugar
secreto, pode ser perigoso. No volte ao labirinto. E tudo que se passar com
voc me conte. Como  mesmo que se abre a passagem?
     Repetiu e o mdico memorizou.
     - No v l sozinho, Dr. Bernardo, se a passagem fechar  morte na
certa.
     - No pensou nisto, quando foi l com o garoto.
     Ana ficou vermelha e ele falou rindo.
     - No, no irei, no gosto de prises, mas os restos mortais que l esto
necessitam de um tmulo.
     - Se o senhor contar a D. Eleonora, ela me despedir.
     - Vou contar a ela, mas no agora. No se preocupe, ela no a
despedir. Se o esqueleto est l h tempo, no far diferena um pouco
mais.
     Depois de ter agradecido e se despedido, Ana desceu para o jardim, no
lhe agradava a idia de ficar no seu quarto. Olhou os canteiros floridos,
gostava de flores, elas lhe davam uma sensao de tranqilidade e
simplicidade. Olhou
a torre. Ser que a bandeira branca havia aparecido mesmo? Segundo
diziam, ela apareceria quando os envolvidos no drama antigo de dio, traio
e crime, estivessem ali novamente. Poderiam estar todos ali reencarnados.
Seria ela a Vitria? Rodolfo, o Andr? Michel, o Luiz? Michel no parecia em
nada com Luiz, mas ela sentia ao ver o retrato de Luiz que ele seria agora
outra pessoa, seria Michel? E Eliane, estaria ela tambm ligada ao passado?
Seria ela a esposa traida e assassinada? Rodolfo gostava de Eliane, ela o
desprezava e ele tambm no gostava dela. Dr. Bernardo estaria certo nas
suas teorias? A Lei da Reencarnaco existia mesmo? O que ouviu do velho
mdico tinha coerncia. Era algo que, se raciocinasse, entenderia tantas
coisas ditas como incompreendidas e injustas. E Deus  justo. E a voz que
escutou, seria de Alice, a me de Andr? Ela a acusava de ter tornado infeliz
a vida do filho e por ter agora reencarnado feio, deformado e como simples
empregado. Achava que a culpa era dela e queria vingar-se, amedrontando-a.
      Enquanto pensava foi andando. Quando viu estava na passagem da
garagem, atravessou o ptio e parou em frente  estrebaria. Sentiu vontade
de ver Rodolfo, entrou e o viu preparando comida para os animais.
      - Bom dia, Rodolfo - Ana sorriu tentando ser agradvel. - Como est
voc?
      - Bom dia. Estou bem, obrigado. Voc sabe como est passando Cirilo?
Preocupo-me com ele,  um menino triste e educado, gostaria de ajud-lo.
Ele  uma criana s e est sempre doente.
      Ana pensou, Rodolfo gosta de Cirilo e no sabe explicar o porqu. No
seria porque Cirilo fora Artur? E outrora como Andr ele admirava este seu
antepassado? Estariam todos ligados a um passado? Ou talvez simplesmente
Rodolfo estivesse preocupado com Cirilo, que realmente era educado, e seu
jeito franzino e doente despertava piedade. Acabou falando.
      - Visit-lo?
      - Por que no pede a Snia para perguntar ao garoto se ele no quer
v-lo? Poder lhe falar sobre os cavalos que ele gosta tanto.
      - Vou fazer isto. Mas o que faz aqui?
      - Estava andando  toa e passei para v-lo.
      - Voc est errada, Ana, voc no me interessa.
      - No precisa ser to grosseiro. Voc ama Eliane?
      - No. No amo Eliane, gosto dela como de todos aqui. Ela  jovem, bela
e sinto necessidade de proteg-la, de faz-la feliz. Quero que ela case com
este seu namorado e que ningum atrapalhe sua felicidade. Gosto muito
tambm de Michel, ele  como se fosse meu filho. Daria minha vida por ele.
Voc me assusta, Ana,  da cidade grande e deve estar brincando comigo.
Tenho espelho sabia?
      Rodolfo falou calmo e resignado, olhou-a bem e continuou:
      - Voc  linda, d impresso que prejudica todos os homens  sua volta.
Olho para voc e sinto atrao e raiva. Algo me diz que me trair e que no
devo confiar em voc. Desculpe-me, mas peo-lhe para no me procurar
mais. Aqui estava resignado e contente com meu trabalho, vem voc a me
perturbar, no  justo. Logo parte e...
      - Se voc me quiser, fico, eu...
      - No fale besteira. Como ficaria? Morando na minha casinha? Dando
aulas na vila? Seremos a bela e a fera. Por favor, Ana, no brinque comigo.
      - Voc me beijou, eu gosto de voc. No me importaria, no me importo
de voc ser assim, eu...
      Novamente Rodolfo a interrompeu.
      - Eu no quero! Eu no a quero! Entendeu? Sinto s vezes raiva de
voc, como se voc fosse a culpada de tudo.
      - E se fosse, voc me perdoaria?
      - Culpada? De qu? Tudo o que aconteceu, voc nem aqui estava - falou
Rodolfo com calma.
      - No acha que tudo isto deve ser consequncia do
passado? Dos nossos erros?
      - Esteve conversando com Dr. Bernardo? Bobagem, j conversamos
sobre isto. Ele me deu at livros para ler. No acredito. Mas no tenho nada
contra se for verdade. E, se for, devo ter grandes dbitos a resgatar. Ana,
sempre fui sozinho, enjeitado, defeituoso e feio. Fico pensando, se D.
Eleonora vender isto aqui, no terei nem para onde ir. Quem me dar
emprego? S se for num circo.
      - Num circo? - indagou Ana triste.
      - Sim, como palhao. Ser interessante passar susto nas pessoas e
muitas gostam de ver monstros.
      - No fale assim - pediu a moa.
      Ana compreendeu que Rodolfo sofria muito e no queria faz-lo sofrer
mais ainda. Passou a mo na sua cicatriz, no o achava mais feio. Michel
tinha razo, Rodolfo era bonito.
      - Beije-me - pediu Ana baixinho.
      Rodolfo a beijou, mas logo em seguida a empurrou.
      - No! Voc  uma traidora. Sinto que  e ser sempre uma traidora.
Deixe-me, por favor!
      Ana saiu da estrebaria muito amargurada, com as mos enxugou as
lgrimas que teimosamente escorriam pelo rosto. Como se fosse atraida,
olhou para cima. No vidro da janela de um dos quartos da ala simples, a que
estava hospedada, um vulto de mulher com um vestido verde a olhava com
rancor. Firmou a vista e no viu mais. Saiu correndo pela garagem com a
inteno de ir para seu quarto.
Mas, em vez de entrar no seu aposento, foi para o quarto onde tinha visto o
vulto na janela. Sentiu o corao bater forte, estava sob um forte abalo
emocional, sentia calor e tremia. Forou a porta para abri-la, estava trancada,
olhou para a parede e dependurada num prego estava a chave; pegou-a e
abriu a porta. Entrou, era um quarto simples que servia de despejo. D.
Eleonora devia guardar ali pertences antigos. Num canto do quarto, estava
um ba aberto e um vestido verde por cima. Reconheceu com muito medo
que era a roupa que vestia a mulher que havia visto momentos antes. No
cho, ao lado do ba, um leque aberto com cabo de madreprola, preto, uma
bonita pea de arte. No quarto tambm havia um mvel com muitas gavetas.
Vrias delas estavam abertas e parecia que tinham seus pertences revirados.
      Ana olhava tudo apavorada, estava com medo at de se mexer, e se
arrependeu de ter entrado ali. Foi ento que sentiu que algum se aproximava
dela e falou. No escutou com o sentido fisico, parecia que lhe falava de
mente para mente.(1)
      - Ana Elizabeth, outrora Vitria, eu a odeio! Se os outros a perdoarem, eu
no. Aqui estive aguardando-a. Teriam de reunir-se todos aqui! Artur, o
sanguinrio, aproveitador, enriqueceu atravs de sangue inocente, hoje 
herdeiro. Ah, ah, ah! Herdeiro corroido pela lepra. Eliane, a primeira esposa
do meu Andr, aquela que voc traiu no leito de morte, despreza hoje meu
filho por sua causa. Meu neto Luiz, pobre garoto! Voc o seduziu, fez trair o
pai que adorava, tudo culpa sua. Hoje ele  filho do jardineiro, e por qu? Por
sua culpa! Rodolfo, meu Rodolfo, meu filho querido Andr, bom e nobre, que
fez dele? Traiu, foi infiel, obrigando-o a matla. Era a nica coisa que ele
poderia ter feito, um marido traido. Tirou voc da pobreza, era uma
empregadinha. Agora, quem  Andr? Herdeiro disto tudo l na cocheira e
ainda deformado. Voc voltou para receber seu castigo. Dr. Bernardo, a
antiga feiticeira, no poder ajud-la. Foi ela mesma quem disse que se
reuniriam todos aqui para serem castigados. Ele no ir auxili-la, no poder
ajud-la. Porque eu estou aqui, esperei anos e no deixarei voc se
aproximar do meu Andr, hoje Rodolfo. No e no! Traidora! Vitria traidora!
     Ana no se mexia, o medo era tanto que no teve foras para nada, nem
para se defender das acusaes. Quando viu o vulto se afastando, pde
ento se mover, saiu correndo daquele quarto e foi para o seu.


     IX- DR. Bernado

      Ana, apavorada, entrou no seu quarto, encolheu-se toda numa cadeira,
tremia e tinha a boca seca. S aos poucos foi se acalmando, olhou o relgio,
faltava pouco para o horrio do almoo. Pensou em no ir, mas no se
alimentar no resolveria nada. Depois, tinha que ir  casa de Michel como
prometera. Orou, repetiu oraes mecanicamente, porm, mais calma
conseguiu orar como se falasse com Deus. A orao que saiu do corao fora
feita com sentimentos e isto a acalmou.
      Pensou, fantasmas eram pessoas desencarnadas que vagavam. Ela viu
o espirito de Alice, me de Andr. Meu Deus! Ser que estavam todos ali
reunidos, os que viveram aquele terrvel drama do passado? Estariam l para
serem castigados ou para se reconciliar? E a mais rancorosa era, sem
dvida, Alice. Ser que este esprito no a perdoaria?
      Levantou-se da cadeira, ajeitou-se e desceu para o almoo. Elizete
estava atrasada. Foi Snia que veio lhe servir. Alegre, explicou logo.
      - Dra. Janice veio tratar de negcios com D. Eleonora. Esto
conversando e logo viro almoar.
      - Ela ficar muito tempo aqui?
      - No. Ela me disse que ir embora amanh cedo. Dever ficar a tarde
toda com D. Eleonora.
Ana agradeceu e pensou que Dr. Bernardo estaria livre para conversar com
ela. Desde que orou sentiu uma enorme vontade de falar com ele e pedir
ajuda. Se Alice dissera que fora ele no passado quem predissera este
reencontro, talvez fosse porque ele saberia conduzir os acontecimentos no
presente. A jovem professora sentia que ele era uma pessoa boa e que
receberia ajuda e orientao dele.
      O almoo foi servido e Ana esforou-se para comer; no queria ficar
doente, j notava que, pelas suas roupas, emagrecera. Escutou vozes no
salo de refeies, eram D. Eleonora, Dra. Janice e Dr. Bernardo,
conversando animados, comentando assuntos de acontecimentos atuais.
      Ana acabou de comer, saiu, foi para a casa de Michel, e com boa
vontade lhe deu a aula. Acabando, recusou o convite do menino para ir 
horta, ela preferiu procurar o Dr. Bernardo. Bateu na porta do quarto dele,
mas ningum respondeu. Ento foi ao quarto de Cirilo, que sorriu ao v-la.
      - Ana, entre, sinto por interromper as aulas, mas estou muito cansado.
Quero aprender para ir me tratar no hospital da Europa.
      - Dr. Bernardo est aqui?
      - Ele foi at a biblioteca pegar um livro e j volta. Dr. Bernardo  timo.
Ele me trata muito bem, com carinho, mas tem umas idias estranhas. Voc
acredita em sonhos? Sim - continuou Cirilo aps a confirmao de cabea de
Ana.
- Esta noite sonhei com minha me. Nos abraamos e beijamos, depois ela
me disse: "Cirilo, meu filho, no se chateie com seu pai, no vale a pena, Dr.
Bernardo e sua tia muito lhe querem. Eu o amo, estarei ao seu lado
confortando-o. Logo estar morando comigo. Ore sempre. E que Deus o
abenoe com todo meu amor." Desprendeu-se dos meus braos e foi se
afastando. Acordei alegre, parecia que realmente eu a tinha visto. Mas
"encuquei" com o que ela me disse: que logo ia morar com ela. Contei o
sonho para o Dr. Bernardo e ele me disse que provavelmente eu tinha
encontrado com o esprito de minha me. Forcei-o a me contar o que ela tinha
querido dizer ao falar que logo moraramos juntos. Ele respondeu que eu no
tinha entendido direito, que ela talvez quisesse dizer que gostaria de estar
morando comigo. Mas acho, Ana, que devo estar com alguma doena grave e
que devo morrer, ou, como ele diz, desencarnar logo. No acho ruim esta
idia, ainda mais se for para ficar junto de minha
me. Voc tem medo de morrer?
      Cirilo se emocionou ao narrar o sonho e Ana o olhou com carinho,
respondendo laconicamente:
      -No.
      -Nem eu.
      Aps uma leve batida na porta, Dr. Bernardo entrou no quarto.
      - Os dois esto conversando animados, espero que no planejem novas
extravagncias - comentou Dr. Bernardo, rindo.
      - Ciro - disse Ana -, sinto muito, acho que teve esta crise pelo nosso
abuso.
      - Contou tudo ao doutor, hem? - protestou o menino.
- Era segredo nosso, mas no faz mal. No deve se culpar, tenho muito
destas crises e ultimamente tenho piorado. Mas voltaremos l. Quando eu
ficar bom, iremos os trs.
      - Guardo o segredo de vocs e aceito ir junto. Cirilo, me prometa no ir
sozinho, pode ser perigoso - sugeriu o velho mdico.
      - Se guardar segredo, prometo. Mas agora, por favor, me deixem dormir.
O remdio que tomei h pouco me d sono. Boa tarde!
      Ana ficou olhando Dr. Bernardo ajeitar Cirilo no leito. O facultativo deveria
ter quase setenta anos, tinha quase todos os cabelos brancos, olhos azuis e
usava culos de aro dourado e barba feita, tinha o rosto redondo e sorriso
bondoso. Tinha estatura mdia e alguns quilos lhe sobravam, porm no era
gordo. Ana o achava extremamente simptico como todos que o conheciam.
      Dr. Bernardo e Ana saram do quarto, caminharam em silncio. Na frente
do quarto do mdico, ela sussurrou:
      - Quero lhe falar.
      - No necessita falar to baixo. Eleonora e Dra. Janice esto l embaixo
no escritrio conversando sobre dinheiro, certamente ficaro at tarde da
noite. Entre no meu quarto, Ana.
      - Dr. Bernardo - comentou a moa, logo que se sentou no sof ao lado
dele -, hoje eu vi a me do Andr, a sra. Alice.
      - Acalme-se, Ana, conte-me tudo.
      Ela contou todos os acontecimentos, o mdico a ouviu atento.
      - Acredito que tenha visto e ouvido Alice. Vou tentar explicar o que est
lhe acontecendo. As vises que teve, desde que aqui chegou, podem ter sido
por psicometria. Voc com sua sensibilidade leu os acontecimentos que
ficaram gravados nesta manso. Ou foram recordaes de pedaos de sua
outra existncia. A viso que teve no salo de baile foi to forte que a fez
desmaiar. Aconselho-a a no ir mais em lugar qualquer diferente nesta casa.
      - Dr. Bernardo, mas e Paula, a filha de D. Eleonora? Contaram-me que
Alice aparecia para ela e a acusava por no t-la deixado nascer. Ser que
ela ia ser filha de Paula e quando esta abortou passou a acus-la?
      - Como se fala nesta casa! Pensei que ningum sabia deste fato. Sim,
Ana,  isto. Como sabe, nosso esprito reencarna vrias vezes. Alice ia
reencarnar, aproximou-se do embrio que Paula esperava, como esta
abortou, Alice inconformada passou a persegui-la.
      - Com todos que abortam acontece isto? - indagou Ana, assustada.
      - Provocar aborto pode ser um drama violento, tanto ao organismo, como
para a mente. Espiritualmente  um erro grave que pode trazer
conseqncias de sofrimentos. Quem o faz, deve pedir perdo a Deus e ao
esprito que impediu de nascer e ter um propsito firme de no faz-lo mais.
Mas no deve se martirizar pelo remorso, e sim reparar no Bem o erro
cometido. Porque todos ns j erramos, o importante  depois de termos
conhecimento do erro (neste caso, provocar aborto) no repeti-lo. O que
aconteceu com Paula pode acontecer com muitas pessoas; no caso, ela via e
ouvia, em outros casos o desencarnado age sem que o encarnado veja ou
oua, mas sofre sua influncia. Se o esprito que ia reencarnar tem
compreenso ao ser abortado, ele se afasta e tenta reencarnar em outro
novamente. Mas, se o reencarnante for um esprito sem entendimento, ele
pode perseguir a mulher, ou o casal por t-lo impedido de nascer. Temos
visto dolorosas obsesses por este motivo. Alice perseguiu Paula por tla
impedido de reencarnar.
      - Ela ainda persegue Paula?
      - No, depois que Paula foi para o convento Alice desistiu. Agora, Paula,
fazendo o Bem, progride espiritualmente e saiu da faixa de vibrao em que
Alice podia obsedi-la.
      - Dr. Bernardo, ningum sabe quem era o pai do filho de Paula. Mas eu
acho que sei. Cirilo me disse que seu pai lhe contou que a namorou. O pai do
filho de Paula era o Sr. Raimundo. O senhor sabia disto?
      - Quando Eleonora me chamou para cuidar de Paula, ela j tinha feito o
aborto. Ela passou muito mal, delirou e... voc est certa, era Raimundo o pai
do filho dela. Mas, por favor, no fale a ningum, j passou tanto tempo e
Paula j sofreu muito, nem Eleonora sabe disto. Namorou escondido o primo
e quando ficou grvida Raimundo no quis assumir e viajou. Ela ficou
desesperada e abortou. Quando se recuperou fisicamente, o esprito de Alice
passou a persegui-la acusando-a de no t-la deixado reencarnar. Paula no
entendia nada de reencarnao e achava impossvel ter privado a algum de
nascer. Pois Alice j havia nascido e morrido, quando Paula nasceu. Quando
Raimundo casou, Paula, desiludida, achou que s no convento orando e
fazendo o bem iria ser perdoada pelo seu crime. Ela  uma boa irm de
caridade. Aprendeu a conviver com sua mediunidade e no fala a ningum o
que v e ouve. Mas muitos empregados da manso naquela poca viram
Paula falar com Alice ou com um fantasma e, como eles no viam ou ouviam,
achavam que Paula era louca.
- Ela sofreu muito - disse Ana. - No falarei a ningum sobre este assunto, Dr.
Bernardo, mas por que eu vi Alice?
      - Voc  mdium. Aqui nesta casa, os espritos podem dispor da
mediunidade de Eleonora. Ela nunca quis trabalhar com sua mediunidade. E
os desencarnados usam os fluidos de Eleonora para conseguir ser ouvidos e
assustar algumas pessoas.
      - E o que me diz de Alice ter falado que o senhor tambm esteve
reencarnado aqui e que predisse que amos nos reunir novamente?
      - Sempre achei que tinha algum lao com esta casa. Recordei alguns
fatos do meu passado. Sei que j tive conhecimentos do ocultismo.
Gertrudes, a feiticeira do passado, era somente uma sensitiva, estudiosa do
ocultismo e por isso ganhou este apelido "feiticeira". Se Alice lhe disse que fui
ela, vou pesquisar mais sobre sua vida e talvez recorde. Se no passado eu
disse, ou Gertrudes disse, que nos reencontraramos todos aqui, talvez foi
porque sabia que necessitaramos todos de nos entender para progredir. No
 por acaso que, certamente, estou aqui.
     - Dr. Bernardo, me ajude. Se errei no passado, no quero errar mais.
Depois, tenho medo, Alice quer me castigar. No  justo. O passado passou e
agora nada fiz de errado.
     - O passado passou e no podemos mud-lo. Tudo que fazemos  de
nossa responsabilidade. Voc agora pode lhe pedir perdo, orar e enviar a
Alice pensamentos bons e de carinho. Vou ajud-la, aqui estou para ajudar a
todos.
     - O senhor  to bom. J sofreu na vida?
     - Sim, quem no passou por momentos dificeis? Fiquei rfo de pai com
dois anos e minha me fez muito sacrificio para nos criar, eu e meus outros
dois irmos. Estava com oito anos quando ela se casou novamente. Meu
padastro era antiptico e muito ordeiro, mas nos deu estudo. Meu irmo mais
velho desencarnou na adolescncia. Erica, minha irm, ficou solteira e mora
comigo. Casei logo aps ter-me formado, enviuvei dez anos depois. Meus
filhos estudaram e
nenhum quis residir por aqui por achar a cidade pequena. Amo muito minha
profisso e, mesmo aposentado, trabalho. Mas, sempre fui considerado um
menino problema, via e falava com meu pai e com parentes desencarnados.
Olhava as pessoas e dizia se via algum desencarnado com elas, s vezes,
previa o futuro. Minha me chateava-se com estes fatos e era castigado por
ela ou pelo meu padastro. Uma tia me convenceu de no falar mais para os
outros o que via ou sentia para no assust-los. Mas, para mim, estes fatos
eram simples e no entendia o porqu de serem problemas. Ento aprendi a
calar e isto resolveu em parte meus problemas. Quando fui estudar Medicina
numa cidade maior, comentei estes fatos com a dona da penso em que
morava e ela me recomendou que fosse a um Centro Esprita. Querendo
realmente me ajudar ela me levou at l. Como gostei! Amei desde a primeira
vez as reunies da Casa Esprita, maravilhei-me com a Doutrina e com os
ensinamentos de Allan Kardec. Passei a fazer parte do grupo. Conhecer o
Espiritismo foi a melhor coisa que aconteceu comigo. Compreendi que tudo
que via e sentia tinha explicao e que eu era mdium. Comecei desde ento
a usar este dom para fazer o Bem. Formei-me, vim para c, onde organizei
um grupo de estudo e trabalho Esprita; reunimo-nos todas as teras-feiras e
aos sbados.
     - D. Eleonora mesmo sendo mdium no se interessou em ir nestas
reunies?
      -No, conversamos s vezes sobre este assunto. Ela j viu muitos
desencarnados e os escuta com frequncia, mas no se interessou em
estudar ou ser til com sua mediunidade. Gosto de comparar a mediunidade
com um talento que o Pai nos d e a usamos conforme queremos, porque
nosso livrearbtrio  respeitado. Muitos, ao receberem este dom, reencarnam
e multiplicam este talento no trabalho do Bem e muito aprendem. Outros,
como Eleonora, enterram seu talento, deixando-o enferrujar por falta de uso e
tero de prestar contas disto. No trabalhando para o Bem, prejudicam muito
a si mesmos. Outros, infelizmente, usam o seu dom para o mal,
prejudicando o prximo e muito mais a si mesmos. A mediunidade  um dom
pelo qual devemos dar graas, ser agradecidos por termos esta oportunidade
e, por ela, aprender e reparar erros. Se aqui vivi como Gertrudes, tive
mediunidade, no devo t-la usado muito para o Bem. Sabe, Ana, pensando
bem, devo ter sido realmente Gertrudes. Esta manso sempre me atraiu.
Lembro com emoo quando aqui estive pela primeira vez para atender a
me de Eleonora, eu...
     A cortina da janela mexeu como tocada pelo vento. Ana e Dr. Bernardo
olharam-se assustados e o vulto de Alice apareceu. Os dois a viram. Ana
ficou sem fala, branca e imvel. Dr. Bernardo olhou o vulto, sentiu quem era e
gentilmente falou.
      - Alice, seja bem-vinda, quer conversar conosco?
      Alice falou, s que Dr. Bernardo no conseguia escutla ou entend-la.
Viu que ela mexia os lbios querendo comunicar-se com ele. Alice, ento,
aproximou-se de Ana, fixou sua mente na dela. E comeou o intercmbio, ou
seja, uma incorporao. Por fios de transmisso da mente da desencarnada 
mente da encarnada, Ana comeou a transmitir pela fala o pensamento de
Alice.
      - Boa tarde, Gertrudes - disse Alice, pelo aparelho medinico de Ana. -
Escutava vocs dois conversando, falaram muito de mim. Dr. Bernardo, como
se sente agora nesta miservel veste de um charlato pobre e aprendiz de
medicina.
      - Bem, muito bem, tenho aprendido muito nesta encarnao com a
oportunidade que me foi dada. Se como Gertrudes conhecia as leis
sobrenaturais, como Dr. Bernardo uso-as para o Bem. E voc, Alice, como se
sente a perseguir e a se negar a perdoar?
      - Mal, muito mal e por isso com mais dio.
      - Voc est aqui h muitos anos na ociosidade, poderia ter aproveitado
melhor seu tempo.
      - Ociosidade? Desde quando uma pessoa rica vive na ociosidade?
Trabalho  para serviais.
      - Que vale agora a riqueza que desfrutou? - indagou Dr. Bernardo com
tranquilidade. - Agora  rica de bens materiais? Que possui?
      - E isto que mais me revolta. Sei que posso reencarnar e ser uma
empregadinha.
      - Uma pessoa assalariada  mais feliz que voc. O trabalho faz com que
cresamos. Devemos ter orgulho em trabalhar. Voc sem trabalho foi feliz? E
feliz?
      - No, sabe que no - continuou Alice falando por intermdio de Ana. -
Voc  danada, Gertrudes! Se antes j sabia muito, agora se aperfeioou.
Quis conversar com voc para lembr-la. Sabe que sofri muito com as
tragdias que aconteceram com o meu filho Andr. Voc sabia quem era o
inimigo que meu Andr procurava e no falou nada. Era o prprio filho, meu
neto Luiz. Agradeo-lhe por isto, evitou mais uma morte com seu silncio.
Todos sofremos muito. Vi, desde ento, meu filho triste e amargurado.
Tornou-se um assassino por amor a esta Vitria. Voc predisse que tudo
indicava que no futuro nos reuniriamos todos aqui. Passado de boca em
boca, algum inventou que apareceria na torre a bandeira branca. Agora, com
todos aqui, eu coloquei a bandeira no mastro. Deve comear o julgamento.
Devemos castigar a culpada. Eu a condeno e tenho um plano...
      - Alice, quando levaram a mulher adltera a Jesus, Ele no a condenou.
Se Ele no ajulgou, no devemos ns julgla - disse o velho mdico
gentilmente.
      - Doutor de uma figa! Est do lado dela? Esqueceu do meu sofrimento?
Gertrudes, voc disse que nos reuniriamos...
      - Todos ns devemos nos reconciliar com o nosso prximo. Reunimo-nos
todos aqui,  verdade, mas no para castigos, e sim para nos reconciliarmos.
Quem no errou, Alice? Todos ns, minha amiga, j erramos. E todos
perdoamos uns aos outros, menos voc. Andr perdoou, reencarnou como
empregado onde foi senhor, para aprender a ser humilde. Michel  filho de um
dos trabalhadores da propriedade, devota sincera amizade a Rodolfo, os dois
so amigos. Eliane,
outrora orgulhosa e arrogante, foi assassinada e perdoou, agora no quer
Rodolfo para marido, mas no o odeia. E voc, Alice, sabe que Rodolfo no a
ama e nunca a amou, ele quer reparar o erro que cometeu com ela, por isto a
protege. Rodolfo, outrora Andr, seu filho, assassinou duas esposas. Lembre,
Alice, que ele tambm assassinou Vitria e esta o perdoou e agora lhe quer
bem. Voc quer castigar Ana e no percebeu que a vida dela no  fcil. Ela
faria Rodolfo feliz, se este a quisesse. Vitria desencarnou assassinada,
sofreu muito, perdoou, pediu perdo e no parou no tempo. Reencarnou e
luta para progredir. Aqui est para reconciliar e no para ser castigada.
      Enquanto Dr. Bernardo elucidava Alice, dois companheiros
desencarnados envolveram-na limpando-a dos seus fluidos deletrios e
transmitiram energias benficas. Ela sentiu-se bem e comeou a ter sono.
      - Que est fazendo comigo, seu velho bruxo? Est me curando? Tenho
sempre muitas dores e no durmo h muito tempo. Agora estou com sono.
      - Alice - aconselhou Dr. Bernardo, com muito amor -, largue tudo aqui,
nada  seu e no lhe cabe castigar ningum. Reunimo-nos aqui no foi nem
pela sua vontade ou pela minha, mas de Deus. Pela necessidade que cada
um de ns sentiu de se reconciliar e ter Paz. Deixe que os encarnados se
entendam. O menino Cirilo no est bem.
      - O Artur de outrora, orgulhoso e mau, agora frgil e leproso. Voc est
aqui, mas no  para reconciliar, voc no teve desavenas, est ajudando
de fato. Observo Cirilo e tenho medo. Quem virei a ser quando reencarnar?
No fui melhor que Artur, fui orgulhosa e m.
- Alice - continuou Dr. Bernardo, a elucid-la -, no reencarnamos s para
sofrer, mas para progredir. Se conseguir ajudar voc, que outrora fez parte da
minha famlia consangunea, me alegrarei, porque amo todos como meus
irmos, filhos do mesmo Pai. Voc no deve se preocupar em resgatar erros
pelo sofrimento, poder repar-los no trabalho do Bem. Recomece perdoando
e pedindo perdo. Perdoar faz bem a ns mesmos.
      - Se todos tiverem de ser castigados, Ana colher o que plantou - disse
Alice pela voz de Ana. - Num ponto voc tem razo, no  preciso castigar
ningum, nossa conscincia  nosso maior carrasco.
      - Colhemos, sim, do que plantamos, mas, novamente lhe digo, no
precisamos s sofrer para resgatar nossos erros. Podemos, pelo trabalho no
Bem, modificar o plantio.
      - H tempo, Bernardo, que no me sinto assim, sinto-me bem. Voc me
trata bem, acredito em voc, devo deixa-los e cuidar de mim. Eles que se
virem!
      - Alice, voc v estes dois espritos ao seu lado?
      - Onde?! So maus? No quero!
      - Estes so bons, so meus amigos e companheiros. Querem ajud-la.
      - Agora estou vendo. So diferentes, so bonitos.
      -Eles v lev-la para um lugar onde deveria ter ido h muito tempo. E um
Posto de Auxlio no Plano Espiritual onde ser tratada e aprender muitas
coisas. Mas antes perdoe Alice, para ser perdoada.
      - S a Deus peo perdo.
      - Pois o faa e perdoe - pediu Dr. Bernardo.
      - So simpticos estes seus amigos. Deixo tudo, no est sendo fcil ver
meu Andr sofrer assim. Que Deus me perdoe e perdo esta Ana, perdo
Vitria.
      Alice dormiu e os amigos socorristas a levaram. Dr. Bernardo deu um
passe em Ana que despertou confusa.
      - Que aconteceu? Parecia falar, falei sem querer. Foi esquisito, tudo me
parece to confuso. Ns vimos Alice. Agora aonde ela foi?
      - Alegre-se, Ana, reconciliou-se com seu prximo. Agradeamos a Deus.
Alice partiu e no a ver mais. Voc como mdium serviu de intrprete e
conversei com ela orientando-a. Vamos orar.
      Dr. Bernardo abaixou os olhos e com voz harmoniosa
recitou a Prece de Critas.
      - Deus nosso pai...
      Ana escutou emocionada. No teve mais medo. Afinal havia se
reconciliado com Alice, isto lhe fez muito bem. Quando nos entendemos com
nosso prximo, sentimos uma alegria pura. Queria que Alice fosse feliz.
Sentiu sono e quis dormir.
      - V, filha - disse carinhosamente Dr. Bernardo - v descansar.
      Ana agradeceu, sentiu-se grata para com aquele velho e bondoso
mdico. Foi para seu quarto, deitou-se e dormiu serenamente.
      Dr. Bernardo agradeceu aos seus amigos desencarnados, eram
companheiros de trabalho que gentilmente vieram atender ao seu pedido logo
que viu Alice. Os dois amigos sorriram. "Companheiros no agradecem -
disse um deles - pelo trabalho comum progredimos e aprendemos juntos.
Ficando a ss, Dr. Bernardo ps-se a pensar. Ele amava Eleonora h muito
tempo, desde que a vira. Ela casou e ele tambm. Enviuvaram e nenhum dos
dois se casou novamente. Nunca se atreveu a falar diretamente do seu amor
a ela. Eleonora era fria e, se a conversa ia ter neste assunto, ela
desconversava. Quando o marido de Eleonora ficou doente, ele a fez
prometer que no ia casar de novo. Depois de desencarnado, ele apareceu
muitas vezes a ela cobrando a promessa. E que ele ficou vagando pelo seu
ex-lar, pela manso. Ele sofria e no queria que ela casasse de novo.
Eleonora tinha muito medo dele. Mas, um dia, Dr. Bernardo e seu grupo
Esprita doutrinaram o ex-marido de Eleonora. Esclarecido, ele foi para o
Plano Espiritual. Anos depois, voltou para pedir perdo a Eleonora e lhe disse
que no precisava mais cumprir a promessa. Porm, ela achava-se velha,
com muitos problemas para casar novamente, ou porque ela nunca amara Dr.
Bernardo como ele a ela. Tinha, sim, amizade, queria-o bem. Ele respeitou
seu modo de pensar e sentia-se feliz com sua amizade. Nunca se preocupou
com o que tinha sido no passado, o que fora em outras encarnaes. O
passado j passou, e o importante  o presente, o que devemos fazer 
aproveitar no Bem as oportunidades que temos. Agora. ali estava como uma
pea do passado, tentando ajudar irmos a se reconciliarem. Pensou em
Cirilo, queria bem o garoto, o antigo Artur, que agora tinha vindo para
desencamar na manso, nas terras que usufruiu como administrador num
perodo. Como  importante administrar com justia e amor o que Deus nos
entregou. Ali estava Andr, o criminoso, agora Rodolfo, que aprendia a servir,
Vitria como Ana, Michel que fora Luiz, a esposa assassinada, como Eliane, e
ele. E que Deus o iluminasse para que pudesse ajudar a todos. Pensando em
Jesus, orou com sinceridade e f.
      Num salto levantou-se da cadeira, havia passado dez minutos do
remdio do Cirilo, foi rpido ao quarto do seu pequeno paciente.
        Ana s acordou com Snia chamando-a para o jantar.


    X- O Criminoso



     Duas semanas passaram tranquilas. Cirilo ainda continuava doente,
alternando entre melhoras e pioras. Os horrios de aulas foram diminudos.
Ana, porm, ia sempre v-lo noite e lhe fazia companhia. Dr. Bernardo voltou
para sua casa, mas vinha sempre ver o garoto.
     Ana ia todas as tardes dar aulas a Michel que aprendia rpido e quase
no necessitava mais das aulas.
     Rodolfo a evitava, nas poucas vezes que Ana o encontrava ele se
limitava a cumpriment-la friamente. Nada mais se ouviu de sobrenatural na
manso e nem Ana vira algo de estranho, mas um forte pressentimento de
perigo a fazia estar sempre alerta.
      Recebeu noticias dos seus, seu irmo estava mesmo disposto a casar e
fixar residncia na cidade onde estava. Seu pai dizia que estava namorando e
que tinha saudades. A me no respondeu  pergunta que fizera, "onde
moraria quando voltasse"? Na carta ela falou entusiasmada de seus passeios,
que estava bem e lhe agradecia por ter aceitado aquele emprego, levando-a a
se separar do marido. Ana entristeceu, ningum se preocupava com ela. O
irmo gostava dela, mas estava pensando somente nele, tambm j tinha
sofrido muito com as brigas dos pais. Seu pai e sua me pensavam em si
mesmos sem se importar com o que estaria acontecendo com ela.
      No queria ir mais embora. Ficada ali at ser dispensada. Com o dinheiro
que recebesse poderia partir e arrumaria uma penso para morar, viveria
sozinha. "Se pelo menos Rodolfo a quisesse", pensou suspirando.
      "Seria capaz, Ana Elizabeth, de morar aqui com ele?"
- falou alto. "No sei, no sei...
      Ana estava na janela do seu quarto olhando para o lado de fora, tudo
estava tranquilo. Foi quando ouviu um barulho de carro.
      "Ser Dr. Bernardo?"
      Fechou a janela e desceu para saudar o amigo. Mas no meio da escada
parou assustada, estremeceu. Escutou uma voz grossa e vagarosa
conversando com D. Eleonora. Ana achou que deveria ser o Sr. Raimundo, o
sobrinho de sua patroa. Continuou a descer a escada cautelosamente, seu
corao batia apressado. Estavam na sala da escultura de pedra, Snia, D.
Eleonora e ele. Ana viu o rosto do recm-chegado. Segurou forte o corrimo,
na sua mente veio a cena que viu na estrebaria. Estava na frente do
criminoso, do assassino do prprio pai. Sufocou um grito, sentindo tudo girar,
caiu desfalecida. Os trs correram para acudi-la.
      - Est desmaiada - disse D. Eleonora. - Raimundo, esta  a professora
de lnguas do seu filho. No sei o que aconteceu, ela  to educada e
reservada. O que ter levado a sentir-se mal?
      Raimundo a examinou e comentou:
      - Interessante!
      Eleonora o olhou carrancuda e falou sria:
      - No quero intimidades em minha casa.
      - Nossa casa titia, nossa...
      - Respeite a mestra do seu filho - disse D. Eleonora.
      Raimundo nada respondeu. Voltou-se e subiu a outra escada pensando
que a garota era realmente muito interessante, talvez fosse se divertir nos
dias entediados que teria de passar ali.
      Snia esfregou os pulsos de Ana e ela voltou a si, muito assustada.
      - O assassino, eu vi o assassino daquele senhor que morreu na
estrebaria, eu o vi, eu...
      - Calma, Ana - falou Snia ajudando-a a sentar-se no degrau da escada.
- Voc teve um desmaio.
      - Que disse, menina? - indagou D. Eleonora nervosa.
      - Eu, bem... balbuciou Ana, no sei, pensei... no sei...
      Ana realmente no sabia o que dizer. D. Eleonora a olhou e ordenou:
      - Hoje voc no precisa dar aulas ao Cirilo. V descansar!
      Subiu a escada atrs do sobrinho.
      - Que houve, Ana? - perguntou Snia. - Viu algum fantasma?
      - Acho que sim, eu...
      - Conte o que viu. Que emocionante! Queria tanto ver um fantasma.
Como era ele?
      - Magro, alto, de costeletas grossas, cabelos pretos, voz vagarosa e
grossa, trajava-se bem e
      - Ora! - exclamou Snia. - Eu pensei que voc tinha visto um fantasma.
Voc viu somente o sobrinho de D. Eleonora, o Sr. Raimundo, pai de Cirilo,
que chegou de viagem. Voc tem certeza que est bem? No quer ir ver o Dr.
Bernardo na vila para uma visita? Voc me parece doente, est plida.
      Ana achou que era uma boa idia, ansiava por contar ao amigo o que
vira.
      - Mas, como ir? - indagou Ana.
      - Isto no sei - respondeu Snia. - Voc sabe dirigir? No! S se voc
pedir para o Rodolfo lev-la. Mas ele deve ter muito trabalho. E eu tambm,
devo ir arrumar o quarto do Sr. Raimundo.
      Snia saiu, Ana levantou-se toda trmula, estava com muita vontade de
conversar com o velho mdico. Desceu para o ptio e encontrou Michel.
      - Michel, queria ir  vila, como posso ir?
      - S a cavalo, de charrete ou de carro e talvez voc tenha que ir sozinha.
Com a chegada do Sr. Raimundo teremos muito trabalho, ele olha tudo, d
palpites,  chato.
      - D. Eleonora permite isto? - indagou Ana indignada.
      - Que fazer, ele  dono da metade da propriedade. A
vem Rodolfo, converse com ele, talvez possa lev-la. Rodolfo, venha c, Ana
necessita ir  Vila, voc no quer lev-la?
      - Bom dia - disse Rodolfo sorrindo, cumprimentando Ana. - Agora 
totalmente impossvel. Sr. Raimundo j me pediu para lev-lo nas plantaes.
      - E  noite? - indagou Michel.
      -  noite posso, mas resta saber se Ana querer ir vila  noite.
      - Queria ir  casa do Dr. Bernardo - comentou Ana.
      - Neste caso - props Rodolfo -, pergunte ao Cirilo se o doutor est na
casa dele. Cirilo e D. Eleonora sabem sempre onde ele est, assim no
perder a viagem. Se quiser ir,  s ordenar.
      - No ordeno nada, tambm sou empregada.
      - Vendo o Sr. Raimundo por aqui, poderia at dizer que ele veio atrs de
um rabo-de-saia - rebateu Rodolfo ironicamente. - Este rabo de saia poderia
ser voc, veio de uma cidade grande e...
      - Veja bem como fala! - exclamou Ana zangada. - Se vim aqui foi para
trabalhar, porque arrumei um emprego que no consegui onde morava. Se
aqui estou sozinha  porque estaria em qualquer lugar. Tenho um irmo que
mora longe, meus pais so separados e levam vida de solteiros sem se
interessar por mim. Sou honesta e direita. E nunca daria confiana a este Sr.
Raimundo que me  muito antiptico. Ele deve ter vindo porque Cirilo est
muito doente e parece que piora.
      Ana,  medida que foi falando, foi abaixando o tom de voz e acabou,
mesmo sem querer, chorando. Michel a abraou carinhoso e olhou feio para
Rodolfo.
      - Desculpe-me, Ana - corrigiu Rodolfo. - No queria ofend-la. Levo voc
 vila com prazer, se resolver ir, estarei esperando-a.
      Rodolfo saiu e Michel, acariciando os cabelos de Ana, consolou-a
dizendo:
- No ligue para ele, acho que Rodolfo est com ciumes de voc. Ana,
cuidado com o Sr. Raimundo, ele  terrvel. Papai j escondeu Eliane em
casa e ela vai logo mais a cavalo para casa de meu tio Jos, na cidade, e
ficar l at ele ir embora. Na outra vez que o Sr. Raimundo esteve aqui, ele
olhou muito para minha irm e um dia correu atrs dela no ptio. Ele atenta a
todos aqui. Se ele vem com amigos, nos d mais sossego, a ns
empregados, porm atenta muito mais a D. Eleonora. Voc, minha amiga, 
muito bonita, dever chamar a ateno dele. Tranque a porta do seu quarto e
no abra sem certificar-se quem bate.
      - Vou tranc-la - prometeu Ana, assustada. - Sr. Raimundo costuma ficar
muito tempo aqui?
     - No, ainda bem que ele no gosta daqui. Certamente ele est sem
dinheiro. Como dizia meu pai, ele vem aqui s para tirar dinheiro de D.
Eleonora. J vendeu quadros e jias da famlia, ele pega e vende, isto ,
rouba a parte de nossa patroa.
     - Que peste! Coitado de Cirilo, no merecia ter um pai assim.
     - Coitado! - concordou Michel.
     Ana voltou para seu quarto, no horrio desceu para o almoo e depois foi
dar aula para Michel. Aps subiu ao quarto de Cirilo pensando que o garoto
estivesse sozinho. Encontrou Cirilo animado, sorriu para ela. Estava sentado
junto  mesa e brincava com um jogo.
     - Veja, Ana, papai trouxe para mim.
     - Que bonito! - concordou Ana logo em seguida perguntou ao garoto: -
Ciro, ser que o Dr. Bernardo estar em sua casa hoje?
     - Est sim, ele nos falou que no ia sair. Por qu? Eu estou bem, s
estou com um pouco de febre, eu...
     - No me apresenta sua linda professora?
     Ana se assustou. O Sr. Raimundo saiu do banheiro intrometendo-se na
conversa com a sua voz desagradvel e olhando para ela atrevidamente.
     - Esta  Ana Elizabeth, papai.


     -Muito prazer-disse o pai do garoto pegando na mo dela. - Encantado! E
muito bonita. Como est passando?
     - Muito prazer - respondeu Ana puxando a mo. - Vou bem, obrigada. Se
voc, Cirilo, est bem, j vou, tenho muito que fazer. At logo!
     Saiu quase que correndo, desceu ao ptio, viu Michel em frente  casa
dele e pediu para ele dar o recado a Rodolfo que iriam  vila.
     Ana subiu ao seu quarto, recordou o olhar do Sr. Raimundo e trancou a
porta. Aguardou ansiosa o horrio que marcou para ir  casa do Dr. Bernardo.
Logo aps o jantar, desceu e esperou por Rodolfo na garagem. Logo ele
chegou. Estava arrumado, barbeado e perfumado. Cumprimentou-a sorrindo.
Ana no pde deixar de compar-lo ao retrato de Andr que vira na sala dos
quadros, nada tinha de parecido. Rodolfo agora mancava e com aquela
cicatriz no rosto era feio, enquanto Andr fora bonito.
     "Ser que ele seria capaz de me matar novamente? Talvez, se eu o trair.
Dr. Bernardo tinha razo quando me aconselhou. No passado ela brincou
com os sentimentos, traiu, foi assassinada e no deveria brincar com
ningum mais, deveria respeitar os sentimentos alheios."
     - Vamos, Ana - convidou Rodolfo.
     Ana sentou-se no banco da frente ao lado dele e foram conversando
sobre o lugar, e tempo e a jovem professora esqueceu at de suas
preocupaes. Logo chegaram  casa do Dr. Bernardo.
     - E aqui, Ana. Ele realmente est em casa, a luz est acesa. Espero-a
aqui.
     - Por que no entra comigo?
     - Est bem, gosto muito deste velho mdico - disse Rodolfo sorrindo.
     Desceram, bateram na porta. Dr. Bernardo a abriu e alegrou-se em
v-los.
     - Que prazer receb-los! Entrem! Como tm passado? O que a trouxe
aqui, Ana Elizabeth?
     Depois de acomodados, Ana preferiu ir logo ao assunto que a levara ali.
     - Dr. Bernardo, o Sr. Raimundo chegou hoje  manso.
     - J soube. Evito ir  manso quando o sobrinho de Eleonora est l. Ele
 arrogante e por diversas vezes nos desentendemos. O que aconteceu?
     - O senhor lembra quando me disse que podemos ver pela psco...
     - Psicometria - completou Dr. Bernardo.
     -  isto - confirmou a moa -  a leitura de acontecimentos que ficaram
registrados em um local ou em um objeto. Logo que cheguei  manso, entrei
na estrebaria e vi o fogo e o crime. A viso deles me fez sentir mal.
     - Ainda bem que no foi por minha causa - disse Rodolfo rindo. - Cheguei
a pensar que inventou tudo aquilo.
     Ana sorriu para ele de modo carinhoso e ele chegou mais perto dela no
sof.
     - Vi realmente - continuou Ana - dois homens discutindo, o mais moo
matou o mais velho e correu. Vi to bem que reconheceria o rosto do
criminoso, e reconheci.
     - Qu?! - espantou-se Rodolfo.
     - Hoje cedo, quando ouvi barulho de carro, pensei que fosse o senhor e
corri para cumpriment-lo. Ao chegar  escada vi o Sr. Raimundo. E ele o
criminoso da estrebaria. O susto foi to grande que desmaiei.
     Dr. Bernardo no se alterou, tranquilo estava e continuou como se no
estivesse escutando nada de importante. Rodolfo, observando o mdico,
indagou:
     - O senhor no diz nada? No escutou o que Ana afirmou?
- Estou ouvindo com ateno, Rodolfo - respondeu o mdico. - J
desconfiava. Eu na ocasio examinei o corpo de Eurico, vi o ferimento no seu
peito, embora o corpo estivesse bem queimado. Eleonora me contou que tirou
a faca do peito do irmo no momento de desespero, quando o viu morto. Ela
me disse que ele se suicidara e me pediu ajuda para evitar o escndalo.
Todos sabamos que Eurico bebia muito e que naquele dia ele estava
bbado. Sempre me foi dificil negar algo a Eleonora. Achei mesmo que, se
fosse suicdio, com meu silncio no estaria prejudicando ningum. Mas, com
o tempo, raciocinando melhor, percebi que Raimundo era o nico herdeiro e
ele e o pai sempre brigaram muito. Eurico bebia muito, estava querendo na
ocasio casar de novo e no queria dar dinheiro ao filho. Se Eurico queria
casar e dizia estar feliz, no havia motivo para suicidar. Depois de anos,
conversei com o esprito de Eurico e ele me afirmou que no era suicida.
Agora est tudo explicado
       Que faremos? - indagou Rodolfo.
     - Nada - respondeu o mdico.
     - Nada! - repetiram os dois jovens juntos.
     - A psicometria - explicou Dr. Bernardo - no  prova para a justia dos
homens. Isto aconteceu h muito tempo e voc, Ana, estava longe daqui. Seu
relato para a justia nada vale e s recebena ironias. Eleonora, certamente,
negaria que tirou a faca. Ela acredita realmente que o irmo suicidou. No
temos como provar nada contra Raimundo, espero que ele v embora logo.
     - Hoje encontrei-o no quarto de Cirilo,  deveras nojento - disse Ana.
     - Ele foi rude com voc? - indagou Rodolfo.
     - Pelo contrrio, tentou ser agradvel demais.
     - Muito pior - falou Dr. Bernardo. - Ana, Raimundo uma pessoa sem
escrpulos. No acredito que tenha vindo ver o filho. Deve estar sem dinheiro
e tentar tir-lo de Eleonora. Para ele qualquer mulher  divertimento, deve
tomar cuidado e evitar de ficar com ele a ss.
     - Joo mandou Eliane para a vila. Da outra vez que o Sr. Raimundo
esteve na manso deu em cima da menina -confirmou Rodolfo.
     - Dr. Bernardo - falou Ana -,  melhor voltarmos  manso.
     - Ana - acrescentou o mdico -, leve com voc estes livros. Leia-os, ir
gostar.  "O Evangelho Segundo o Espiritismo", onde encontrar explicaes
fabulosas sobre vrias passagens do Evangelho. Este aqui  "O Livro dos
Espritos", um livro que nos instru com clareza sobre problemas e que nos
leva a compreender nossa existncia pelo raciocnio e pela razo. Ambos de
Allan Kardec, excelente mestre que codificou a Doutrina Esprita. Este outro 
sobre o assunto que j falamos, "Enigmas da Psicometria" de Ernesto
Bozzano, que explica to bem suas vises e levar ao l-lo a entender o que
passou e se passa com voc.
     O      casal se despediu, agradecendo. Entraram no carro e por
momentos ficaram em silncio.
     - E incrvel um crime ficar sem punio! - exclamou Rodolfo.
     Ana pensou: No passado no foi o mesmo Rodolfo, como Andr, que
assassinou duas esposas e no foi punido na poca pelas leis humanas. Mas
algum escaparia de sua prpria conscincia?" Respondeu a Rodolfo
repetindo o que j ouvira do Dr. Bernardo:
     - Das leis humanas poder ficar, mas certamente ter que resgatar um
dia seus erros, seja pela dor, se recusar a repar-los pelo amor ou no trabalho
sincero do Bem. Fez uma pausa e continuou: - Voc se revolta por ser como
?
     - As vezes me revolto - admitiu o moo. - Sou feio e defeituoso. Voc me
acha horripilante?
     - Sabe que no - afirmou Ana com sinceridade.- Voc me agrada, sabe
disto.
     - Voc me amaria?
     - Sim.
- Sinto que fala a verdade. Porm acho que um dia iria me trair. Quando o Sr.
Raimundo chegou, senti cime. Depois, analisando bem, notei que no era
cime, temi por voc. No quero que algo de mal lhe acontea. Ana,
tenho-lhe amizade. Gostaria que fssemos somente amigos, nada mais do
que isto. No a amo e acho que nem voc a mim. Talvez por algum motivo
estejamos sentindo atrao um pelo outro. Pensei nisto e acho que talvez
este velho mdico e amigo nosso tenha razo. Existe a reencarnao,  por
isto que sentimos a necessidade de nos querer bem para fazermos as pazes.
E, se for por isto, a amizade  o melhor sentimento. E ento, amigos?
     Rodolfo falou tranquilamente. Ana sentiu-se um pouco desiludida,
preferia que o moo lhe falasse de amor. Mas compreendeu que ele tinha
razo. Ela, conhecendo o lao que tiveram no passado, compreendeu que de
novo teve a graa de reconciliar-se com mais um desafeto, respondeu feliz:
     - Amigos, Rodolfo, amigos para sempre.
     Ana pensou que a bondade de Deus era grande por nos dar
esquecimento num outro corpo. Rodolfo outrora foi bonito, rico, mas trado e
assassino, agora, pobre, feio e bom. Se ele soubesse de tudo, iria conseguir
progredir? A amargura e o remorso no o impediriam?
     Chegando, Rodolfo perguntou a Ana:
     - Voc trancou seu quarto?
     -No.
     - Deveria ter trancado e deve faz-lo agora sempre que se ausentar dele.
Sr. Raimundo pode entrar e esperar por voc l. Subirei com voc e
olharemos tudo para nos certificarmos que no h ningum.
     Subiram devagar sem fazer barulho, Rodolfo olhou por todos os cantos
do quarto, estava tudo em ordem.
     - Ana, lembre-se de no abrir a porta sem se certificar com certeza de
quem est a bater. Boa noite!
     - Boa noite, Rodolfo. Obrigada!
     Ana trancou a porta assim que Rodolfo saiu, deitou-se e logo adormeceu.
Acordou assustada, algum batia na porta. Sentou-se na cama, seu corao
disparou, viu a maaneta da porta girar tentando abrir. Logo ouviu a voz
pastosa.
      - Ana Elizabeth, necessito falar com voc. Queira abrir a porta, por favor.
Ela no conseguiu responder e aps uns instantes ele falou novamente.
      - Ana Elizabeth, voc est acordada, meu anjo? Abra, por favor, preciso
lhe pedir um favor.
      Ana esforou-se e conseguiu levantar, chegou perto da porta, viu que
esta era reforada, o que a aliviou, mas tremia de medo. Respondeu falando
de forma compassada e firme:
      - Sr. Raimundo, agora no  hora para conversarmos, amanh durante a
aula do Cirilo o senhor conversa comigo ou, ento, na frente de D. Eleonora.
Boa noite!
      - No seja indelicada, necessito lhe falar - insistiu ele.
      Ana teve vontade de gritar e cham-lo de assassino, porm lembrou-se
dos conselhos de Dr. Bernardo, que no deveria acusar sem provas.
Respondeu tentando no demonstrar que estava com medo.
      - Sr. Raimundo, qualquer coisa que me pea, negarei. Se for algo sobre
Cirilo,  melhor o senhor falar com D. Eleonora. Eu nada tenho a conversar,
principalmente a esta hora da noite. Se continuar insistindo, gritarei, abrirei
ajanela e chamarei pelos empregados. Boa noite, Sr. Raimundo!
      - Voc  uma simples empregada, pago-a com o meu dinheiro -
respondeu ele de modo rude.
      - Sou empregada de D. Eleonora. Recebo meu ordenado de modo
honesto e por servios prestados. Est perdendo tempo querendo me
conquistar. O senhor no me interessa. Quero avis-lo que no tenho medo
do senhor e que gostaria de ser respeitada, seno me queixarei a D.
Eleonora.
      - Garota petulante, como ousa pensar que me interesso por voc, no
costumo me rebaixar tanto.
      Ana ouviu os passos afastando-se, suspirou aliviada, mas estava
nervosa e resmungou.
      "Criminoso! Assassino do seu prprio"
Como no conseguiu dormir, pegou os livros que Dr. Bernardo lhe emprestou
e comeou a ler. Interessou-se logo pela leitura e foi se acalmando. Ler lhe
fez bem. Lia uma questo e meditava encantada com a simplicidade e
sabedoria nela contida. Sentia que j conhecia os ensinamentos daqueles
livros. Eram questes profundas, mas as entendia perfeitamente, levando a
amar a Deus e entender muito bem sua justia. Ficou lendo por horas, voltou
a dormir de madrugada, totalmente calma e relaxada.


    XI- Mais um Crime


     Ana no viu Raimundo por dois dias. Snia lhe dissera que ela tambm
corria dele, porque ele j lhe dissera palavras grosseiras. E que D. Eleonora e
o sobrinho estavam discutindo muito.
     Naquela noite enquanto jantava, Ana escutou os dois discutindo na outra
sala. Raimundo queria vender as terras que circundavam a manso ou parte
delas. D. Eleonora no queria comprar, afirmava no ter dinheiro e no queria
vender a terceiros. Dizia a senhora exaltada que o sobrinho acabaria com
tudo em pouco tempo. Raimundo, por sua vez, tambm exaltado, retrucava
que no tinha dinheiro, que iria ficar na manso at arrum-lo e que
convidaria seus amigos para hospedarem-se ali. D. Eleonora lembrava ao
sobrinho do menino enfermo e a resposta gelou Ana.
     - O garoto! No sei por que  to enfermio. H tempo est assim,
doente, e no ir piorar por minha causa ou pelos meus amigos. O que
importa  que eu estou sadio.
      Ana ficou revoltada com a frieza do pai de Cirilo. Teve vontade de ir
conversar com Rodolfo, mas teve medo, no saia do quarto mais  noite.
Tinha receio de andar pela manso, acabou o jantar e foi para seu quarto
trancando a porta. Da janela ficou uns tempos olhando o ptio, no viu
ningum. Pegou os livros que Dr. Bernardo lhe emprestara e ficou lendo.
Estava amando os livros, a leitura esclarecia muito suas dvidas. A lei da
Reencarnao era ao seu entender muito justa. Deus era realmente Pai
misericordioso dando outras oportunidades aos seus filhos, permitindo que
voltssemos em outro corpo para reparar nossos erros, para nos
reconciliarmos e para aprender a am-Lo.
      No outro dia, foi dar aula a Cirilo pela manh. Encontrou-o desanimado,
tossia e se cansava com facilidade. O garoto estava triste e pensativo.
      O dia estava cinzento, ameaando chover e esfriara bastante. Dias assim
deixavam Ana inquieta, tudo lhe parecia triste. Sentia-se aborrecida e parecia
que algo ruim ia acontecer. Isto a deixava nervosa.
      - Ana - disse Cirilo -, estou cansado e no estou com vontade de estudar.
Devo ir logo, para um hospital especializado na Europa, porm no tenho
vontade de ir, mesmo sabendo que  para minha melhora. Gostaria de morrer
aqui e ser enterrado no cemitrio da vila junto com meus familiares. Ana, voc
acha que encontrarei, ao morrer, com minha me? Ela era to linda e meiga.
Estou com saudades dela, se fosse viva iria ficar sempre comigo.
      - No fale em morrer, voc ir sarar, tenha pacincia. Mas, se morrer eu
acho que encontrar sua me. O amor une e sempre ficamos perto dos que
amamos. Giro, voc se encontrar com sua me um dia, embora eu ache que
ir demorar. Todos ns morremos ou desencarnamos, como Dr. Bernardo
fala.
      - No sei se irei demorar muito entre os encarnados. Voc sabe o que eu
tenho?
      Cirilo perguntou olhando nos olhos de sua mestra e ela no teve como
mentir, afirmou com a cabea.
      - Obrigado, amiga, obrigado por no me temer. Voc boa. Por favor, leia
a liopara mim.
      Cirilo levantou-se da cadeira, dirigiu-se para seu leito e se acomodou.
Ana sentou-se na poltrona ao lado de seu leito e comeou a ler, de repente se
viu longe dali. Parou de ler. Cirilo ficou quieto ao ver que a moa silenciara.
No se importou, achou que ela estava descansando um pouquinho. Mas
alguns minutos passaram e Cirilo a observou, viu que ela encostou a cabea
na cadeira, deixou o livro cair no colo e que estava plida. Pensou, estaria
dormindo? Talvez no tivesse dormido bem  noite. Estudar dava sempre
sono. Esperou
  (1)N.A.E Ana, como clarividente, em transe, viu os acontecimentos a
distncia.

mais uns minutos, como Ana no se mexia, levantou-se do leito e colocou a
mo em seu brao. Ana estava fria. Chamou-a repetidas vezes e, por fim,
correu ao quarto da sua tia que veio rpida. Esfregou lcool em suas
tmporas e deu sais para cheirar. Ela comeou a acordar gemendo.
     Mas... Ana ao comear a ler a lio viu tudo rodar, sentiu que estava em
outro lugar a alguns metros de altura do cho. Focalizou sua ateno em dois
cavaleiros.(1) Logo percebeu que eram o Sr. Raimundo e Rodolfo, estavam
na plantao e conversavam. Escutou-os sem poder interferir, sem poder
fazer nada.
     "O senhor", disse Rodolfo, compassadamente, "no tem direito de querer
conquistar moas direitas que trabalham aqui, no  justo."
     "Ora", respondeu Raimundo com um sorriso cnico. "Voc no deve se
referir a mim deste modo. E meu empregado! O que h? Est com cimes ou
com inveja? Sou charmoso, rico e as mulheres me querem sempre. Algumas
se esquivam para se tornar mais atrativas, mas acabam nas minhas mos.
Sei como conquist-las. Com voc deve ser diferente. E feio, aleijado e
mulher com juzo no deve olhar para voc."
     "Se estou assim , disse Rodolfo exaltado, "foi por tentar salvar seu pai e
os animais da estrebaria no dia do incndio. Alis, o senhor estava por ali
naquele dia. Onde estava que no tentou salvar seu pai?"
     "Nem me lembro. Depois estes atos hericos e idiotas so para
empregadinhos como voc. Aleijado! E no me fale assim, proibo-o! Veio me
acompanhar para que eu possa ver as terras e avali-las. Quero vend-las!
Voc tem que me obedecer, aqui mando eu."
     "No sou seu escravo. Sr. Raimundo, lembro-lhe que quem paga os
empregados  D. Eleonora e com o dinheiro dela."
     " ela quem mora na mansao", respondeu Raimundo irritado.
     "E trata do seu filho enfermo."
     "No me levante a voz, seno...
     "Seno, o qu?", indagou Rodolfo desafiando-o. "Ir me matar como
matou seu pai? Matou-o com uma facada e fugiu sem ao menos tentar salvar
os cavalos."
     "Voc est louco! ", assustou-se Raimundo.
     Ambos se calaram. Raimundo ficou encabulado e ficou pensando.
     Ana entendeu o que passou pela mente dele. Rodolfo, concluiu
Raimundo, deveria ter visto ele e o pai discutindo na estrebaria. Ele dissera,
na ocasio, que entrou quando o fogo comeou, mas poderia ter sido antes e
t-los visto. Rodolfo era seu inimigo, se resolvesse falar, estaria perdido.
Matou a esposa, o pai e agora necessitava desfazer-se daquela testemunha.
O local onde estavam lhe parecia propcio, desciam uma pequena encosta
com muitas pedras. Rodolfo ia na frente. Raimundo ento pegou seu chicote
e o virou. O chicote era de cabo de madeira trabalhada, uma pea forte e
resistente. Mirou o cabo na cabea de Rodolfo e o golpeou com muita fora.
Rodolfo desmaiou, caiu sobre o cavalo deixando as rdeas soltas. Raimundo
chicoteou o cavalo de Rodolfo que desceu a encosta disparado. Viu
fria-mente Rodolfo cair do cavalo ficando com o p preso no estribo e sendo
puxado pelo animal. Ai, Raimundo olhou para todos os lados e suspirou
tranquilo, no vira ningum. Como se nada houvesse acontecido, mudou de
rumo, assobiando.
     - Voc est bem, Ana Elizabeth? - indagou a dona da casa preocupada.
     Ana voltou a si e viu que D. Eleonora e Cirilo a olhavam ansiosos.
Lembrou da aula, da leitura e se assustou sem saber o que responder,
afirmando com a cabea.
     - V para seu quarto - aconselhou D. Eleonora. - V descansar. Cirilo
no se importar se ficar sem aula hoje.
     Ajudou-a a se levantar.
     - Venha - props D. Eleonora gentil - acompanho-a. Darei um calmante a
voc.
     Cirilo despediu-se dela mandando um beijo com a mao. No corredor D.
Eleonora disse  jovem professora:
     - Espere aqui.
     Entrou no seu quarto e lhe trouxe um comprimido.
     - Tome e descanse. Voc necessita consultar um mdico sem demora,
teve dois desmaios seguidos. At logo!
     Ana entrou no quarto e fechou a porta. Ainda se sentia tonta, desceu a
escada com cuidado mas desistiu de continuar; voltou para o seu quarto,
tomou o comprimido e deitou. Estava confusa e no conseguia pensar direito,
cochilou. Acordou assustada com gritos. Deu um pulo da cama, abriu a janela
e viu no ptio Snia, Joo e Michel que gritava desesperado.
      - Rodolfo! Rodolfo!
      - Meu Deus! - exclamou Ana - Rodolfo!
      Ouviu Joo dizer:
      - Est morto!
      Ana sentiu tudo rodar, afastou-se da janela, deixou-se cair na cama, no
viu mais nada.
      Acordou com Snia entrando no quarto e fechando a janela. Sentia muito
frio. Olhou para ela e viu que Snia estava com os olhos vermelhos de chorar.
      - Ana, voc est bem? - perguntou Snia olhando-a. -Dr. Bernardo pediu
para que viesse v-la. Que faz com a janela aberta? Hoje est frio e venta
muito.
      A moa no respondeu, Snia aquietou-se por uns instantes e depois
continuou a falar.
      - J sei, voc escutou os gritos e abriu a janela para ver o que acontecia.
Triste no? Michel gritou tanto que Dr. Bernardo teve que lhe dar um
calmante.
      - Est morto? - perguntou Ana com voz trmula.
- Sim, est. Ningum sabe o que aconteceu, ele montava to bem. Rodolfo
saiu cedo com o Sr. Raimundo. Nas plantaes, o Sr. Raimundo disse que se
separaram porque ele foi visitar o Sr. Ronaldo, nosso vizinho. E que Rodolfo
estava bem e ia voltar  manso. Ningum sabe o que aconteceu.
      - Assassino! - acusou Ana baixo com tom rancoroso.
      - Qu? O que voc disse? - indagou Snia e nem esperou pela resposta
continuando a falar. - Todos estamos indignados e tristes. O Sr. Raimundo
retornou  manso s treze horas e Rodolfo nada de chegar. D. Eleonora
mandou uns empregados atrs dele e o acharam cado perto do cavalo. O
animal o arrastou por um bom pedao, ele ficou todo machucado e com o
rosto mais feio ainda, Dr. Bernardo mandou que fechassem o caixo e D.
Eleonora quer dar a ele um bom enterro. Foi levado para a vila, est no
velrio do cemitrio.
      - Oh! Ana chorou sentida.
      Snia a abraou e falou confortando-a:
      - No fique assim. Acidentes acontecem, o cavalo por algum motivo o
derrubou, o p de Rodolfo ficou preso e...
      - Posso entrar? - perguntou Dr. Bernardo na porta do quarto.
      - Entre, doutor - respondeu Snia.
      - Voc est bem, Ana? - indagou o mdico e olhando para Snia disse: -
Eleonora est chamando voc.
      - Obrigada, j vou. At logo!
      Snia saiu, Dr. Bernardo fechou a porta, foi para perto de Ana, ps-se a
examin-la, mediu sua pressao.
      - Eleonora me contou que voc desmaiou - comentou o mdico,
dando-lhe um calmante. - Est com sono?
      Ana sentia-se fraca, pesada e sonolenta, afirmou com a cabea.
      - Ento, dorme, filha. Nada tem a fazer. Rodolfo morreu e voc deve
descansar.
      - Eu vi! - exclamou a jovem chorando. - Eu vi, Dr. Bernardo. O Sr.
Raimundo matou Rodolfo porque ele o acusou.
      - Calma, Ana! Conte-me tudo. Que aconteceu?
      Ela contou tudo.
      - Filha, voc se desprendeu do corpo fisico, seu espirito deixou a matria,
ficando preso a ele por um cordo. Voc foi onde estava Rodolfo e os viu,
sem poder interferir nos acontecimentos. Infelizmente, suspirou o mdico, sua
viso no  prova. No deve falar disto a ningum, me promete? Se falar
correr risco de vida. Eu disse a Rodolfo para no falar a ningum o que
ouviu de voc.
     - Culpa minha! Rodolfo foi morrer logo agora que fizemos as pazes.
     - Ningum  culpado, a no ser Raimundo. Preocupo-me, se matou dois,
poder matar trs.
     - Ele tambm matou a esposa - falou Ana apressada. -Ouvi seus
pensamentos.
     - Esquece tudo isto, Ana, pedirei a Eleonora para lhe pagar e poder ir
embora daqui. No lamente, repito que no teve culpa. Foi muito bom voc
ter feito as pazes com Rodolfo, ele desencarnou reconciliado com voc.
Rodolfo, anteriormente Andr, que assassinou duas esposas e agora foi
assassinado. Vamos orar por ele, para que perdoe e possa ser auxiliado.
     Dr. Bernardo ajeitou os cobertores da cama de Ana, sorriu-lhe com
carinho, enquanto ela se esforava para no fechar os olhos.
     - Durma, filha, descanse, o remdio que Eleonora lhe deu  forte.
Dormindo se sentir melhor. Vou trancar seu quarto e ficarei com a chave. Irei
ver Cirilo e voltarei. Durma tranquila!
     Ana ensaiou um sorriso, viu Dr. Bernardo sair e trancar a porta, tentou
relaxar e adormeceu. Dormiu algumas horas, acordou e sentiu-se pssima.
As lembranas vieramlhe  mente, teve vontade de chorar. A desencarnao
de Rodolfo a afetou muito, sentia-se muito triste. Esforou-se, levantou-se e
tomou um banho. Estava penteando seus cabelos quando ouviu a porta ser
destrancada e algum bater de leve.
     -Entre, Dr.!
     - Voc est bem?
     - Sim. Sou testemunha deste crime horroroso. Rodolfo desencarnou
porque falou demais e eu me sinto culpada.
     - J lhe disse para no se sentir assim. Recomendei ao Rodolfo para
nada dizer e torno a dizer a voc: Raimundo matou trs e pode matar mais
um, voc. Amanh pela manh ser o enterro de Rodolfo, Eleonora j acertou
tudo. Vou falar com ela para liber-la, pagar seu salrio e assim poder ir
embora. O pequeno Cirilo piorou muito e sabemos que no ir para hospital
nenhum, portanto no necessita aprender outras lnguas.
     - Dr. Bernardo, estes livros que me emprestou tm-me feito entender
tantas coisas. Se no acreditamos em reencarnao, achamos que Deus 
injusto. Pela leitura compreendo os fatos que aconteceram aqui.
     - Deus  muito justo, Ana. No foi o Espiritismo que inventou lei
nenhuma e nem a reencarnao. A Doutrina Espinta s veio para esclarecer.
A reencarnao  de conhecimento de povos antigos. E todas as religies
futuras devero acreditar na reencarnao. Porque, como voc disse, ela
muito justa e misericordiosa. A Doutrina Esprita tambm d muito
esclarecimento s pessoas sensveis, porque muitos mdiuns podem ser
tachados de doentes mentais e internados em hospitais.
     - Creio que eu, sem o entendimento da Doutrina Esprita que estou tendo
e sem a sua ajuda, iria ficar logo doente, ou ser considerada como tal.
Porque, vendo e ouvindo desencarnados, posso ser considerada como louca.
Agradeo-lhe, o senhor ser de grande valia tambm para meu futuro. E
Michel, como est? Deve estar sentindo muito a desencarnao do seu
amigo.
     - Michel est inconsolvel. Est com o pai no velrio.
     - Dr. Bernardo, o senhor acha que Cirilo est mesmo mal?
mdico srio. Ao saber da desencarnao de Rodolfo no falou mais, est
febril e muito triste. Eleonora me contou que quando entrou no quarto para
acudi-la, voc logo voltou a si. Estive pensando, ser que voc no falou o
que viu?(1)
      - Se falei, Ciro sabe que o pai  um assassino. Dr. Bernardo, no tenho
mesmo nenhum modo de testemunhar contra ele?
      - No. Quando aconteceu o crime, que todos supem acidente, voc
estava na manso, no quarto de Cirilo. Ajustia no lhe dar ouvidos, poder
ser processada por calnia ou ser tachada de desequilibrada mental.
Deixemos Raimundo entregue  justia Divina, um dia ele ter que colher da
plantao que atualmente semeia.
      - Todos ns sofremos para reparar nossos erros?
      - No, Ana, como voc disse reparar no  s pela dor. Podemos com
sinceridade consertar nossos erros pelo trabalho no Bem, pela nossa
modificao interior para melhor. Temos a oportunidade de acertarmos pelo
Amor. Quando nos recusamos, a, sim, vem a dor, para nos alertar e conduzir
ao bom caminho.
      - Rodolfo! Acho que eu o amava - falou Ana suspirando.
      - Ser? Acho que voc o queria bem. Foi bom o encontro de vocs,
entenderam-se. Rodolfo aprendeu muito nesta encarnao e espero que ele
no tenha ficado com dio e tenha perdoado seu assassino. Vou orar muito
por ele.
      - Quero v-lo!
      - Amanh, Ana. Vou deixar outro calmante para voc tomar  noite.
Agora deve alimentar-se. Se precisar de mim, estarei no quarto de Cirilo,
dormirei l esta noite.
      - Posso ver Cirilo?
      - Claro.
      Saram e foram ao quarto. D. Eleonora estava sentada
ao lado do leito do menino, Cirilo no estava bem, respirava ofegante e
parecia dormir. Ana assustou-se com a aparncia dele. D. Eleonora os
cumprimentou, estava nervosa e torcia as mos.
      - Bernardo, Cirilo piorou.
      - Calma, Eleonora, confiemos, se quiser remov-lo...
      - No. Por muitas vezes Cirilo me pediu para ficar aqui, depois... Talvez
seja melhor ele ficar aqui perto de mim. Como est, Ana Elizabeth? - indagou
D. Eleonora.
      - Bem - respondeu a jovem professora desanimada.
      Ana ficou ali por uns minutos, orou com f pelo jovem amigo, depois
despediu-se baixinho e desceu para o jantar. Alimentou-se sem vontade,
aps, foi ao quarto de Cirilo, mas do corredor ouviu a voz de Raimundo
conversando com a tia. Estremeceu ao ouvi-lo, agora no s sentia nojo, mas
medo tambm. No quis v-lo, voltou ao seu quarto. Tomou o comprimido e
deitou-se.
      Acordou de madrugada e pensou em todos os acontecimentos que viveu
naquela casa. Dr. Bernardo tinha razo, concluiu, melhor era ir embora. Mas
para onde? Chorou por Rodolfo, por Cirilo e por ela mesma.
      Levantou-se cedo e foi  cozinha onde tomou o caf. Todos estavam
tristes com a desencarnao de Rodolfo, ele era querido. As oito horas, D.
Eleonora e os empregados foram de carro e de charrete para a vila, para o
enterro de Rodolfo. Ficaram somente Elizete e Dr. Bernardo fazendo
companhia ao Cirilo. Raimundo tambm no foi e Snia disse a Ana que ele
ficara dormindo. Ana foi de carro junto com D. Eleonora. Ningum conversava
no trajeto, estavam todos entristecidos.
      Quando chegaram, Michel, ao ver Ana, correu, abraou-a e disse
chorando.
      - Ana, nosso amigo est morto!
Michel passou a noite ali, no se afastou por nada. Alm do pessoal da
fazenda, da manso, alguns moradores da vila tambm vieram para o funeral.
Assim o corpo de Rodolfo desceu ao tmulo s onze horas. Ana no
conseguiu chorar, sentia-se muito triste, cansada e deprimida. Voltaram todos
manso. Quando chegaram, Michel ficou conversando com Ana no jardim.
    - Aqui no vai ser a mesma coisa sem meu amigo, queixou-se o menino.
Quem ir cuidar dos cavalos? Ele fazia este trabalho com muito amor. D.
Eleonora pediu para papai fazer o trabalho de Rodolfo por uns dias, ela disse
que vender os cavalos. Sinto vontade de ir embora daqui.
    - Ana! Michel! - Snia os chamou da varanda. - Cirilo est muito mal.
Temo por sua vida. Venho do quarto dele, que tristeza! Parece morto!
    Ana e Michel despediram-se. Ana pressentiu que algo triste iria
acontecer novamente. Temeu pelo seu aluno e subiu ao quarto dele.


    XII- Deixando a manso


     A porta do quarto estava aberta e Ana entrou. D. Eleonora chorava aflita
e Dr. Bernardo segurava a mo de Cinto. Ele estava ofegante, respirando
com grande dificuldade. Snia, logo aps t-los avisado, veio para o quarto e
ali estava de p, enrolava o avental sem saber o que fazer. A enfermeira
contratada no dia anterior estava silenciosa, tranquila, talvez por ter se
acostumado com acontecimentos como este. Dr. Bernardo sorriu para ela,
balanando a cabea como a dizer que no havia nada a fazer. Ajovem
professora aproximou-se e ficou de p ao lado do mdico. Cirilo balbuciou
algumas palavras em tom baixo e espaadamente.
     " Mame... ir... onde?.. .Artur... mansao... meu... reviver...
     Ana e o doutor prestaram ateno e compreenderam o que Cirilo quis
dizer. Os dois sentiram a presena da me ao lado do filho. Isto tranquilizou a
moa, dando-lhe a certeza de que seu aluno ia receber a assistncia
Espiritual na sua desencarnao. Cirilo parou de falar, a respirao tornou-se
mais pesada, ergueu um pouco a cabea e deu um trmulo sorriso. Recostou
a cabea e sua respirao parou.
     D. Eleonora correu para junto de Cirilo e comeou a chorar alto, Dr.
Bernardo largou a mo do menino e abraou sua amiga.
     - Est morto! - confirmou o mdico. - Cirilo desencarnou! Nosso menino
deixou a vida encarnada e seu corpo enfermo. Que Deus o proteja!
     Ana olhou o corpo sem vida. Cirilo estava tranquilo, parecia feliz e o
sorriso no o abandonou.
     Snia, D. Eleonora e Ana sairam do quarto, ficando
Dr. Bernardo e a enfermeira que iriam preparar o corpo para o sepultamento.
Snia amparou D. Eleonora que agora chorava baixo, mas sentida. Pararam
no corredor, a senhora entretanto no foi para seu quarto, com rudeza abriu a
porta do quarto do sobrinho.
     Raimundo estava de robe, sentado numa poltrona com um livro nas
mos, ao ver a tia deixou o livro cair.
     - Seu filho morreu, ouviu? - informou a senhora, exaltada.
     Ao ouvir isto, ele ficou branco e abaixou a cabea. D. Eleonora continuou
a falar nervosa, depois de uns segundos de completo silncio:
     - Cirilo morreu! Pequena crise sem importncia, no ? Morreu!
     Ainda chorando, D. Eleonora foi para seu quarto. Ana e Snia sairam
rpidas do corredor. Ana pensou desejando:
"Que sofra bastante, Sr. Raimundo. Que sofra!" Mas, depois concluiu: Se ele
sempre abandonou o filho, matou a me dele, sabendo-o doente em estado
grave no se importou, no iria sofrer.
     Cirilo foi velado no velrio do cemitrio da vila, o mesmo em que Rodolfo
ficou. Todos foram ao velrio, Raimundo ficou l o tempo todo, sentado de
cabea baixa. O enterro foi no outro dia cedo.
     Quando vieram do enterro, D. Eleonora marcou uma reunio com todos
os empregados no salo da frente da manso s quatorze horas. Ana veio a
saber que todos os empregados da propriedade eram de muitos anos, s ela
era recente. Mas, como tambm foi convidada, l estava junto com todos no
horrio marcado. Pontual, D. Eleonora chegou com Dr. Bernardo e Dra.
Janice e em seguida comeou a falar compassadamente.
     - Amigos! Empregados meus de tanto tempo so meus amigos. Quero
comunicar-lhes que resolvi vender a propriedade.
ao ver realizado seu desejo, suspirou alto. Mas ignorando o sobrinho, a
senhora continuou:
     - A Dra. Janice aqui presente tratar de todo o processo da venda.
Temos trs interessados e esperamos vender rpido. Meu sobrinho poder
viajar e, logo que possvel, Jance entrar em contato com voc. Agora,
Raimundo, por favor, queira nos dar licena. Gostaria de conversar com meus
empregados.
     - Oh, sim tia! Partirei em seguida, logo que a camareira arrumar minhas
malas.
     - No existem mais empregados nesta manso, Raimundo - acrescentou
D. Eleonora com firmeza. - Esta reunio  para despedi-los. Ter que se
ajeitar sozinho.
     - Sim, certamente. At logo! - disse Raimundo saindo. Ningum
respondeu o cumprimento. D. Eleonora relaxou um pouco e voltou a falar:
     - Meus amigos, esta propriedade  minha e do meu sobrinho. Vocs
sabem bem que  impossvel continuar com esta sociedade. No disponho de
recursos para comprar a parte dele. Sabem que tenho duas filhas e que
nenhuma delas vir para c. Assim sendo, resolvi vender e ir morar com
minha filha Paula, no convento. Guardarei deste dinheiro uma pequena renda
que dar para meu sustento, o resto farei doao para meus netos. Mas
vocs no foram esquecidos. Dra. Janice efetuar a compra de uma casa
para cada famlia na vila. Ser um modo de retribuir a dedicao e carinho de
voces. Sei que h na vila um grupo de casas recm-construdas, todas iguais,
que o proprietrio colocou  venda, vamos negociar estas casas para vocs.
Venderei as peas mais antigas e valiosas separadamente, o resto ficar na
manso. Quero dar a Snia e Eliane, que vo casar, peas de roupas para
seus enxovais, podem pegar o que quiserem.
     Fez uma pausa, suspirou, para continuar tranquilamente:
     - Sinto por Rodolfo no estar aqui. Mas para o pequeno Michel quero dar
o cavalo Ventania, o preferido de Rodolfo
Quero que continuem a me servir at que a venda seja realizada e
certamente tero as melhores referncias junto ao novo proprietrio, que ir
quer-los, com certeza, trabalhando aqui.
     Todos agradeceram  nobre senhora. Ela fora muito justa e bondosa. D.
Eleonora olhou para Ana como se a visse s naquele momento e falou,
levando todos a se calarem para escut-la.
     - Ana Elizabeth! A curiosa excursionista da manso! A descobridora da
passagem secreta! Ter seu ordenado total e uma gratificao que fao
questo de lhe dar e que certamente lhe ser til at que arrume novo
trabalho.
     Ana corou, Dr. Bernardo sorriu, olhou-a, dando-lhe confiana e ela
acabou por desencabular. D. Eleonora sorriu, olhou para o velho amigo e
continuou:
     - Para meu amigo, Bernardo, deixo meu carro. No aceito recusa sem
me ofender. O seu carro est velho e o deixar qualquer dia na estrada sem
conseguir atender um dos seus doentes. E voc, Janice, fique  vontade com
quantos livros quiser da biblioteca. At mesmo,  claro, o que ensina Latim.
      - Verdade?! - exclamou Dra. Janice feliz. - Obrigada! D. Eleonora, muito
obrigada!
      Todos sorriram ao ver a sempre sria doutora, agora muito alegre e
esfregando as mos de contentamento.
      - Agora - finalizou a agradvel senhora -, irei descansar.
      Saiu acompanhada pelo mdico amigo. E todos se puseram a comentar
a bondade da patroa de tantos anos. Ana decidiu que ia partir logo, talvez j
no dia seguinte. Ao pensar que ia separar-se de Michel, seus olhos
umedeceram. Mas, pensou, no deixava de ter culpa por Michel, antes Luiz,
agora ser um simples empregado. Porm, colocando em prtica o que leu,
concluiu: ele aprende e certamente aproveitar bem esta encarnao.
Saiu da sala e dirigiu-se ao seu quarto. Na sala da escultura encontrou-se
com Raimundo. Ele estava contente e quando a viu ficou srio. Carregava
duas malas. Quando Ana escutou o barulho de carro partindo, suspirou
aliviada e todos ali tambm sentiram o mesmo.
      "Vai embora assassino! ", pensou Ana. "Foge do local do crime, porm
no poder fugir de si mesmo."
      A jovem professora continuou na sala e, quando pensou em subir e ir
para seu quarto, escutou:
      - Ana Elizabeth!
      Dra. Janice a chamou e, com um gesto, convidou-a a ir ao escritrio.
Acomodadas, a doutora disse, entregando-lhe um envelope:
      - Aqui est seu ordenado e tambm o endereo de um timo pensionato
para jovens. Conheo a proprietria e lhe escrevi recomendando-a. E esta 
uma carta de recomendao assinada pela D. Eleonora e por mim a um
colgio. Tenho certeza que daro emprego a uma professora competente
como voc. D. Eleonora tem muita amizade com a diretora deste
estabelecimento de ensino. Se voc quiser,  quase certa sua colocao.
      - Puxa! D. Eleonora  bondosa mesmo! Nem sei como agradecer a
voces.
      - Fiz somente o que ela mandou, mas acho estas medidas justas. No
cumpriu o tempo do contrato, mas no foi por sua culpa.
      Ana despediu-se da doutora e ia para seu quarto quando encontrou com
Snia.
      - Isto  para voc. Chegou hoje.
      Eram trs cartas. Ana as pegou, agradecendo, e foi para seu quarto onde
as abriu. Uma era de seu irmo, a outra de seu pai lhe dando a noticia que
mudara de emprego e que agora ia viajar por todo o pais. A me escrevera na
outra carta que estava apaixonada e que certamente ia morar com seu novo
amor.
      Ela as fechou e guardou, no ia responder naquele momento. Quando se
mudasse comunicaria ao irmo e iria pessoalmente dar notcias aos pais.
      Algum tempo depois viu um caminho parado no ptio e dele desceu um
trabalhador da funerria com uma urna. Ana desceu, foi  biblioteca e viu que
a passagem estava aberta e dois empregados ali estavam segurando cordas.
Um deles explicou para ela:
      Dr. Bernardo com dois empregados desceram pelo labirinto, amarraram
as cordas na cintura por precauo.
      A moa ficou ali por alguns minutos aguardando ansiosa que os trs
saissem daquele lugar secreto. Logo Dr. Bernardo com os outros dois saram
trazendo a urna fechada. O mdico sorriu ao v-la e comentou:
      - Todas as portas l embaixo foram abertas e s encontramos um
esqueleto. Vamos sepult-lo no cemitrio da vila no tmulo da famlia. Esta
passagem ficar aberta para que os novos proprietrios a conheam e
tenham como distrao.
     - Dr. Bernardo - pediu Ana timidamente -, gostaria de falar com o senhor
e me despedir.
     - Certamente, logo aps meu banho conversaremos. V at o meu
quarto.
     Ana saiu da biblioteca, ao passar pelo corredor escutou D. Eleonora e
Dra. Janice conversando numa das salas. Lembrou do porta-revista que
achou muito bonito e teve vontade de t-lo para si. Foi  sala onde estava a
pea antiga, pegou-a e voltou para a sala onde as duas estavam. Vencendo a
timidez, pediu licena e entrou na sala. As duas interromperam a conversa.
     - Desculpe-me, D. Eleonora, se a senhora puder, se... Ana no sabia
como terminar e arrependeu-se de ter entrado na sala.
     - Fale, Ana Elizabeth! Em que posso lhe ser til? -indagou a senhora
delicadamente. - No est satisfeita? Faltou-lhe algo?
- No senhora, est tudo certo. Gostaria de lhe agradecer, recebi mais do que
o combinado. Estou satisfeita! E que me encantei com este porta-revistas, se
a senhora pudesse me vender, se no for muito caro.
     - Este? - D. Eleonora pegou-o da mo de Ana. E uma pea antiga,
pertenceu a uma antepassada que no foi muito feliz, Vitria. Vale por ser
antiga, mas no como obra de arte. Eu pessoalmente acho-a de muito mau
gosto. Dou para voc. Ana Elizabeth, voc foi corajosa, apesar de ter
excursionado por ai com Cirilo. Parece que conhece mais a manso do que
eu. Talvez seja Bernardo quem tem razao. Fique com ele, guarde este
porta-revista como lembrana desta casa.
     - Obrigada, senhora, muito obrigada!
     Ana sentiu que ficou vermelha, gostaria de dar uma desculpa  senhora
pelas excurses que fizera com Cirilo pela manso. Mas achou que no era
necessrio, sentia-se desculpada. Pegou novamente a pea e saiu rpido no
querendo atrapalhar as duas que muito tinham que trabalhar. No corredor,
entendeu pelo que ouviu que as duas repartiam o dinheiro entre os netos de
D. Eleonora. Levou a pea para seu quarto e em seguida dirigiu-se aos
aposentos de seu velho amigo.
     Entrou no quarto do Dr. Bernardo e ouviu-o cantando no banheiro. Logo,
bem vestido, entrou na saleta onde Ana o aguardava.
     - Ana, voc ir partir logo?
     - Amanh.
     - Aqui est o endereo de um grupo de amigos estudiosos da Doutrina
Esprita. Se voc quiser estudar com eles, ser bem-vinda.
     - Obrigada. Leu o carto e o guardou no bolso da blusa. - O senhor
parece alegre, depois de tudo.
- A morte do corpo no me assusta, a desencarnao deveria ser por todos
encarada de forma natural e, se estamos conscientes e preparados, ela nos
leva a uma mudana feliz Cirilo est bem melhor agora junto de sua
mezinha. Esta casa teve acontecimentos tristes, de dios e erros que
levaram ao remorso muitas pessoas. Pela bondade do Pai, voltaram,
entenderam-se, afetos foram reatados e isto foi bom. Agora com novos
habitantes tudo ser renovado.
     - No sente a partida de D. Eleonora?
     - Sim, sentirei. Acho, porm, que ela agiu certo. Contei tudo a ela, suas
vises, a conversa com o esprito de Alice, os crimes de Raimundo.
     - Ela acreditou? Ter acreditado que o sobrinho  um assassino?
     - No sei, Ana. Eleonora escutou quieta, derramou algumas lgrimas,
mas, pelas atitudes que tomou, acho que acreditou. Eleonora sempre amou
muito Raimundo e dava muito dinheiro a ele, foi este o motivo que a levou a
brigar com o genro. Agora nem se ela quiser poder ajud-lo. Nunca tive
esperana de ficarmos juntos, contento-me em ser seu amigo, trocaremos
cartas e nos visitaremos algumas vezes. Estou velho, tenho meus clientes e a
vida continua...
      - O que aconteceu comigo aqui parece um sonho, Dr. Bernardo. As
vezes penso que irei acordar no meu antigo lar a escutar as brigas dos meus
pais. J estou partindo e pela bondade de vocs trs tenho onde morar e a
certeza de um bom emprego. Como, tambm, um grupo Esprita onde poderei
aprender a lidar com minha mediunidade, trabalhar para o bem de muitas
pessoas e para o meu.
      - Neste grupo, Ana, voc ser recebida como amiga. Escreverei a eles
recomendando-a.
      - Dr. Bernardo, aqui esto os trs livros que me emprestou.
      - Gostaria que voc os levasse, aceite-os como presente meu.
      - Obrigada! O senhor foi uma das melhores pessoas que j encontrei.
Ajudou-me muito.
      - No me agradea, Ana, imite-me.
      Sorriram e depois de uns instantes em silncio ela indagou:
      - Dr. Bernardo, e o Sr. Raimundo?
      - Aqui nesta manso vi pessoas resgatarem erros do
passado, se reconciliarem, como Cirilo, Rodolfo, Michel e at voc, a antiga
Vitria. Provando-nos que nada fica escondido, oculto para sempre. Tudo
indica que os crimes que Raimundo cometeu no sero punidos pela justia
dos homens. Mas ele caminha para sua prpria destruio. Raimundo s
possua esta propriedade. Quando receber o dinheiro da venda, gastar em
pouco tempo e no ter mais a tia para ajud-lo ou parentes a quem recorrer.
No sabe fazer nada a no ser gastar, farrear e viver na ociosidade. O ponto
triste nesta histria  ele. Os outros resgataram, aprenderam, e ele acumulou
erros.
      Conversaram mais um pouco e o mdico ofereceu-se para lev-la 
estao no outro dia. Ana aceitou e foi para seu quarto enxugando as
lgrimas que teimavam em escorrer pelo rosto.
      Foi jantar e escutou a calorosa conversa no salo ao lado. Pensou que
logo D. Eleonora seria to pobre como ela. Os trs, Dr. Bernardo, Dra. Janice
e a senhora da manso, pareciam no lembrar da desencarnao de Cirilo,
talvez porque era esperada pela doena dele ou porque ele sofrera muito.
Recordou de Rodolfo e sentiu saudades. Agradeceu novamente a Deus por
ter ficado amiga dele.
      Alimentou-se pouco e desceu ao ptio para despedir-se de Michel. Ao
ver a estrebaria sentiu uma enorme tristeza. Foi recebida na casa de Joo
com alegria e Michel lhe deu um forte abrao.
      - Vim me despedir, Michel, parto amanh.
      - Todos ns partiremos, Ana - disse Eliane. - Dentro de dias iremos
morar na vila, graas a Deus.
      - No gosta daqui, Eliane?
      - No sei - respondeu a irm de Michel. - Vivi aqui nestes anos todos
sempre impressionada, achava que algum iria me matar. Tinha medo, s
vezes.
      - At do pobre do Rodolfo - explicou Michel.
      - Isto j passou e eu... - falou Eliane encabulada.
      - J passou mesmo - confirmou Ana.
      A jovem professora lembrou que Eliane fora na outra encarnao a
primeira esposa de Andr. Instintivamente tinha medo de ser assassinada e
de Rodolfo. Porm como Dr. Bernardo havia lhe explicado nem todos os
medos de encarnados so por motivos assim. So muitas as causas e cada
caso deve ser estudado separadamente.
      - O importante  que iremos recomear - prosseguiu Joo. - E todo
recomeo deve ser com esperana. Ana, Dr. Bernardo me arrumou trabalho
na vila, irei cuidar de muitos jardins, estou contente.
     - D. Eleonora foi muito generosa - assegurou Eliane.
- Todos ns estamos contentes, at Michel.
     - Gosto muito daqui, talvez volte quando ficar grande
- disse Michel, srio. - Mas, sem meu amigo Rodolfo, no ser a mesma
coisa. Agora tenho Ventania, o cavalo que D. Eleonora me deu, vou tratar
bem dele. Irei correr com ele pelos campos. Ana, sinto por voc ir embora.
Ser que voc no arrumaria para lecionar na vila?
     - No, Michel, meu lugar no  aqui, devo partir. Aqui est meu
endereo, nos corresponderemos, est bem?
     Conversaram mais um pouco e Ana despediu-se. Ao passar pela entrada
da garagem, viu um vulto. Lembrou de Rodolfo, foi ali perto que o viu
sonmbulo. Parou e olhou sem medo. O vulto tomou forma e ela reconheceu
seu amigo. Rodolfo estava alegre, o rosto perfeito sem a cicatriz, sorriu para
ela e lhe abanou a mo num adeus. Ana sorriu retribuindo o aceno e a figura
de Rodolfo foi desaparecendo.
     "Adeus, Rodolfo, meu amigo", pensou a moa emocionada. "Adeus!"
     Teve certeza de que ele estava bem, isto a tranquilizou e falou alto como
sempre.
     "S os criminosos no tm paz! O nico digno de d o Sr. Raimundo."
     Sorriu escutando a sua voz. Iria procurar parar com este costume. Com
vontade sabia que venceria. No iria mais falar sozinha.
     Dormiu tranquila. Acordou cedo e arrumou tudo, suas malas e o quarto.
Depois do desjejum, Snia veio ajud-la com a bagagem. Despediu-se dos
trabalhadores da manso no ptio, at D. Eleonora veio dar seu abrao.
Michel abraou-a comovido e lhe deu um ramalhete de violetas.
     - Esto molhadas com minhas lgrimas. Ana, acho que sempre gostei de
voc. No ir me esquecer, no ?
     - Claro que no. Obrigada, Michel - respondeu a moa segurando as
lgrimas.
     Entrou no carro e Dr. Bernardo a levou  pequena cidade. Na frente da
estao, Ana reconheceu o garoto que lhe disse, no dia em que chegou, que
a Manso da Pedra Torta era assombrada. Olhou-o, sorriu e pensou:
"Assombrada! O que mais assombra so os nossos erros". Despediu-se do
velho mdico com um forte abrao prometendo corresponder-se com ele.
Entrou no trem.
     Ana Elizabeth sentiu-se feliz, sua vida mudara. No fazia muito tempo
que chegara e j estava partindo. Mas muitas coisas aconteceram, sentia-se
agora madura, confiante e segura. Sorriu como se sorrisse para a vida.
Estava nos ltimos dias do inverno e logo a primavera viria com a esperana
de um recomeo, agora tranquilo e cheio de felicidade.
    Alguns anos mais tarde, Michel voltou  propriedade como administrador.
Boa pessoa, trabalhador, foi feliz ali naquelas terras que amava tanto e que
os novos proprietrios mudaram de nome.
     Dr. Bernardo previu bem o que iria acontecer com Raimundo. Em pouco
tempo gastou o dinheiro que recebera com a venda da propriedade. Sem
dinheiro, com documentos irregulares foi preso num pais da Europa,
assaltando uma relojoaria a mo armada. Ficou muitos anos na priso.
Desencarnou doente, s e abandonado, sendo enterrado como indigente.
     Ana Elizabeth tornou-se uma professora competente
no colgio indicado por D. Eleonora. Anos mais tarde casou-se, viveu feliz
com o esposo e os filhos que teve. Tornou-se Esprita convicta, trabalhando
com sua mediunidade e aprendendo muito, porque  com o trabalho que
colocamos em prtica nossos conhecimentos. Compreendeu a importncia
da oportunidade que estava tendo de reparar seus erros do passado, com
Amor no trabalho edificante. Imitou seu benfeitor, o Dr. Bernardo, que nunca
foi esquecido. E a alegria de servir fez com que se dedicasse a ensinar outros
mdiuns e freqentadores das casas Espritas sobre a importncia de servir e
no mais ser servido, de doar e no ser mendigo de favores espirituais de
outros. Ao fazermos o Bem, poderemos um dia dizer: fiz, constru, aprendi e,
quem sabe, tornei-me bom.
   Alegria!
